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estudos:blattner:possibilidades-habilidades-e-projecao-entwurf-1999

COMPREENSÃO E PROJEÇÃO (1999:39-42)

BLATTNER, William D. Heidegger’s temporal idealism. Cambridge, U.K. ; New York: Cambridge University Press, 1999.

Vimos que para o Dasein ser (propriamente) A, tem de se compreender ele mesmo como A. Agora, o que é que está envolvido em compreender-se como A? Heidegger responde a esta questão introduzindo a sua noção de projeção (Entwurf). A palavra alemã “Entwurf” não tem todos os significados que a palavra inglesa “projection” tem. O seu sentido central é o de um plano, esboço ou projeto. No entanto, Heidegger esforça-se por indicar que, com “projeção”, não tem em mente algo tão explícito e pensado como um plano: “Projetar não tem nada a ver com comportar-se em relação a um plano pensado, de acordo com o qual o Dasein organiza o seu ser” (SZ:145). O que pretende Heidegger com a linguagem da “projeção”? Ele também joga com a construção da palavra alemã para “projeção”: “ent-werfen” é atirar ou lançar para fora (ver Caputo 1986a). Parece antes querer enfatizar esta metáfora. Assim, no início do parágrafo em que introduz a projeção, escreve,

Porque é que a compreensão, de acordo com todas as dimensões essenciais do que nela pode ser revelado, avança sempre para as possibilidades (dringt … in …)? Porque a compreensão tem em si a estrutura existencial a que chamamos projeção. (SZ:145)


  • A compreensão de si como A implica, segundo Heidegger, projeção (Entwurf), entendida não como plano explícito ou blueprint, mas como estrutura existencial pela qual a compreensão avança para possibilidades ao lançar-se nelas.
    • Entwurf significa esboço ou plano, mas Heidegger afasta o sentido de plano deliberado.
    • Projetar não é organizar o ser conforme plano pensado.
    • A palavra remete etimologicamente a lançar ou arremessar.
    • A compreensão sempre avança para possibilidades.
    • A projeção constitui a estrutura que explica esse avançar.
  • A relação de Dasein com suas habilidades não se dá como adesão a planos previamente delineados, pois compreender-se como algo consiste em possuir e exercer a habilidade correspondente, como no caso de Jones que se entende como intérprete simultânea ao desenvolver e praticar tal capacidade.
    • O plano de estudar em Georgetown ou trabalhar na ONU refere-se ao tornar-se, não à habilidade mesma.
    • Ser intérprete simultânea é uma habilidade que exige saber-como.
    • Não há blueprint da habilidade enquanto tal.
    • Enquanto aprende, Jones compreende-se como estudante de interpretação.
    • Compreender-se como algo é exercer a capacidade de sê-lo.
    • Avançar para uma possibilidade equivale a avançar para uma habilidade.
  • A introdução da projeção suscita tensão entre duas funções aparentes — abrir o leque de possibilidades e avançar em direção a uma possibilidade determinada — pois Heidegger afirma tanto que a projeção deixa a possibilidade ser quanto que Dasein é suas possibilidades.
    • Projeção lança a possibilidade como possibilidade diante de si.
    • Compreensão, como projeção, é modo de ser em que Dasein é possibilidades.
    • Jones enfrenta alternativas como doutorado em alemão, interpretação simultânea ou tradução comercial.
    • Dasein é a possibilidade em que atualmente avança.
    • As possibilidades abandonadas não constituem seu ser atual.
    • Heidegger parece reunir sob projeção tanto abertura quanto determinação.
  • A análise de textos posteriores, como o tratamento da culpa no capítulo 2 da divisão 2, indica que projeção refere-se primariamente ao avançar determinante em uma possibilidade específica, implicando abandono de outras.
    • Dasein, como poder-ser, encontra-se sempre nesta ou naquela possibilidade.
    • Projetar existencialmente envolve renunciar a outra possibilidade.
    • Se projeção fosse mera abertura, não haveria necessidade de abandono.
    • Ao projetar-se como intérprete, Jones deixa de projetar-se como doutoranda.
    • Projetar-se é avançar para uma possibilidade concreta.
  • A compatibilidade entre projeção e o deixar-ser das possibilidades esclarece-se quando se entende possibilidade, no caso de Dasein, como habilidade e não mera alternativa abstrata, de modo que potencialidades não desenvolvidas não constituem capacidades efetivas.
    • Possibilidade aplicada a Dasein significa habilidade.
    • Jones pode potencialmente ser doutoranda, mas não desenvolveu as habilidades.
    • Não avançar nessa direção significa não ser atualmente capaz.
    • A abertura de alternativas não equivale à posse de capacidades.
    • A análise prepara consideração ulterior da facticidade na estrutura do cuidado.
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