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Mundo
BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.
Lidas e trato
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A descrição fenomenológica do mundo desenvolve-se em três fases após a introdução do §14: a Parte A explora fenomenologicamente o mundo, partindo dos entes mais próximos até a estrutura da mundanidade do mundo, a Parte B contrasta essa análise com a concepção cartesiana do mundo como res extensa, e a Parte C explora a espacialidade existencial do ser-aí (Dasein), tratando-se aqui apenas da Parte A e, adiante, da Parte C
Ocupações e utensílios
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O trato ocupado com o mundo chama-se lida (Umgang), sendo o tipo de lida mais próximo não uma cognição perceptiva pura, mas a ocupação (Besorgen) que manipula as coisas e as põe em uso
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ao entrar por uma porta, não se apreende tematicamente os assentos nem a maçaneta, mas se passa por eles circunspectivamente, evitando-os ou tropeçando neles, tal como escadas, corredores, janelas, cadeiras e quadro-negro
A resposta tradicional de que os objetos próximos da experiência são coisas investidas de valor, ecoando a atitude natural husserliana, é rejeitada por sugerir que os entes com os quais se lida seriam meras coisas às quais se acrescenta valor de uso, estratégia chamada de modelo de camadas da ontologia, recusado repetidamente ao longo de Ser e TempoA familiaridade com a cadeira de trabalho, por exemplo, não se dá por descrição neutra acrescida de uso, mas pelo sentar-se nela, razão pela qual Heidegger reserva o termo utensílio (Zeug) para os entes próximos que aparecem nas lidas cotidianas, tipicamente experimentados não isoladamente, mas como totalidade de utensílios (Zeugganzheit)-
a rigor, não existe algo como um utensílio isoladamente, pertencendo sempre ao ser de qualquer utensílio uma totalidade de utensílios na qual ele pode ser o utensílio que é
Cunha-se o termo manualidade (Zuhandenheit) para o ser do utensílio, contrastado com a presença-simples (Vorhandenheit) da mera coisa, sendo o utensílio manual porque disponível para uso, e não porque meramente ocorreA um possível objetor que insiste em que o martelo só pode estar disponível por também ocorrer como coisa fisicamente neutra, Heidegger responde que, mesmo concedendo que o manual só é por razão do simplesmente dado, disso não se segue que a manualidade se funde ontologicamente na presença-simples, pois o martelo é martelo por ter sido designado ao papel de cravar e arrancar pregos, e não por suas propriedades físicas-
uma pedra não é martelo, ainda que possa substituí-lo ocasionalmente
Os materiais, como o couro, a linha e as agulhas na obra, e mais amplamente a natureza, descoberta juntamente pelo uso do utensílio, mostram-se como o bosque de madeira, a montanha de pedreira, o rio como força hidráulica e o vento nas velas, encontrando-se a natureza, de modo próximo e habitual, como algo manualOs signos, como o pisca-pisca do carro, são espécie especial de utensílio, utensílio indicador, assimilado por Heidegger aos signos naturais, como as nuvens de tempestade, ao passo que a linguagem não é concebida como sistema de signos, mas como meio expressivo de partilha do mundoA noção de referência (Verweisung), presente na estrutura do para-isso, expande-se na noção de envolvimento (Bewandtnis), segundo a qual um ente manual é o que é em virtude de seu envolvimento num papel a ele designado, o que permite estender a manualidade para além do utensílio a objetos como pinturas, artefatos religiosos e romances, cujo ser consiste em envolvimento-
dizer que o ser do manual tem a estrutura da referência significa que ele traz em si o caráter de ter sido referido, sendo descoberto ao ser referido a algo como aquele ente que é
Ampliando-se o foco para além das ferramentas, torna-se menos evidente que o manual dependa do simplesmente dado, como no caso do drama Hamlet, do qual dois leitores têm exemplares distintos mas leem o mesmo drama, não se reduzindo essa relação entre drama e exemplar às categorias tradicionais de universal e particular ou tipo e ocorrênciaCircunspecção e ruptura
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Na lida cotidiana, o utensílio manual próximo deve, por assim dizer, retirar-se para ser autenticamente manual, não sendo aquilo com que primariamente nos ocupamos, mas a obra a ser produzida
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ao sentar-se para escrever um e-mail, mal se nota a cadeira em que se está sentado, retirando-se ela da experiência enquanto se destaca o e-mail que se escreve
O trato com os entes manuais não é cego, possuindo modo próprio de visão que guia a manipulação e lhe confere confiabilidade, subordinando-se ao múltiplo das referências do para-isso, sendo essa visão a circunspecção (Umsicht)-
ao cravar um prego com o martelo, o modo de manejá-lo calibra-se à situação sem necessidade de deliberação reflexiva, e refletir sobre o gesto atrapalha a execução
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o exemplo do carpinteiro-mestre, capaz de conversar e opinar sobre política enquanto faz um corte perfeitamente reto, sem olhar constantemente para o que faz, ilustra a mestria adquirida por décadas de experiência, em contraste com a falta de destreza do próprio autor ao usar a serra circular
Quando o utensílio malfunciona ou resiste, tematizado no §16 sob os termos de conspicuidade, obstinação e obtrusividade, força-se o foco sobre ele, sendo a distinção entre manual e não-manual relativa às habilidades de cada um-
uma embreagem emperrada pode ser sério desafio para um motorista, mas nenhum problema para outro mais experiente ou para o dono do carro já habituado a ela
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a não-manualidade não é modo distinto de ser nem modo de presença-simples, sendo antes modo deficiente da manualidade, de modo que um martelo quebrado não é apenas madeira e metal, mas martelo quebrado
Na ruptura, a pura presença-simples anuncia-se no utensílio malfuncionante apenas para retirar-se de novo na manualidade daquilo com que se ocupa ao consertá-lo, tornando-se salientes propriedades físicas antes irrelevantes, como a cor do martelo, notada apenas quando quebradoSignificância e mundanidade
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A circunspecção é guiada pela totalidade de referências que contextualizam a tarefa, remetendo do utensílio e material à tarefa e desta a projetos mais amplos, como construir uma prateleira a fim de organizar a garagem
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Esses envolvimentos remetem, em última instância, a um para-o-bem-de-que (Worumwillen), que sempre concerne ao ser do ser-aí (Dasein), para o qual seu próprio ser é, em seu ser, uma questão
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o para-o-bem-de-que primário não é mais um para-isso no qual é possível um envolvimento, mas sempre pertence ao ser do ser-aí
Não há necessidade nem conveniência em supor um único para-o-bem-de-que último que ancore toda a existência, como o fim último da vida humana postulado por Tomás de Aquino, pois a deliberação racional é modo especial de experiência que surge sob certas pressões práticas, sendo mais comum navegar as tensões entre os múltiplos para-o-bem-de-que — ser pai, marido, filho, vizinho — pelo modo como cada um importaA estrutura do para-isso, unificada e remetida aos para-o-bem-de-que, constitui a significância (Bedeutsamkeit), composta de relações de significar, estrutura que perfaz a totalidade relacional daquilo em que o ser-aí, enquanto tal, já é-
quando se entra numa oficina cujo propósito se desconhece, fica-se perplexo diante dos utensílios por não se compreender os para-isso e os para-o-bem-de-que que estruturam o contexto
O mundo não é apenas contexto de utensílios, mas também contexto humano, uma trama de papéis fundada nas possibilidades humanas que sustenta, de modo que martelos, pregos e tábuas não fazem sentido fora da carpintaria e da posse de casa, assim como não há ser carpinteiro fora das ferramentas e tarefas do ofícioAquilo em que o ser-aí se compreende de antemão, no modo de remeter-se a si mesmo, é aquilo em termos do qual já deixou os entes ao encontro previamente, e esse em-que constitui o fenômeno do mundo, horizonte unitário de compreensão em cujo pano de fundo se dá sentido tanto à vida humana quanto aos utensílios nela envolvidosO ser-aí (Dasein), enquanto é, já se submeteu sempre a um mundo que vem ao encontro, submissão que pertence essencialmente a seu ser, o que contrasta com as fantasias filosóficas de desencarnação, como o caráter inteligível kantiano, a nulificação do mundo em Husserl ou a visão de lugar nenhum (view from nowhere) de Thomas Nagel, prefiguradas já na filosofia pitagórica e platônica que opõe a prisão terrena da vida encarnada à morada pura do além, sendo antes próprio do ser humano estar enredado no mundo, incapaz de dele se desvencilhar, o que se resume na fórmula ser-no-mundoestudos/blattner/sz/mundo.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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