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PRODUÇÃO (CH:§11)
ARENDT, H. The human condition. 2nd ed ed. Chicago: University of Chicago Press, 1998.
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A era moderna, embora tenha invertido a tradição ao glorificar o trabalho e elevar o animal laborans à posição outrora ocupada pelo animal rationale, não formulou teoria que distinguisse claramente entre animal laborans e homo faber, limitando-se a diferenciações como trabalho produtivo e improdutivo, obra qualificada e não qualificada, ou trabalho manual e intelectual, sendo apenas a primeira distinção aquela que alcança o núcleo da questão ao fundamentar as análises de Adam Smith e Karl Marx na produtividade como critério decisivo [v. animal laborans].
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Inversão da hierarquia tradicional entre ação e contemplação.
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Glorificação do trabalho como fonte de todos os valores.
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Elevação do animal laborans à posição tradicional do animal rationale.
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Distinções modernas: produtivo/improdutivo; qualificado/não qualificado; manual/intelectual.
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Centralidade da produtividade na estrutura teórica de Adam Smith e Karl Marx.
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Formulação radical de Karl Marx ao atribuir ao trabalho a criação do homem e sua distinção em relação aos animais.
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A concordância de Adam Smith e Karl Marx no desprezo pelo trabalho improdutivo revela a ruptura moderna com a concepção antiga, pois aquilo que Smith denominava parasitário — como os “criados domésticos” — correspondia precisamente à figura do trabalhador identificada com a escravidão nas épocas anteriores, cuja função consistia em assegurar a subsistência e liberar a produtividade potencial dos senhores [A riqueza das nações, II, 302].
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Desprezo moderno pelos “criados domésticos” como trabalho improdutivo.
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Identificação antiga do trabalhador com o oiketai ou familiares.
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Trabalho voltado à mera subsistência e ao consumo isento de esforço.
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Liberdade dos senhores como resultado do trabalho dos dependentes.
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Transformação moderna do critério de dignidade do trabalho em enriquecimento do mundo.
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A distinção entre trabalho produtivo e improdutivo, apesar de marcada por preconceitos, encerra a diferenciação fundamental entre obra e trabalho, pois o trabalho nada deixa atrás de si além da continuidade da vida, enquanto sua produtividade reside na força humana capaz de gerar excedente, conceito formulado de modo decisivo por Karl Marx ao distinguir trabalho de força de trabalho [Deutsche Ideologie; Das Kapital, III, cap. 48].
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Origem da distinção nos fisiocratas e na classificação entre classes produtoras, proprietárias e estéreis.
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Critério fisiocrático baseado na criação de novos objetos a partir das forças naturais da terra.
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Característica do trabalho como atividade cujo produto é consumido quase imediatamente.
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Premência vital do trabalho ligada à manutenção da vida.
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Tendência moderna, especialmente em Karl Marx, de tratar todo trabalho como obra.
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Introdução do conceito de Arbeitskraft como elemento original do sistema marxiano.
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Produtividade da força de trabalho voltada à reprodução da vida, não à produção de objetos duráveis.
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Possibilidade de canalização do excedente por opressão escravista ou exploração capitalista.
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