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Queda
BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.
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I.5.A de Ser e Tempo analisa a abertura (Erschlossenheit), o modo como o mundo está aí (Da) para nós, e a breve introdução à Parte B do capítulo anuncia a exploração dessa abertura em sua manifestação cotidiana e mediana, retomando a ambiguidade já notada quanto ao conceito do Impessoal (das Man) como normatividade social de fundo ou como deformação conformista da vida, ambiguidade que reaparece em I.5.B, onde a análise do falatório, da curiosidade e da ambiguidade revela um modo básico de ser da cotidianidade chamado decadência (Verfallen) do ser-aí (Dasein)
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A palavra decadência ressoa com conotações religiosas de corrupção moral, o que inspirou leituras da autenticidade e inautenticidade como teologia luterana secularizada
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No penúltimo parágrafo do §38, Heidegger se distancia dessas leituras, afirmando que a interpretação existencial-ontológica não faz nenhuma asserção ôntica sobre a corrupção da natureza humana, não por faltar evidência necessária, mas porque a problemática dessa interpretação é prévia a qualquer asserção sobre corrupção ou incorrupção
Mesmo mantendo distância das ressonâncias religiosas da palavra decadência, é difícil não ouvi-la de modo negativo, como uma queda a partir de algo melhor, ainda que se insista que o termo não expressa nenhuma avaliação negativa, significando apenas que o ser-aí está proximamente e na maior parte das vezes em meio ao mundo de sua ocupação-
Um desafio semelhante afeta o uso do termo falatório (Gerede), termo negativo em seu uso ordinário, embora o §35 afirme que a expressão falatório não deve ser usada aqui em sentido depreciativo, significando terminologicamente um fenômeno positivo constitutivo do modo de ser do compreender e interpretar cotidianos do ser-aí
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Assim como com o Impessoal no §27 e a decadência no §38, insiste-se que tais fenômenos são aspectos essenciais da vida humana, e não deformações negativas, ainda que sejam descritos numa linguagem difícil de ler como algo diferente de depreciativa, deixando a tarefa de desembaraçar os fios dessa análise
Estudiosos tentaram várias formas de resolver essa tensão, sendo a abordagem dominante na literatura a suposição de que o ser-aí é ou autêntico ou inautêntico, classificação exaustiva segundo a qual, em sua cotidianidade, o ser-aí está perdido no Impessoal, isto é, inautêntico, sem que isso signifique corrupção moral, mas antes uma vida conformista em que o ser-aí foge de suas possibilidades autênticas escondendo-se no público-
Hubert Dreyfus defendeu uma abordagem alternativa, segundo a qual haveria três modos de viver, o autêntico, o inautêntico e o modo indiferenciado
Oren Magid argumentou mais recentemente que há duas formas de ser inautêntico, podendo-se ser indiferente à própria distinção entre autenticidade e inautenticidade ou ativamente esconder-se ou encobrir a possibilidade de autenticidade-
O poder-ser (Seinkönnen), enquanto em cada caso meu, é livre tanto para a autenticidade quanto para a inautenticidade ou sua indiferença modal, e ao partir da cotidianidade mediana a interpretação até então se restringiu à análise da existência indiferente, isto é, inautêntica
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Se Magid estiver certo, não há um modo indiferenciado autossuficiente de existência que não seja nem autêntico nem inautêntico, de modo que toda vida é autêntica ou inautêntica, distinguindo-se dentro da existência inautêntica um modo em que o ser-aí é indiferente à própria distinção e outro em que ativamente resiste à autenticidade
Autenticidade (Eigentlichkeit) e inautenticidade (Uneigentlichkeit) não são meros modos existenciários quaisquer do ser-aí, ao contrário de ser um comerciante, possibilidade fática ligada aos mundos sociais em que faz sentido, pois o ser-aí é essencialmente algo que pode ser autêntico, de modo que a possibilidade de autenticidade pertence essencialmente à estrutura existencial do ser-aí, assim como a possibilidade de inautenticidade, indicando que ambas não são possibilidades fáticas concretas equiparáveis a ser comerciante, mas modos de viver as possibilidades fáticas abertas, isto é, modos de ser comerciante, pai ou qualquer outra coisaSer e Tempo constitui uma análise do que é ser ser-aí em geral (überhaupt), da estrutura ontológica da vida humana, estrutura que envolve dois modos básicos de viver uma vida humana, a autenticidade e a inautenticidade, esta última subdividida em inautenticidade indiferente, em que se é indiferente à própria distinção entre vida autêntica e inautêntica, e inautenticidade ativa, em que se encobre a possibilidade de autenticidade, sendo o ser-aí, em sua cotidianidade, indiferentemente inautêntico, podendo sob certas condições alcançar a autenticidade ou dela se esconder, encobrindo-a ao lançar-se agressivamente na vida cotidiana, na decadênciaEssa abordagem se harmoniza com outro aspecto da linguagem heideggeriana em I.5.B, segundo a qual o ser-aí sofre uma constante tentação para a decadência, podendo esta ser tanto traço constitutivo da existência do ser-aí quanto tentação como forma de evitar a autenticidade, não sendo tentação na inautenticidade indiferente, em que o ser-aí simplesmente é indiferente à distinção, mas sendo-o na forma ativa da inautenticidade, ainda que resistir a essa tentação não implique cessar de decair, mas apenas não usar a decadência constante como forma de evitar a autenticidadeO §35, sobre o falatório, oferece o caminho mais claro para explicar o que é a decadência enquanto constitutiva do ser do ser-aí, dado que a função do discurso é articular expressivamente a inteligibilidade do mundo, e a navegação cotidiana do mundo envolve uma compreensão genuína de parte dele e uma compreensão meramente positiva da maior parte-
Ter compreensão genuína de uma possibilidade da vida humana é ser capaz de vivê-la ou de conduzir-se dessa maneira, como na compreensão genuína de dirigir um carro, escrever uma aula ou ajudar uma criança com lição de matemática, ao passo que se compreende como ensinar filosofia no nível universitário, mas não como ensinar leitura no ensino fundamental, algo que se tornou dolorosamente evidente ao se ajudar voluntariamente na turma de primeira série do filho, ainda que se tenha apreensão do lugar desse ensino em nossas vidas, permitindo reconhecer e engajar-se apropriadamente com professores do ensino fundamental sem, contudo, poder lançar-se nesse trabalho compreendendo-o por dentro
O mesmo se pode dizer da fala, lembrando que a comunicação é a articulação expressiva do ser-um-com-o-outro compreensivamente-
Ao conversar com um colega padeiro, a afirmação de que às vezes se deixa a massa crescer demais orienta mutuamente os interlocutores para algum aspecto do processo, podendo o interlocutor compartilhar a situação e oferecer conselho, ao passo que, dirigida a alguém que não sabe fazer pão, a orientação conjunta se torna mais rasa, restando a esse alguém uma compreensão meramente positiva, suficiente para entender que fazer pão é um processo com etapas que podem dar errado, sem que possa oferecer sugestões ou distinguir entre a primeira fermentação e a modelagem final
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O falatório é a possibilidade de compreender tudo sem previamente fazer a coisa sua
Dispõe-se apenas de um alcance limitado de compreensão genuína, sendo a maior parte da compreensão e da fala meramente positiva, dados os limites práticos do que se pode compreender genuinamente, uma vez que não há tempo nem energia para se lançar construtivamente em muitos empreendimentos, bastando a compreensão meramente positiva para navegar a maior parte do mundo e negociar as situações que surgem na experiência, de modo que a compreensão positiva e o falatório que a exprime possibilitam a imersão cotidiana no mundoOs fenômenos da compreensão positiva e do falatório acompanham a curiosidade e a ambiguidade, sendo a capacidade de apreender algo sem desenvolver dele uma compreensão genuína o que permite ser curioso a respeito das coisas-
É possível vaguear pela Wikipedia e ganhar uma compreensão superficial de uma gama de tópicos, ou conversar com amigos ou desconhecidos em cafés e aprender um pouco sobre suas vidas, aprendendo-se sobre a vida de um técnico em cibersegurança, de um personal trainer ou de um economista sem ser capaz de fazer nenhuma dessas coisas
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A preocupação torna-se ocupação com as possibilidades de ver o mundo meramente como ele parece enquanto se demora e se descansa
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Ver e visão são termos frequentemente usados para se referir à compreensão ou à inteligência, sendo a curiosidade a busca de compreensão positiva do mundo em que se vive
Um risco constitutivo da compreensão positiva, do falatório e da curiosidade é perder de vista a distinção entre compreensão positiva e genuína, risco chamado ambiguidade-
Quando, no ser-uns-com-os-outros cotidiano, encontra-se aquilo que é acessível a todos e sobre o que qualquer um pode dizer qualquer coisa, logo se torna impossível decidir o que está desvelado numa compreensão genuína e o que não está, ambiguidade que se estende não apenas ao mundo, mas igualmente ao ser-uns-com-os-outros e mesmo ao ser do ser-aí para consigo mesmo
A dimensão discursiva do problema é enfatizada porque a compreensão meramente positiva pode viajar mais ampla e rapidamente através da linguagem-
Dependemos inteiramente da compreensão positiva comunicada discursivamente, como ao pedir a um estranho indicações para um restaurante, pedir a um vizinho conselhos sobre jardinagem, pedir a um colega recomendações sobre professores de cálculo, ou usar dicionários e enciclopédias, não sendo possível navegar um mundo prática e socialmente complexo sem a capacidade de compartilhar compreensão através do falatório
À medida que se espalha, o falatório pode tornar-se algo degradado-
O ser-dito, o dito, o pronunciamento passam a servir de garantia da genuinidade do discurso e da compreensão que lhe pertence, e de sua adequação aos fatos, e porque essa fala perdeu sua relação de ser primária com o ente de que se fala, ou nunca a alcançou, ela não comunica de modo a deixar esse ente ser apropriado de maneira original, mas comunica antes pela via de repassar a palavra e repetir, sendo o falatório constituído justamente por esse repassar e repetir, processo pelo qual sua falta inicial de enraizamento se agrava até a completa desenraizadade
A descrição heideggeriana poderia sugerir uma preocupação epistemológica com o modo como as afirmações sobre o mundo se desligam das experiências que as justificam, algo que ocorre na fofoca, e ainda mais agressivamente hoje através das redes sociais-
A tradução de Macquarrie e Robinson, segundo a qual a falta inicial de fundamento se agrava até o completo desamparo, reforça a tentação de ler a passagem epistemologicamente, mas o ponto não pode ser fundamentalmente epistemológico, pois preocupações epistemológicas sobre fundamentação e evidência dizem respeito sobretudo a asserções, ao passo que o discurso não é um conjunto de asserções nem mesmo um sistema gramatical e vocabulário para construir asserções, sendo enganoso reconstruir a concepção heideggeriana de falatório por referência a preocupações epistemológicas
Trata-se antes de como uma compreensão meramente positiva e superficial de algum domínio dos assuntos humanos pode se degradar em mal-entendido, de modo que, quando a comunicação positiva, que exprime a compreensão positiva, se desenraíza do solo da compreensão genuína, o discurso obstrui, em vez de facilitar, a compreensão positiva, tornando-se má comunicação-
O uso da palavra socialismo no discurso político americano pode significar desde a redistribuição de riqueza do Estado de bem-estar social até a propriedade coletiva das indústrias fundamentais, sendo igualmente diversas e confusas as afirmações sobre o que significa capitalismo nesse mesmo discurso
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Desenvolvem-se por vezes modos de falar que dão a aparência de exprimir uma compreensão genuína de um fenômeno, mas na verdade obscurecem aspectos dele, de modo que, apesar dos defeitos dessa fala, o que é dito na fala como tal se espalha em círculos cada vez mais amplos e assume caráter autoritativo
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Sem compreensão genuína do próprio fenômeno, o simples fato de as pessoas falarem desse modo adquire autoridade, tornando-se logo impossível decidir o que está desvelado numa compreensão genuína e o que não está
Uma pista de como tal decadência pode ser tentação para o ser-aí, e de qual é o custo da compreensão genuína capaz de gerar essa tentação, é oferecida no §27, sobre o Impessoal-
O Impessoal está em toda parte, mas de tal modo que sempre já se esgueirou para fora sempre que o ser-aí pressiona por uma decisão, e porque o Impessoal apresenta todo juízo e decisão como seus próprios, ele desonera o ser-aí particular de sua responsabilidade, de modo que o ser-aí particular em sua cotidianidade é desonerado pelo Impessoal
A compreensão genuína requer um tipo de responsabilidade ou responsividade que a compreensão positiva não requer, questão cuja resposta completa dependerá da discussão posterior da autenticidade, bastando por ora estabelecer a conexão com a tentação de decair-
No §60, distingue-se entre a circunstância geral (allgemeine Lage), da qual o Impessoal é senhor, e a situação (Situation) em que o ser-aí autêntico age, podendo a interpretação do mundo expressa pelo falatório apreender uma situação de vida concreta apenas de modo vago ou geral, custo próprio da compreensão positiva
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A compreensão genuína requer responsividade à situação particular em sua concretude, e responder ao modo como essa situação concreta exige agir agora pode colocar em desacordo com o senso comum expresso no falatório e com a normatividade social da comunidade em que se vive, exigindo resistir a essa pressão social uma espécie de coragem existencial, de modo que esconder-se da situação concreta pode ser tentador, permitindo que se recaia no falatório, na curiosidade e na ambiguidade como forma de facilitar essa evasão
A decadência constitui, assim, o modo de abertura do ser-aí cotidiano, composta pelo falatório, que exprime uma compreensão positiva mas não genuína das coisas, pela curiosidade, facilitada pelo falatório, e pela ambiguidade resultante quanto ao que é genuíno e ao que não é, tornando-se tal decadência tentação quando serve de meio para evitar confrontar as exigências da situação concreta, exigências capazes de colocar em desacordo com aqueles ao redor, sendo a resistência resoluta a essa tentação uma forma de coragem existencialestudos/blattner/sz/queda.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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