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Realismo e Idealismo

BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.

  • O §43 de Ser e Tempo retoma as problemáticas tradicionais do realismo e do idealismo, tratando em §43a o problema da existência do mundo externo, isto é, o ceticismo epistemológico, e em §43c o problema ontológico de saber se o mundo depende de nós, deixando-se de lado o §43b, sobre a visão de Dilthey de que a realidade é resistência à vontade, importante em 1927 mas não hoje
    • Em ambos os casos, o problema tradicional em vista não é tanto resolvido quanto dissolvido, aproximando-se de outros filósofos do século vinte que tentaram resposta semelhante, como Carnap, Wittgenstein, Dewey, Davidson e Rorty, todos compartilhando a intuição de que os problemas tradicionais sobre a existência de um mundo fora das mentes, e sobre sua cognoscibilidade, são pseudoproblemas

Ceticismo Epistemológico

  • O ceticismo epistemológico sustenta que não se pode saber se existe um mundo além da experiência, encontrando sua expressão moderna canônica na Primeira Meditação de Descartes
    • Descartes oferece três argumentos escalonados para a conclusão cética, começando pelas preocupações com a ilusão perceptiva, avançando para a dúvida sobre o sonho, e concluindo com o chamado Argumento do Demônio Enganador, segundo o qual um demônio todo-poderoso poderia manipular a experiência de modo a produzir a experiência de um mundo que não existe, sendo possível ao demônio criar uma experiência total que passa em todos os testes internos de verdade, mas que ainda assim é falsa
  • Esses desafios epistemológicos atormentam a filosofia moderna desde a publicação das Meditações, suscitando amplo leque de respostas
    • Descartes refutou o ceticismo que ele mesmo levantara argumentando que um Deus todo-poderoso e todo-bom não permitiria tal engano, ao passo que outros filósofos do início da modernidade ou aquiesceram ao ceticismo, como Hume, ou argumentaram que as coisas físicas são apenas ideias, ou construções a partir de ideias, na mente, como Berkeley
    • Kant, ao avaliar os destroços da epistemologia moderna, comentou permanecer um escândalo para a filosofia e para a razão humana em geral que a existência das coisas fora de nós deva ser aceita apenas por fé, sem que se possa contrapor prova satisfatória a quem duvide dessa existência, oferecendo um argumento transcendental altamente complexo, um tanto obscuro e vigorosamente debatido contra o ceticismo
  • A resposta a toda essa discussão é formulada como réplica direta a Kant, segundo a qual o escândalo da filosofia não está em tal prova ainda não ter sido dada, mas em tais provas serem esperadas e tentadas repetidamente, sendo o ceticismo resposta a uma questão defeituosa, pois a questão de saber se há um mundo e se seu ser pode ser provado carece de sentido quando levantada pelo ser-aí (Dasein) como ser-em-o-mundo, e quem mais a levantaria
  • Há passagens do §43a que dão a impressão de que o mundo não seria realmente independente do ser-aí, dispensando assim a necessidade de prová-lo
    • Tais expectativas, objetivos e exigências surgem de um ponto de partida ontologicamente inadequado, de algo de tal caráter que independentemente dele e fora dele um mundo deveria ser provado como presente à mão (vorhanden)
    • Essa sugestão de uma forma de idealismo, segundo a qual não se poderia provar um mundo fora ou independente de nós porque o mundo por sua própria natureza dependeria de nós, não pode corresponder ao pensamento em jogo, pois essa estratégia refuta o cético, ao passo que se argumenta antes que a questão do cético carece de sentido, razão pela qual se afirma que o problema da realidade, no sentido da questão de saber se um mundo externo está presente à mão e se tal mundo pode ser provado, revela-se um problema impossível
  • A questão em si deve ser rejeitada, o que equivale a argumentar que tanto a resposta afirmativa quanto a negativa à questão de saber se podemos conhecer o mundo são falsas ou de outro modo equivocadas, sendo o problema impossível não porque suas consequências levem a becos sem saída inextricáveis, mas porque o próprio ente que serve como seu tema repudia, por assim dizer, tal formulação da questão, não sendo o ser-aí fundamentalmente um sujeito cognoscente nem o mundo um objeto de conhecimento
    • Mesmo que se invocasse a doutrina segundo a qual o sujeito deve pressupor, e de fato sempre pressupõe inconscientemente, a presença à mão do mundo externo, ainda se estaria partindo do constructo de um sujeito isolado
  • O acesso ao mundo se constitui pela familiaridade com o mundo, familiaridade não constituída por crenças, mas por uma forma de compreensão que torna possíveis crenças e asserções, operando as relações justificatórias que constituem o conhecimento no nível da crença e da asserção, não da familiaridade, de modo que perguntar se sabemos que há um mundo equivale a perguntar se podemos cheirar a cor vermelha, questão mal formulada
  • Há um paralelo interessante com o argumento oferecido por John Dewey em 1912, segundo o qual a premissa falha subjacente a toda a controvérsia entre ceticismo e realismo epistemológico é a suposição de que todos os modos de acesso ao mundo ao redor são formas de conhecimento, suposição falsa que torna toda a discussão baseada em erro
    • Dewey apresenta uma sátira hilariante de toda a questão como um debate entre foodistas e eateristas, supondo o comer como nossa única relação com o mundo
    • Dado que o ser-aí e o mundo não são sujeito e objeto, e dado que a relação básica com o mundo é de desvelamento, não de cognição, toda a discussão do ceticismo epistemológico é ociosa, não se pretendendo refutar o cético tanto quanto descartá-lo por basear seu desafio num conjunto equivocado de suposições sobre a ontologia do ser-aí
  • Mesmo concedendo que a abertura (Erschlossenheit) é mais fundamental que o conhecimento, às vezes se tenta conhecer coisas, podendo-se entreter preocupações céticas sobre tais tentativas, podendo um cético argumentar que se mudou de assunto em vez de dispensar o ceticismo, restando saber o que se tem a dizer sobre os desafios céticos ao conhecimento
    • Não se considera explicitamente essa preocupação em Ser e Tempo, sendo necessário construir uma resposta, perguntando-se o que dá força aos desafios céticos ao conhecimento do mundo, e por que os filósofos se preocupam com o ceticismo há dois milênios e meio, e por que tantos jovens estudantes de filosofia se veem tomados, alguns até obcecados, pelo ceticismo
    • O ceticismo epistemológico desafia a segurança da conexão com o mundo, subjazendo a preocupação de estarmos cortados do mundo, fora de contato com ele, preocupação explorada cinematograficamente em filmes como Matrix, dos Wachowski, de 1999, e em séries como Westworld, da HBO, entre 2016 e 2022
    • De modos humildes e cotidianos, é familiar a experiência de estar fora de contato com algum domínio da vida ou algum grupo de pessoas, perguntando-se o que ocorreria se essa experiência fosse plenamente geral, havendo algo a dizer a essas preocupações mais vagas e gerais, a saber, que o ceticismo epistemológico não é assim tão interessante, pois ainda que argumentos epistemológicos possam fazer decolar preocupações céticas sobre o conhecimento, tais preocupações não tocam os modos básicos de acesso e familiaridade com o mundo, não havendo ameaça real de estarmos cortados do mundo, ou, mais cuidadosamente, exigindo os modos pelos quais podemos estar cortados do mundo reflexão existencial, não epistemológica, sendo a angústia, não o ceticismo, uma ameaça à nossa conexão com o mundo

Idealismo e Realismo Metafísicos

  • Os filósofos tradicionalmente perguntaram não apenas se podemos conhecer o mundo, mas também se o mundo existe independentemente de nossa experiência dele
    • Realistas do início da modernidade, como Descartes e Locke, argumentam que o mundo existe independentemente da experiência que dele temos, ao passo que idealistas, como Berkeley e Leibniz, argumentam que o mundo dos fenômenos naturais depende da experiência que dele temos, tentando Kant conciliar as duas posições ao sustentar que, embora o mundo seja independente da experiência idiossincrática de um indivíduo, não é independente do entendimento humano em geral
  • Assim como na resposta ao ceticismo epistemológico, não se toma posição dentro desse debate, rejeitando-se antes o debate inteiro
    • Somente enquanto o ser-aí é, isto é, somente enquanto uma compreensão de ser é onticamente possível, há ser, e quando o ser-aí não existe, independência tampouco é, nem em-si é, não podendo tal coisa nesse caso nem ser compreendida nem deixar de ser compreendida, não podendo entes intramundanos nesse caso nem ser descobertos nem permanecer ocultos, não se podendo dizer que os entes são nem que não são, mas enquanto há compreensão de ser, e portanto compreensão de presença à mão, pode-se dizer que nesse caso os entes continuarão a ser
    • O ser, mas não os entes, é dependente do cuidado (Sorge), assim como a realidade, mas não o real, depende do cuidado
  • O ser, não os entes, depende da compreensão de ser, isto é, do ser-aí, girando essa passagem em torno da distinção entre este caso, ou agora, e tal caso, ou então, distinguindo-se o que pode e o que não pode ser dito nesses dois casos, estipulando-se que, num caso, o ser-aí não existe, ao passo que no outro existe
    • Quando o ser-aí não existe, nem a independência nem o em-si são, a proposição de que há coisas independentes não pode ser compreendida nem deixar de ser compreendida, os entes intramundanos não podem nem ser descobertos nem permanecer ocultos, e não se pode dizer nem que os entes são nem que não são
  • Duas leituras dessas afirmações são possíveis, chamadas deflacionária e robusta
  • Perguntando-se por que não se pode dizer nem que os entes são nem que não são quando o ser-aí não existe, uma resposta possível é que é o ser-aí quem diz coisas, de modo que, se o ser-aí não existe, não há quem diga nada, não podendo então dizer-se nem que os entes são nem que não são
    • Essa lógica se estenderia às outras três afirmações, sendo a virtude dessa leitura tornar as afirmações obviamente verdadeiras, mas o defeito é torná-las trivialmente verdadeiras, pois nada pode ser dito quando não há quem o diga, sendo a leitura deflacionária demasiado deflacionária, esvaziando a passagem de qualquer importância filosófica possível
  • Na última frase da passagem citada, uma afirmação mais interessante é feita, segundo a qual o ser depende do ser-aí, e assim, a fortiori, o ser do que está presente à mão também depende do ser-aí, notando-se que, quando o ser não é, os entes nem são nem não são
    • O ser do que está presente à mão depender do ser-aí não equivale a dizer que, se o ser-aí não existisse, os entes presentes à mão não seriam, mas antes que, se o ser-aí não existisse, a presença à mão não seria
  • A expressão a presença à mão não seria é intrigante, mas concedendo-a por um momento revela-se a lógica do argumento, lembrando que o ser é um conjunto de padrões que determina se supostos entes são, exigindo-se, por exemplo, que um objeto físico ordinário, para ser, seja persistente e regular, de modo que, se os padrões que compõem o ser dos objetos físicos ordinários não são, não é verdade nem que tais objetos são nem que não são
    • A analogia da posse de um smartphone ilustra o ponto, pois a certeza de possuí-lo depende da transação legal que confere direito de propriedade, e se o sistema legal subitamente desaparecesse a questão da posse deixaria de ter resposta, exigindo-se a determinação fornecida por um sistema legal, assim como responder se os entes são exige a determinação fornecida pelos padrões do ser
  • A expressão a presença à mão não seria recorre a aspas de estranhamento porque o ser não é um ente, e por não ser um ente nem é nem não é, determinando antes os entes como entes, sendo o conjunto de padrões em termos dos quais os entes fazem sentido como entes
    • Para se referir a condições em que padrões não determinam entes, não se pode escrever o ser não é, recorrendo-se antes à expressão idiomática alemã es gibt, que significa há mas não emprega literalmente o verbo sein, ser, transliterando-se es gibt como isso dá, estratégia semelhante à empregada ao tratar da temporalidade, da qual não se deve dizer que ela é, mas que ela se temporaliza
  • O que significa dizer que pode haver condições em que os padrões que constituem o ser não determinam os entes como entes, em particular que, quando o ser-aí não existe, os padrões ontológicos não determinam os entes como entes, tese aqui chamada idealismo ontológico, não sendo essa questão abordada em Ser e Tempo, uma das omissões mais significativas do tratado, que seria endereçada na inacabada Divisão III
    • Um dos argumentos para a tese é que por ser se entende o sentido do ser, o que resolveria facilmente o argumento para o idealismo ontológico, pois, se não houvesse ser-aí, nada significaria nada por não haver quem para o que quer que fosse pudesse ser significativo, sendo essa uma versão da leitura deflacionária já mencionada, mantendo-se as mesmas reservas quanto a ela, por ser demasiado deflacionária e tornar trivial uma tese apresentada com tanto alarde
  • Há algo a dizer para esclarecer a questão se o argumento do idealismo ontológico for tomado como referente aos limites da reflexão filosófica, não como afirmação metafísica sobre quais itens dependem de quais outros itens, mas como indicação de que, ao se imaginar afastada a própria existência, não apenas a existência individual, mas a existência da compreensão de ser, a reflexão não consegue se firmar sobre a questão de saber se, em tais condições, os entes ainda assim seriam
    • As discussões tradicionais de idealismo e realismo ignoraram a diferença ontológica entre ser e entes, perguntando antes se um conjunto de entes, as coisas físicas lá fora no mundo, dependeria de outro ente ou conjunto de entes, a mente ou as mentes, sendo a resposta a essa questão direta, pois estrelas e pedras não dependem de mim nem mesmo de nós, já que, enquanto há compreensão de ser e portanto compreensão de presença à mão, pode-se dizer que os entes continuarão a ser
    • A afirmação de que nesse caso não se pode dizer que os entes são nem que não são estabelece não haver questão adicional a ser colocada, sendo qualquer questão ulterior, qualquer tentativa de formulá-la no modo da metafísica tradicional, simplesmente confusa
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