VAZIO [LEERE] DO CÂNTARO (2023)
HAN, Byung-Chul. Filosofia do zen budismo. Tradução: Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2023.
* A alma leibniziana como mônada realiza um espelhamento ativo do universo mediante uma representação que não é passiva, pois lhe é inerente um anseio ou apetite constante, cujo significado etimológico de “tentar pegar algo” ou “atacar algo” define o acesso perceptivo ao mundo e faz do desejo o traço fundamental que mantém a mônada viva e no ser.
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A mônada espelha o universo em si mesma como um espelho.
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O espelhamento não é repouso ou ausência de si, mas representação ativa [perception].
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O apetite [appetitus] é o anseio inerente à mônada.
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A percepção é um acesso ao mundo por meio da ação de apanhar representativamente.
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O desejo é o traço fundamental da alma.
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A ausência de apetite equivaleria à morte; ser significa ter-apetite.
* A mônada comporta-se expressivamente, não receptivamente, de modo que ao exprimir o mundo representativamente ela expressa a si mesma, e a alma é aquilo que demanda em seu apetite, constituindo-se como alguém somente na medida em que deseja.
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O mundo não surge de espelhamento passivo, mas é expressão [expressio].
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Na representação do mundo [reprasentatio mundi] a alma apresenta a si mesma.
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O desejo ou vontade [conatus] é constitutivo do ser da alma.
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O appetitus pressupõe interioridade que toma e incorpora o que está lá fora.
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A alma é alguém apenas enquanto deseja; um homem representa algo quando é alguém.
* Para Leibniz o nada é mais simples e mais leve que o ser, e ser exige força, vontade ou impulso que resista ao nada, capacidade que consiste em um se-gostar e no esforço de se efetivar, ao passo que Dōgen, em contrapartida, aponta para um ser cujo traço fundamental não é a vontade ou o desejo, alcançado pela prática zen-budista que faz o coração jejuar.
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O ser requer vis ou conatus para fazer frente ao nada.
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Essa capacidade é um se-gostar e um esforço de se efetivar [Sicherwirkens].
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O ser indica a constituição do querer inerente à autorreferencialidade do se-querer.
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Dōgen contrapõe um ser sem appetitus.
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A prática zen-budista faz o coração jejuar até que um ser inteiramente diferente se torne disponível.
* O mundo das mônadas permanece trancado no interior das almas sem janelas, que não olham umas às outras e só se comunicam pela mediação de Deus, enquanto na concepção zen-budista o ente possui abertura ou hospitalidade sem limites, consistindo em um espelhamento recíproco e sem desejo de todos os entes em todos os entes.
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As almas são indivíduos sem janelas, sem olhar umas para as outras.
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A comunicação entre mônadas dá-se apenas por intervenção divina.
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No zen-budismo todo ente espelha todos os outros, que o espelham de volta.
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O espelhamento ocorre sem appetitus, sem intenção ou sentido concebível.
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O espelho é em si vazio, jejua, não busca apanhar nada, espelha sem interioridade e sem desejo.
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A condição de não ser ninguém [Niemandigkeit] torna o espírito hospitaleiro a todo ente.
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O espelho não possui personalidade própria, por isso acolhe todas as formas.
* À mônada da alma é inerente uma perspectiva que anseia e põe o mundo diante dos olhos, acesso perspectivo impossível sem appetitus, enquanto o coração em jejum espelha aperspectivamente o mundo, vendo-o tal como ele seria visto por si mesmo.
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A representação perspectiva do mundo pressupõe um ponto que anseia.
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Sem appetitus não há visão perspectiva.
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O coração em jejum espelha sem appetitus e sem perspectiva.
