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A Filosofia Analítica e o Computador

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  • Filosofia analítica e o computador
    • Surgimento da filosofia analítica no início do século XX a partir das obras de Bertrand Russell e George Edward Moore, que, embora não pretendessem fundar uma nova escola, acabaram por estabelecer um estilo filosófico caracterizado pelo uso rigoroso da análise lógica e argumentativa como atividade central da filosofia, mantendo contudo, de modo residual, compromissos metafísicos como um platonismo de fundo.
    • Consolidação da centralidade da lógica na filosofia acadêmica a partir da dedicação de Bertrand Russell à lógica matemática, culminando na publicação de Principia Mathematica, de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead, obra monumental que buscava reduzir toda a matemática à lógica, produzindo simultaneamente fascínio intimidatório e indiferença pragmática entre os filósofos.
    • Institucionalização da filosofia no âmbito universitário e transformação da lógica em disciplina nuclear do currículo filosófico, funcionando como conteúdo transmissível, exato e comparável às ciências, o que favoreceu a emergência de um positivismo difuso como atmosfera dominante da filosofia acadêmica.
    • Consequente marginalização das questões relativas à mente, à consciência e à subjetividade humana, não por necessidade intrínseca da lógica, mas como efeito histórico e cultural do predomínio analítico, produzindo uma insensibilidade crescente ao sujeito humano concreto.
  • George Edward Moore e a ética analítica inicial
    • Análise da obra Principia Ethica, de George Edward Moore, como exemplo paradigmático da ética analítica inicial, marcada por elegância formal, precisão conceitual e afinidade com o espírito cultural do grupo de Bloomsbury, integrado por figuras como John Maynard Keynes e Lytton Strachey.
    • Definição do bem como uma propriedade simples, não natural e indefinível, obtida por meio da crítica ao naturalismo ético, exemplificada pela impossibilidade lógica de identificar o bem com o prazer, uma vez que a pergunta “o prazer é bom?” permanece significativa.
    • Divisão da ética em duas tarefas fundamentais: a análise conceitual do termo “bom” e a enumeração das coisas que efetivamente possuem essa propriedade, resultando, porém, numa concepção do bem centrada na vida intelectual, estética e contemplativa típica do ambiente acadêmico de Cambridge.
    • Crítica à ausência de categorias morais fundamentais como o mal, a tentação, a ansiedade e o fracasso moral, o que reduz a ética de Moore ao estágio estético da existência, nos termos de Søren Kierkegaard, negligenciando a dimensão propriamente ética da luta, da escolha e da responsabilidade.
    • Advertência metodológica segundo a qual a sofisticação da análise lógica pode ocultar a perda do objeto concreto da reflexão filosófica, fazendo com que análise e conteúdo passem um pelo outro sem verdadeiro encontro, sobretudo quando o tema é o sujeito humano.
  • A chegada de Ludwig Wittgenstein
    • Inserção inicial de Ludwig Wittgenstein no círculo de Russell e Moore como discípulo, seguida rapidamente pela afirmação de sua autoridade intelectual e influência decisiva sobre os rumos da análise lógica no século XX.
    • Distinção entre duas fases fundamentais do pensamento de Wittgenstein, sendo a primeira associada ao positivismo lógico e a segunda a uma reorientação profunda da filosofia da linguagem, da lógica e da matemática.
    • Formulação da doutrina da tautologia, segundo a qual as proposições da lógica não dizem nada sobre o mundo, sendo meras reformulações de identidades formais, ao passo que as proposições empíricas pertencem exclusivamente ao domínio das ciências naturais.
    • Redução da filosofia à análise lógica e consequente eliminação da metafísica, da ética e da estética como discursos significativos, classificando-os como expressões de sentimentos ou como nonsense, o que confere ao positivismo lógico um caráter essencialmente niilista.
    • Introdução da noção de “místico” como zona de silêncio onde Wittgenstein preserva aquilo que é mais valioso na existência humana, embora sua própria doutrina impeça qualquer discurso filosófico legítimo sobre esses valores.
  • A reversão de Wittgenstein
    • Abandono da tese russelliana da identidade entre lógica e matemática, influenciado pelo intuicionismo de Luitzen Egbertus Jan Brouwer, e consequente transformação radical de sua concepção filosófica.
    • Compreensão da matemática como construção da mente humana, e não como sistema dedutível a partir da lógica, evidenciada pelo caráter construtivo da aritmética e por procedimentos como o crivo de Eratóstenes.
    • Crítica à ideia de fundamentos lógicos da aritmética, sustentando que a lógica é demasiado geral e frouxa para capturar a singularidade do sistema numérico ordinário, conforme demonstrado por Thoralf Skolem.
    • Interpretação pragmática da matemática a partir da linguagem ordinária, entendendo os enunciados aritméticos não como tautologias platônicas, mas como instrumentos para orientar e aprimorar o comportamento matemático humano.
    • Limitação da concepção wittgensteiniana de linguagem ordinária devido à sua orientação excessivamente comportamentalista, que ignora a presença constitutiva de referências mentais, introspectivas e subjetivas no uso efetivo da linguagem.
    • Argumentação em favor da irredutibilidade do componente mental na matemática, ilustrada pela experiência com o ábaco, na qual operações aparentemente mecânicas revelam-se governadas por estruturas mentais previamente constituídas.
  • Poesia e o computador
    • Transição da lógica matemática para o computador como culminação histórica do mecanicismo moderno, intensificando a tentação de substituir o pensamento humano por dispositivos técnicos capazes de simular operações mentais.
    • Formulação explícita da pergunta “as máquinas podem pensar?” por Alan Turing em 1950, associada à sua biografia marcada por contribuições decisivas à criptografia durante a Segunda Guerra Mundial e por um desfecho trágico de sua vida pessoal.
    • Apresentação do “jogo da imitação” como critério comportamental para avaliar a inteligência das máquinas, segundo o qual um computador seria considerado pensante se não pudesse ser distinguido de um ser humano em uma interação verbal.
    • Exemplo da suposta capacidade do computador de produzir poesia, especificamente o soneto “Shall I compare thee to a summer’s day?”, de William Shakespeare, e de responder coerentemente a questões críticas sobre o poema.
    • Crítica ao argumento de Turing por pressupor como dado aquilo que deveria ser demonstrado, isto é, a capacidade genuína da máquina de criar poesia, e por ignorar questões decisivas de originalidade, estilo e historicidade.
    • Defesa da tese de que o poema não é mera combinação de símbolos, mas ato de consciência situado no tempo, inseparável da tradição literária, da linguagem viva e da experiência histórica.
  • Poesia, pessoa e corporeidade
    • Compreensão da obra poética como expressão de uma personalidade espiritual unificada, acessível por meio do conjunto da obra e não redutível a traços biográficos triviais.
    • Análise do caso de Thomas Stearns Eliot, cuja poesia, apesar de suas declarações teóricas sobre a extinção da personalidade, revela a presença contínua de uma sensibilidade singular ao longo de sua trajetória estética e espiritual.
    • Argumentação de que a criação poética exige uma intuição histórica capaz de integrar passado e presente de modo transformador, algo que não pode ser alcançado por simples acúmulo de informações.
    • Ênfase no desenvolvimento existencial do poeta, que amadurece, sofre, envelhece e incorpora corporalmente sua experiência ao pensamento e à linguagem, dimensão orgânica inacessível às máquinas.
    • Retorno crítico ao dualismo cartesiano, afirmando que a tentativa de substituir o ser humano por uma consciência maquínica resulta numa forma empobrecida e desencarnada de mente, destituída de sensibilidade, intuição e pathos, e portanto incapaz de sabedoria e humanidade plenas.
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