User Tools

Site Tools


estudos:caron:contra-subjetividade-transcendental-peos-137

regência do si pelo ser (2005:137)

PEOS

  • A redução transcendental como método fenomenológico fundamental.
    • A redução consiste no desvio do olhar da existência dos objetos do mundo natural, denominado por Husserl como mundo transcendental ou exterior à consciência.
    • O objetivo é redescobrir a presença possível desse mundo no interior da estrutura intencional da consciência, isto é, na imanência do ego.
    • Essa esfera de pura evidência, da qual não se pode rejeitar a indubitabilidade dos vividos, é o terreno seguro para a certeza.
  • Crítica à atitude natural e busca de um fundamento absoluto.
    • Toda cognição natural, incluindo a pré-científica e a científica, é uma cognição que objetiva de modo transcendente, ou seja, que posa a existência de objetos exteriores.
    • Husserl rejeita essa pretensão, pois tais objetos não são dados no verdadeiro sentido, não são imanentes à consciência.
    • É necessário, portanto, retornar a uma esfera na qual a certeza é a lei, uma esfera que não pode ser emprestada do exterior à subjetividade.
  • A inspiração e a divergência em relação ao caminho cartesiano.
    • O método husserliano inspira-se no percurso cartesiano da dúvida e na descoberta da esfera das verdades absolutas, compreendida sob o título da cogitatio.
    • Contudo, Husserl não pretende retornar a Descartes nem à primazia da certeza como mero sentimento.
    • A diferença decisiva reside na concepção das ideias: para Husserl, elas são vividos, são a própria realidade, e não meros elementos cortados de uma exterioridade tida como única real.
  • A centralidade absoluta da consciência e o problema da exterioridade.
    • Nada existe fora da consciência, pois esta nunca pode sair de si mesma.
    • Mesmo quando crê estar no exterior de si, está sempre em si mesma, em um modo particular de visada do objeto, a visada transcendente.
    • O problema filosófico consiste em compreender como a consciência pode, então, formular juízos sobre uma exterioridade que, dependendo dela, se apresenta como plenamente exterior.
  • A estrutura da exterioridade no interior da consciência e o papel do categorial.
    • A estrutura de exterioridade deve ser reencontrada no coração da própria consciência.
    • Husserl destaca a presença na consciência de uma instância categorial que permite traçar o horizonte de aparecimento de todo objeto de aparência exterior.
    • Essa instância categorial possibilita à consciência pronunciar-se em si mesma sobre a exterioridade.
  • Superação do idealismo cartesiano através da intuição categorial.
    • Para superar o idealismo cartesiano, é necessário reconhecer que a ideia não está cortada do mundo que apreende, mas é um vivido que possui em si mesmo a capacidade de projetar a constituição de um mundo.
    • Para adquirir essa força constituinte, o vivido deve ser dotado de uma intuição categorial, através da qual toda estrutura de mundo lhe é dada.
    • A esfera do pensamento puro deve poder encontrar em si mesma o que preencher em potência seus próprios vividos eidéticos, assim como os vividos sensoriais são preenchidos por seu objeto.
    • É necessário um ato que preste aos elementos categoriais da significação os mesmos serviços que a percepção sensível presta aos seus elementos materiais.
  • O estatuto do ser como não-perceptível e como correlato da consciência.
    • O ser não pode ser apreendido pelos sentidos; não é uma parte ou um momento inerente ao objeto, nem uma qualidade ou característica real, seja intrínseca ou extrínseca.
    • O ser não pertence a nenhum objeto exterior, não sendo nada de perceptível.
    • Uma significação como a do ser não encontra nenhum correlato objetivo possível, nem preenchimento possível, nos atos de percepção sensível.
    • A intuição do ser deve, portanto, ser buscada em uma intuição de gênero novo, não sensível.
  • O ser como “Sache” da consciência e a intuição categorial.
    • O ser não é algo à parte, nem um nada absoluto; ele faz parte de um gênero determinado de intuição, a intuição categorial.
    • Sua presença em todo enunciado atesta sua presença para a consciência; sua ausência na intuição sensível atesta sua presença exclusiva na consciência ideadora.
    • O ser é a “Sache”, a coisa da consciência, seu ponto de apoio, que não é propriamente exterior a ela.
    • O ser pertence à estrutura da consciência e de seus objetos próprios, em um tipo de intuição igualmente próprio.
  • A intuição universal e a autonomia constituinte da consciência.
    • Através da intuição categorial ou intuição do universal, todo ato cognitivo encontra seu preenchimento sem ter de buscá-lo fora da esfera de imanência da consciência.
    • A consciência husserliana visa o objeto graças à presença de atos categoriais nos quais a presença do objeto pode ser dada.
    • Por meio desses atos, o ser e outras categorias estão no fundo da doação do objeto à consciência.
    • Isso permite à consciência uma dinâmica intencional própria, independente de um mundo exterior que a colocaria em movimento.
  • A objeção heideggeriana: a dependência constitutiva da consciência em relação ao ser.
    • Heidegger questiona se se pode afirmar, como Husserl, que a consciência constitui o mundo exclusivamente por si mesma.
    • Uma vez que foi necessário mobilizar o ser para dotar a consciência de sua própria mobilidade, salientando a intuição categorial, parece que a dinâmica da consciência não é independente.
    • A dinâmica intencional da consciência parece dever-se precisamente à sua estrutura categorial, e, para Heidegger, mais particularmente ao ser que está nela.
    • Husserl, ao obter o fundamento da intencionalidade graças à presença do ser, parece depois esquecer esse elemento e contentar-se com a presença da subjetividade como ponto de apoio inabalável.
  • A tensão interna no projeto husserliano: fortalecer a subjetividade com um elemento que a fragiliza.
    • O primeiro objetivo de Husserl era fundar a certeza dos atos de consciência para escapar ao ceticismo, evidenciando a intuição categorial.
    • Contudo, a intuição categorial torna o poder da esfera subjetiva dependente de sua ligação com o ser, o que impede concluir pela absolutidade dessa esfera.
    • Enfrenta-se a dificuldade de tentar reforçar a subjetividade com um elemento que, em última análise, a enfraquece ao torná-la dependente de outra coisa.
  • A virada transcendental como tentativa de salvaguardar a subjetividade absoluta.
    • Consciente dessa dificuldade, Husserl procurou manter o ponto de vista da subjetividade absoluta de outra forma, através da redução transcendental.
    • Essa virada não é outra coisa senão a revelação das intenções de fundamentação que, diante dos embaraços causados pela intuição categorial, buscam isolar o ego puro.
  • A redução do ser e a primazia do vivido absoluto.
    • Na evolução do pensamento de Husserl, após servir de suporte ao desdobramento da intencionalidade, o ser é relegado a um segundo plano.
    • O ego aparece como o terminus ad quem ao qual o próprio ser é reduzido.
    • Após a redução, o vivido se impõe como dado absoluto e indubitável, sendo ele mesmo e sendo-em-relação.
    • Não é mais necessário o ser para fundar o poder intuitivo da subjetividade, pois o vivido se basta a si mesmo.
    • O ser deixa de ser aquilo por meio do qual o ato de consciência se constitui, para se tornar aquilo que é constituído por esse ato.
  • A crítica de Heidegger à absorção do ser na imanência.
    • Heidegger identifica essa inversão como um desvio em relação às consequências que a teoria da intuição categorial, estabelecida nas Investigações Lógicas, deveria ter.
    • Para Heidegger, o ato de consciência só é o que é pela proximidade do ser, que não pode de modo algum ser reduzido àquilo que condiciona.
    • Em Husserl, através da redução ao puro vivido, o ser acaba confundido com o vivido mesmo, fundindo-se na unidade intuitiva de um campo de objetos de consciência.
    • O elemento possibilitador, o ser, não é considerado em seu fator possibilitador, e aquilo que ele torna possível acaba por tomar seu lugar.
  • A fenomenologia como retorno à consciência e investigação da subjetividade pura.
    • A fenomenologia husserliana apresenta-se, em última análise, como um vasto empreendimento de retorno à consciência.
    • A investigação dos domínios dessa consciência pura, resíduo da redução do mundo transcendental, é seu campo privilegiado de atividade.
    • O termo fenomenologia significa, para Husserl e Heidegger em acordo momentâneo, esclarecer a necessidade do retorno à consciência, determinar radicalmente seu caminho e procedimentos, delimitar e explorar sistematicamente o campo da subjetividade pura.
  • O objetivo do retorno: estabelecer uma esfera de certeza, não investigar a origem ontológica.
    • O retorno ao ego visa estabelecê-lo, por uma descrição de suas potencialidades, em uma esfera de influência onde só ele reina sobre os fundamentos de todo conhecimento.
    • Trata-se de legitimar um método rigoroso, sem manifestar uma vontade de fundamentação além dos resultados que ela proporcionará.
    • O objetivo não é buscar a origem ontológica do poder do eu ou sua origem histórica, mas sim encontrar um começo absolutamente não problemático para estabelecer uma cadeia de certezas.
  • A redução fenomenológica como método programado e não radical.
    • A redução não pode ser considerada um começo radical, pois é programada por certezas prévias sobre a validade do ego puro que será seu resultado.
    • Já nas primeiras ocorrências da noção, a redução aparece como uma atividade que não deve pressupor nada, mas que ela mesma deve pôr um primeiro conhecimento, que é a subjetividade.
    • A subjetividade pura é a pressuposição fundamental sem a qual nem mesmo haveria a ideia da epoché.
    • Há, portanto, um círculo de pressuposição: a redução é motivada pela pressuposição da validade universal da intuição.
  • A atitude de Husserl diante do mistério e da obscuridade.
    • Husserl permanece insensível à questão do próprio ser da consciência.
    • Quando uma zona de obscuridade se apresenta, a atitude husserliana consiste em reduzi-la à clareza desvendada pela consciência, cuja origem não é interrogada.
    • Heidegger opõe-se a isso, defendendo que o pensamento deve penetrar no problema, não reduzi-lo às próprias normas de conforto.
    • Para Heidegger, a luz (a evidência) surge de uma obscuridade que deve ser pensada em sua capacidade de fazer jorrar a claridade.
  • A inversão absoluta: o ser como secundário em relação à consciência absoluta.
    • A prática da redução conduz Husserl a uma consciência que se manifesta como absoluta.
    • Isso completa a submissão do ser ao eu, invertendo o sentido usual da expressão “ser”.
    • O ser que é primeiro para nós é, em si, segundo, pois o que ele é só o é em “relação” ao primeiro, a consciência.
    • A consciência, uma vez reduzida, aparece como não necessitando de nada para existir; seu ser imanente é um ser absoluto.
  • A autossuficiência do ego puro e a questão não colocada do ser que o sustenta.
    • O vivido e, de modo ainda mais eminente, o eu puro, são postos na existência, aspecto do qual depende sua absolutidade.
    • Husserl não se pergunta, contudo, qual é a consistência desse ser sobre o qual o vivido e o eu são depositados, e cujo contato permanente lhes dá seu caráter absoluto.
    • Ao invés de entrever o caráter condicionante do ser para a absolutidade do eu, Husserl faz o ser depender desse eu.
  • A intencionalidade como estrutura extrovertida e constitutiva.
    • Uma vez realizada a epoché, o ego residual aparece como um campo de percepções potenciais.
    • Cada vivido de consciência visa algo e se revela como um ser-relacional que produz ele mesmo o horizonte do objeto.
    • A própria estrutura da consciência é extrovertidora, não dependendo mais de uma ação do mundo exterior.
    • A intencionalidade é o tema central da fenomenologia, a estrutura fundamental que permite à consciência constituir o mundo em sua própria imanência.
  • A dissolução da transcendência na imanência intencional.
    • A transcendência do mundo é integrada na imanência do ego ou definitivamente posta entre parênteses.
    • Não há sentido em querer sair de uma consciência que, por essência, não pode sair de si mesma.
    • O ego transcendental produz em si mesmo, sem sair de um círculo sem exterioridade, o ser-exterior do objeto, que é a estrutura intencional do vivido.
    • O ego não “cria” o mundo, mas o constitui como seu domínio de aparecimento.
  • A fenomenologia como idealismo radical e total.
    • Husserl defende-se da acusação de idealismo argumentando que o ser é apenas um correlato intencional, não havendo dois mundos (de ideias e de coisas), mas apenas o mundo da imanência consciente.
    • Para Heidegger, porém, Husserl vai muito mais longe no idealismo: em vez de opor consciência e ser, suprime a realidade própria do ser, reduzindo-a ao desdobramento de uma intencionalidade.
    • Trata-se de um idealismo total, no qual toda transcendência é reabsorvida e submetida à vida da consciência intencional.
    • A consciência pura é a forma absoluta do mundo, origem doadora a partir da qual todas as transcendências se constituem em seu seio.
estudos/caron/contra-subjetividade-transcendental-peos-137.txt · Last modified: by 127.0.0.1