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estudos:beaufret:existencialismo:heidegger-france

Heidegger na França

JBEH

  • A recepção de Heidegger na França, frequentemente marcada por uma visão estereotipada do “filósofo da floresta negra”, revela um descompasso inicial entre os leitores franceses, que tendem a vê-lo através de uma lente nietzschiana e fenomenológica husserliana, e o projeto heideggeriano de retorno aos gregos.
    • A piada sobre a morte de Deus e de Nietzsche, inscrita nos muros da Sorbonne, ilustra uma certa atmosfera intelectual francesa que, embora seduzida por Nietzsche, não compreendeu de imediato o passo heideggeriano para além da metafísica, o qual não é um simples “retorno” ou uma “superação” no sentido nietzschiano.
    • A imagem de Heidegger como um “camponês do Danúbio” ou um “Hiperbóreo” remete a uma linhagem que, segundo os gregos, é a doadora da oliveira, sugerindo que a filosofia, tal como Heidegger a pensa, não é uma invenção grega, mas uma herança de uma origem mais recuada e “desinvolta”.
  • A fenomenologia, para Heidegger, não é uma ciência moderna ou o segredo anseio da filosofia moderna, como para Husserl, mas a própria “maneira natural” e o “evidente por si mesmo” da filosofia grega, o que exige uma compreensão do fenômeno não como aquilo que se mostra, mas como aquilo que se recusa a mostrar, sendo radicalmente velado (sich verbergende Verbergung).
    • Enquanto Husserl, na esteira de Descartes e Kant, busca na fenomenologia uma ciência rigorosa que constitui o vivido na consciência, Heidegger parte do princípio de que o fenômeno é “profundamente envolto” (tief eingehüllt), e que a tarefa da fenomenologia é mostrar o que não se mostra, revelando o próprio ato de velar-se (sich einhüllend).
    • A diferença entre Husserl e Heidegger reside na compreensão do que é a “coisa mesma” (Sache selbst): para Husserl, ela é acessível à intuição ideadora após as reduções; para Heidegger, ela é fundamentalmente oculta, e a fenomenologia deve desvelar esse ocultamento, o que a aproxima mais de Heráclito e da physis que ama ocultar-se.
    • Essa virada na compreensão da fenomenologia é o que distingue a “Origem da Obra de Arte” (GA5) de Heidegger da “Origem da Geometria” de Husserl, e é também o que torna a leitura de Heidegger particularmente difícil para os franceses, habituados à clareza cartesiana e à constituição husserliana.
  • A questão de Nietzsche, para Heidegger, não é a de um simples “retorno” ou “superação” do platonismo, mas a de saber se o “retorno” (Umdrehung) nietzschiano não se liberta verdadeiramente do platonismo (Herausdrehung), ou se ele permanece, na figura do Eterno Retorno e da Vontade de Potência, o “mais desenfreado dos platonizantes” e, portanto, o “último metafísico”.
    • A crítica de Heidegger a Nietzsche reside no fato de que a “transvaloração” ainda se move no horizonte da metafísica, pois o “espírito de vingança” (Geist der Rache), que Nietzsche atribui à metafísica, persiste em sua própria filosofia, que se resume a um “Dionísio contra o Crucificado”, o que é ainda uma oposição e, portanto, um “contra”.
    • A “superação” da metafísica, para Heidegger, não se dá por uma oposição ou um “mordedura” (Beiss zu), mas por uma “Gelassenheit”, um “abandono” ou “desenvoltura” que não é um ato da vontade, mas uma abertura à “desenvoltura do ser” (das Sein ist ohn' Warum).
    • A “Gelassenheit” é intraduzível, mas pode ser aproximada da “desenvoltura”, entendida não como uma atitude subjetiva, mas como a própria maneira do ser se dar sem porquê, e é nessa abertura que o pensamento pode se desprender da metafísica e de seu espírito de vingança.
  • A “desenvoltura” do ser é o que permite a Heidegger um retorno aos gregos que não é arqueológico nem nostálgico, mas um “retorno e ultrapassagem” (zurück und über das Griechische hinaus), que visa escutar a palavra grega com um ouvido grego, para além da tradição metafísica que começou com Platão.
    • Essa escuta é o que distingue Heidegger de Hegel e Nietzsche, que se apropriaram de Heráclito para seus próprios sistemas, enquanto Heidegger tenta, na esteira de Hölderlin, ouvir o que há de “desenvolto” no pensamento grego, que escapa à onto-teologia.
    • A “desenvoltura” do ser não é uma escolha de Heidegger, mas uma exigência do próprio ser, que se manifesta em suas épocas como “saltos” (Aufspringen wie Knospen), e a tarefa do pensamento é abrir-se a essa “potência silenciosa do possível” que a tradição guarda.
    • Os franceses, especialmente através da mediação de Hölderlin e da atenção à nuance, começam a compreender Heidegger como o pensador da “diferença” e da “identidade como diferença”, um mestre na difícil arte de distinguir onde outros confundem, e é por isso que ele pode se tornar um “mestre” no país de Pascal, onde o “espírito de fineza” e a “nuance” são valorizados.
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