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estudos:byung-chul-han:violencia-originaria-a-insunuosa

DA VIOLÊNCIA ORIGINÁRIA A INSUNUOSA

BYUNG-CHUL HAN. Topologia da violência. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.

* A sociedade grega antiga denominava a tortura como ἀυάγκαι, termo associado ao necessário e ao indispensável, e a percebia como destino ou lei natural, revelando uma sociedade do sangue que sancionava a violência psíquica como meio para um fim, na qual a força externa aliviava a alma ao externalizar o sofrimento e impedir o diálogo atormentador consigo mesma, ao passo que na Modernidade a violência é internalizada, psicologizada e assume formas intrapsíquicas de processamento.

  • O termo grego para tortura, ἀυάγκαι, relaciona-se a ἀναγαῖος (necessário, indispensável).
  • A tortura era tida como destino ou lei da natureza (ἀυάγκη).
  • A sociedade do sangue distingue-se da sociedade moderna da alma.
  • Na violência arcaica, a força externa aliviava a alma ao externalizar o sofrimento.
  • A alma não se afundava em diálogo atormentador consigo mesma.
  • Na Modernidade, a violência torna-se psíquica, psicologizada, internalizada.
  • As energias são pro-cessadas e trabalhadas psiquicamente, não descarregadas de modo diretamente afetivo.

* A mitologia grega apresenta deuses que empregam a violência como método evidente e natural para impor a vontade, exemplificada por Bóreas, que após tentativas infrutíferas de conquista por rogos, recorre à tempestuosidade e à força por direito próprio, e a cultura efervescente e afetiva da Grécia antiga manifestava afetos virulentos em formas violentas, como no mito de Adônis, em que o javali, com dentes erotizados, mata o jovem ao tentar acariciá-lo, paradoxo no qual a cultura do afeto e do instinto sucumbe.

  • Bóreas, deus dos ventos do norte, justifica o uso da violência após rogos não trazerem resultados.
  • A violência divina é vista como direito próprio.
  • A Grécia antiga era uma cultura efervescente de afetos virulentos e formas violentas.
  • O javali que mata Adônis a dentadas incorpora a violência da cultura afetiva.
  • O javali afirma ter ferido com dentes erotizados (ἐρωτικοὺς ὀδόυτας) ao tentar acariciar.
  • O paradoxo do afeto que fere é o ponto em que a cultura do instinto sucumbe.

* Na era Pré-moderna a violência era onipresente, constitutiva da práxis e da comunicação social, sendo não apenas exercida mas também focalizada e exposta, de modo que o governante manifestava seu poder (Macht) por meio do sangue e da violência mortífera, e o teatro da crueldade nas praças públicas encenava esse poder e domínio.

  • A violência pré-moderna era parte constitutiva essencial da práxis e da comunicação social.
  • A violência era focalizada e exposta, não apenas exercida.
  • O governante manifestava poder (Macht) por meio da violência mortífera e do sangue.
  • O teatro da crueldade nas praças públicas encenava o poder e o domínio do governante.
  • A violência e sua encenação teatral eram parte essencial do exercício do poder e do domínio.

* Na antiguidade romana, o munus gladiatorium, parte do serviço público denominado Munera, incluía não apenas as lutas de gladiadores mas também preparativos ao meio-dia infinitamente mais cruéis, como a damnatio ad bestias, na qual criminosos eram lançados a animais predadores, e esse espetáculo não era mera diversão das massas, mas possuía significado político ao encenar o poder do soberano como poder da espada, sendo parte constitutiva do culto ao imperador e insígnia de poder visível, manifesta, convincente e sem vergonha.

  • Munera designava serviço prestado à publicidade; munus era o presente esperado de detentor de ofício.
  • O munus gladiatorium tinha as lutas de gladiadores como pequena parte; os preparativos do meio-dia eram infinitamente mais cruéis.
  • As modalidades de morte incluíam damnatio ad gladium, damnatio ad flammas e damnatio ad bestias.
  • A damnatio ad bestias consistia em lançar criminosos como alimento a animais predadores.
  • O munus gladiatorium tinha significado político, não era apenas diversão para satisfazer instinto agressivo.
  • O teatro da crueldade encenava o poder do soberano como poder da espada.
  • O munus gladiatorium era parte constitutiva e essencial do culto ao imperador.
  • A violência pela força bruta era insígnia de poder, visível, manifesta, sem vergonha, convincente e significativa.
  • Na cultura arcaica e na Antiguidade, a encenação da violência era parte integral e central da comunicação social.

* Na Idade Moderna a violência da força bruta perde legitimidade em quase todos os níveis da sociedade e é desprovida de palco, com execuções em espaços inacessíveis ao público, campos de concentração localizados nas periferias como não lugares que não encenam a violência homicida, câmara de gás exangue sem atenção pública, violência envergonhada que se esconde, carece de linguagem e simbologia, é aniquilação muda, e o muçulmano, vítima dessa violência, é renegado e visto como criminoso.

  • A violência da força bruta perde legitimidade no cenário político e em quase todos os níveis da sociedade.
  • A violência é desprovida de palco; execuções ocorrem em espaços sem acesso público.
  • A violência homicida já não é colocada sob visibilidade.
  • Os campos de concentração são não lugares (Ab-ort), localizados nas periferias, não palcos da violência.
  • O palco da violência de sangue da sociedade da soberania dá lugar à câmara de gás exangue, sem despertar atenção pública.
  • A violência se esconde envergonhada, retirada da encenação pública.
  • Falta à violência linguagem e simbologia; ela é aniquilação muda.
  • O muçulmano é vítima da violência que se torna envergonhada, é renegado e visto como criminoso.
  • O campo de concentração distingue-se do presídio por ser um não lugar.

* O fim da sociedade pré-moderna da soberania como sociedade do sangue submete a violência a uma mudança topológica que a retira da comunicação política e social e a desloca para espaços subcomunicativos, subcutâneos, capilares, intrapsíquicos, do visível ao invisível, do direto ao discreto, do físico ao psíquico, do marcial ao medial, do frontal ao viral, operando por contaminação, infecção oculta e não por confrontação ou ataque aberto, e essa modificação estrutural domina também o terrorismo, que se dissemina como vírus, e a ciberguerra, que opera de forma viral, subtraindo a violência da visibilidade e publicidade e tornando o agressor invisível, embora ainda seja violência da negatividade com bipolaridade entre algoz e vítima, bem e mal, amigo e inimigo.

  • A violência já não é parcela da comunicação política e social.
  • A violência retira-se para espaços subcomunicativos, subcutâneos, capilares, intrapsíquicos.
  • O deslocamento dá-se do visível ao invisível, do direto ao discreto, do físico ao psíquico, do marcial ao medial, do frontal ao viral.
  • Os modos de atuação são contaminação e infecção oculta, não confrontação ou ataque aberto.
  • O terrorismo compõe forças destrutivas de modo viral e invisível.
  • A ciberguerra opera de forma viral, subtraindo violência da visibilidade e publicidade.
  • O agressor torna-se invisível; vírus digitais infectam em vez de atacar e dificilmente deixam rastros.
  • A violência viral permanece violência da negatividade, com bipolaridade entre algoz e vítima, bem e mal, amigo e inimigo.

* A internalização psíquica é um dos centrais deslocamentos topológicos da violência na Modernidade, na qual a violência toma forma de conflito intrapsíquico, com tensões destrutivas suportadas internamente em vez de descarregadas para fora, e Freud localiza na consciência moral a instância de controle e vigilância intrapsíquica resultante da inversão da violência, em que a agressão contra os outros transforma-se em autoagressão e a consciência moral torna-se mais rigorosa quanto mais a pessoa refreia a agressão externa.

  • A violência moderna toma forma de conflito intrapsíquico.
  • Tensões destrutivas são suportadas internamente, não descarregadas para fora.
  • O front de batalha é interno, não externo.
  • Freud vê a consciência moral como lugar da inversão da violência.
  • A heresia freudiana declara o surgimento da consciência moral pela guinada da agressão para dentro.
  • A agressão contra os outros transforma-se em autoagressão.
  • Quanto mais se refreia a agressão contra os outros, mais rigorosa e coercitiva se torna a consciência moral.

* A técnica de dominação utiliza a internalização da violência ao prover mecanismos para que o sujeito de obediência internalize instâncias de domínio exteriores como parte componente de si, exercendo domínio com menos desgaste, e a violência simbólica, modalidade que se serve do automatismo do costume, inscreve-se nas coisas autoevidentes, naturais, nos modelos de percepção e comportamento habituais, naturalizando a violência e mantendo relações de domínio sem emprego de violência física ou marcial, enquanto a técnica disciplinar, com intervenções refinadas e discretas, penetra nos ductos neuronais e nas fibras musculares, submetendo o indivíduo a coerções e imperativos ortopédicos e neuropédicos, substituindo a violência massiva da decapitação pela deformação gradativa e subcutânea.

  • A internalização da violência provê mecanismos para que o sujeito de obediência internalize instâncias de domínio exteriores.
  • O domínio exerce-se com menos desgaste por meio da internalização.
  • A violência simbólica serve-se do automatismo do costume.
  • A violência simbólica inscreve-se nas coisas autoevidentes, naturais, nos modelos de percepção e comportamento habituais.
  • A violência é naturalizada.
  • As relações de domínio vigentes mantêm-se sem emprego de violência física ou marcial.
  • A técnica disciplinar serve-se da internalização psíquica da coerção.
  • As intervenções disciplinares são refinadas, discretas, penetram nos ductos neuronais e nas fibras musculares.
  • A coerção submete o indivíduo a imperativos ortopédicos e neuropédicos.
  • A violência massiva da decapitação cede lugar à deformação gradativa e subcutânea.

* O sujeito de desempenho pós-moderno, não mais submisso a ninguém e já não propriamente sujeito, libera-se para um projeto, mas a mudança de sujeito para projeto não faz desaparecer a violência; em lugar da coerção exterior surge a autocoerção imaginada como livre, desenlace ligado às relações de produção capitalista, em que a autoexploração é mais eficiente e intensa que a exploração alheia por andar de mãos dadas com o sentimento de liberdade, resultando na sociedade de desempenho como sociedade de autoexploração, na qual o sujeito de desempenho explora a si mesmo até o burnout e a autoagressividade intensificada leva não raro ao suicídio, e o projeto revela-se um projétil direcionado contra si.

  • O sujeito de desempenho pós-moderno não está submisso a ninguém; já não é sujeito (subject to, sujét à).
  • O sujeito positiva-se e libera-se para um projeto.
  • A violência não desaparece com a mudança de sujeito para projeto.
  • A autocoerção, imaginada como livre, substitui a coerção exterior.
  • A partir de certo nível de produção, a autoexploração é mais eficiente que a exploração alheia.
  • A autoexploração anda de mãos dadas com o sentimento de liberdade.
  • A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração.
  • O sujeito de desempenho explora a si mesmo até o consumo total (burnout).
  • A autoagressividade intensifica-se e não raro leva ao suicídio.
  • O projeto revela ser um projétil que o sujeito de desempenho direciona contra si.
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