estudos:beaufret:existencialismo:ser-no-mundo-2000
Ser-no-mundo
JBEH:18-21
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Retomando o estudo anterior no ponto de partida, situa-o na determinação rigorosa do ser do étant em geral a partir do homem como ser-aí ou Dasein, único étant em que se exige funcionalmente uma solução para o problema do existir, exigência que se identifica com a entrada em jogo de uma possibilidade fundamental, definindo-se assim o homem como o étant cujo próprio ser é objeto de constante colocação em jogo
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Situa nessa busca das condições de possibilidade a démarche essencial da filosofia, herdada através de Kant do platonismo mais autêntico, comparando a pergunta kantiana sobre as condições a priori da geometria euclidiana, da física newtoniana, da moralidade universal e da emoção estética à pergunta heideggeriana sobre a condição de possibilidade a priori de um existente, um étant do tipo homem, cujo existir se define como constante colocação em questão
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Contrasta a analítica kantiana, viciada em sua base pelo ponto de partida fictício emprestado de Hume, esgotando-se em dar corpo a uma hipótese formal e vazia, com a analítica heideggeriana, que não larga o fio dos dados fenomenológicos, elevando-se a um a priori determinado como essência no sentido da eidética husserliana, essa essência sendo, segundo Sein und Zeit, simplesmente o ser-no-mundo
Detendo-se nesse primeiro momento da analítica, situa a audácia heideggeriana em retomar, no eixo de uma analítica regressiva e como simples condição de possibilidade do Dasein, o que até então fora comumente interpretado, não sem ingenuidade, como pressupondo um receptáculo exterior que aguardaria a vinda do homem-
Esclarece que, se o ser-no-mundo é a condição que funda a própria possibilidade do homem, e não algo a que um eu isolado e flutuante, ein freischwebendes Ich, viesse aderir para nele fazer carreira finita, rejeita-se por isso mesmo toda miragem de uma outra vida em outro mundo, do qual este mundo seria apenas expressão in speculo et aenigmate
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Cita o estudo Vom Wesen des Grundes, confirmando Sein und Zeit, segundo o qual não é por existir de fato que o Dasein é um ser-no-mundo, mas ao contrário, só lhe é possível existir como Dasein porque sua constituição essencial consiste em ser-no-mundo, não havendo entre ambos a menor fissura por onde se insinuasse a esperança de outra condição
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Observa que essa analítica liquida, tão irrevogavelmente quanto o materialismo, embora em quadro fenomenológico e não metafísico, tudo o que faria do homem um “alucinado do além-mundo”, designando essa irrupção do Dasein como ser-no-mundo pelo termo transcendência, ressuscitado com sentido novo, e caracterizado como emergência e ultrapassagem que se recortam contra a obscuridade fundamental do étant bruto
Define a função da transcendência como fazer irromper à luz do dia algo que, sem essa condição, permaneceria fundamentalmente em retraimento, grundverborgen, mostrando que Heidegger evita deliberadamente o termo consciência, receoso de importações filosóficas mal controladas, preferindo o termo Erschlossenheit, estado de ser-aberto, por oposição ao que estaria fechado sobre si, verkapselt, como uma caixa-
Insiste em libertar-se da metáfora do encaixotamento com que tantas vezes se descreveu a consciência como sujeito votado ao solipsismo, em cuja esfera interior o mundo cairia apenas acidentalmente, observando que, como já bem vira Husserl, a consciência não faz senão um com sua própria abertura ao mundo e aos outros homens, sendo nisso que consiste sua luminosidade
Conclui que, ao contrário da metáfora do encaixotamento, permanece válida a velha imagem do homem como luz natural, sendo de si mesmo, e não pela intervenção de algo exterior, que o homem faz luz de seu ser-no-mundo, não vindo a consciência de fora pousar sobre o Dasein, mas sendo o Dasein, de ponta a ponta e radicalmente, sua própria Erschlossenheit, na fórmula “Das Dasein ist seine Erschlossenheit”estudos/beaufret/existencialismo/ser-no-mundo-2000.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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