MARCEL PROUST, OS JUDEUS FRANCESES EM SUA ÉPOCA
* A escolha dos salões do Faubourg Saint-Germain como exemplo do papel dos judeus na sociedade não judaica na França associa-se à figura de Marcel Proust, semijudeu e disposto a identificar-se como judeu em emergências, cuja vida social extrema fez com que os acontecimentos se configurassem como reflexos e reconsiderações sociais, transformando vida interior e mundo em espelho no qual a verdade só aparece refletida [Arendt].
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Faubourg Saint-Germain como cenário de sociabilidade aristocrática.
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Marcel Proust como maior escritor francês do século XX e como semijudeu.
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Realidade definida por reflexos sociais e reconsiderações.
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Retirada para a solidão como condição de escrita e desaparecimento.
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Contemplação da experiência interna como percepção mediada pelo reflexo.
* A sociedade emancipada dos interesses públicos e a absorção da política na vida social manifestam-se na vitória dos valores burgueses sobre a responsabilidade do cidadão, na decomposição do político em reflexos fascinantes e na posição de Proust como expoente portador dos “vícios” elegantes da homossexualidade e do ser judeu, tratados de modo análogo na análise social e individual [Arendt].
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Emancipação da sociedade em relação ao interesse público.
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Política convertida em elemento da vida social.
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Valores burgueses corroendo responsabilidade cívica.
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Homossexualidade e judaísmo como “vícios” elegantes.
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Proust como “testemunha do judaísmo desjudaizado”.
* A distinção entre crime e vício formulada por Disraeli descreve como a sociedade, ao assimilar o crime e convertê-lo em vício, transforma atos deliberados em fatalidades psicológicas compulsivas, nega a responsabilidade humana e prepara um código legal potencialmente mais cruel, capaz de evoluir da tolerância seletiva para a liquidação de todos os “racialmente” predestinados, conforme exemplificado pela formulação de Proust sobre juízes que perdoariam assassínio em homossexuais e traição em judeus por suposta predestinação genética [Arendt].
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Disraeli: vício como reflexo aristocrático do crime das massas.
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Perversidade aceita como qualidade inerente e compulsiva.
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Sociedade substitui responsabilidade por fatalidade.
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Suspeição generalizada de inclinações criminosas.
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Proust: “A punição é um direito do criminoso” e risco de perdão por predestinação genética.
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Possível transição de tolerância para legislação de eliminação de “predestinados”.
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Leis normativas, mesmo severas, preservam a ideia de responsabilidade.
* O Faubourg Saint-Germain descrito por Proust situa-se nos estágios iniciais desse processo ao tolerar monsieur de Charlus “a despeito do seu vício”, elevando-o socialmente e convertendo sua experiência secreta em capital de conversação sobre amor, beleza e ciúme, agora acolhida como refinada e monstruosa [Arendt].
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Monsieur de Charlus integrado por encanto pessoal e nome tradicional.
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Abandono progressivo da vida dupla e do ocultamento.
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Incentivo social à exposição de amizades dúbias.
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Conversação sobre amor, beleza e ciúme ligada à experiência secreta.
* A popularização dos judeus como judeus, paralela à tolerância dos homossexuais, preserva preconceitos que os rotulam como “traidores” e “criminosos” enquanto revisa a atitude perante crime e traição, convertendo a indiferença ao crime em traço perturbador de uma burguesia entediada que busca no exótico dos marginais a paixão exemplificada por monsieur de Charlus, Morel, Swann, Albertine e pelo ciúme do próprio Proust [Arendt].
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Judeus enobrecidos e exceções tolerados no Segundo Império.
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Persistência de estigmas: judeus como “traidores”, homossexuais como “criminosos”.
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Indiferença social perante o crime.
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Tédio e cansaço burguês como doença do século XIX.
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Marginais e párias como fonte do exótico e da paixão.
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Monsieur de Charlus e sua paixão por Morel.
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Swann e sua lealdade à cortesã.
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Albertine como personificação do vício no romance.
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Proust situado no labirinto social pela capacidade de amar de Charlus.
* A diferença entre os salões do Faubourg Saint-Germain e a ralé que clamava “morte aos judeus” reside na recusa dos salões em associar-se abertamente ao crime, mantendo antipatia e horror declarados enquanto impõe aos recém-chegados um regime de exibição e ocultamento que torna a identidade judaica ou homossexual simultaneamente mancha física e privilégio, inscrita como “predestinação racial” [Arendt].
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Salões não desejam participar ativamente de matança.
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Persistência de antipatia por judeus e horror por anormais sexuais.
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Jogo social de meias confissões, distorções e encenações.
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Humildade exagerada e arrogância exagerada como estratégias.
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Identidade como mancha e privilégio, ligada a predestinação racial.
* A busca social pelo estranho e perigoso culmina na identificação do refinado com o monstruoso e na aceitação de monstruosidades como espetáculo exótico, associando o “homem de gênio” a um sobrenatural necromântico e permitindo que um cavalheiro judeu ou uma senhora turca pareçam criaturas invocadas por um médium [Arendt].
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Sociedade como caçadora do exótico, do perigoso e do monstruoso.
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Monstruosidades tratadas como peça russa ou japonesa com atores nativos.
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Exotismo descrito como caixa dúbia e aroma de frutos.
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“Homem de gênio” como foco de sobrenatural e segredo do Infinito.
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Atmosfera de necromancia e figuras invocadas.
* A função do exótico e monstruoso recai não sobre judeus-exceção tolerados como arrivistas estrangeiros, mas sobre judeus desconhecidos ainda pouco identificados com a comunidade, privilegiando tanto a admissão de Swann por bom gosto quanto a aceitação entusiástica de Bloch sob pressão social intra-judaica, num contexto marcado pelo escândalo do Panamá e pela preferência social por uma tropa homogênea menos assimilada [Arendt].
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Judeus-exceção admitidos sem orgulho público de amizade.
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Sociedade prefere judeus desconhecidos para preservar imaginação.
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Swann admitido por inclinação ao bom gosto e à sociedade.
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Bloch associado a família de pouca reputação e pressão de castas judaicas.
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Fim de ascensão gradual por degraus entre famílias judaicas.
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Aventureiros judeus alemães e o escândalo do Panamá como marco.
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Salões antissemitas e monarquistas atraindo exceções com títulos.
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Preferência por grupo homogêneo claramente diferente e menos assimilado.
* A autorrepresentação secularizada de eleito em Disraeli prefigura a autointerpretação judaica ao tornar a origem judaica, sob condições ambíguas de Estado e sociedade na Europa central e ocidental, uma qualidade psicológica dissociada de religião e política, passível de ser classificada como virtude ou vício, cuja perversão em vício interessante depende tanto do preconceito que a trata como crime quanto de judeus que a tomam como virtude inata [Arendt].
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Disraeli como exceção aceita em sociedade.
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Autointerpretação judaica alinhada às expectativas sociais.
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Perda de responsabilidade política sob assimilação.
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Origem judaica convertida em “qualidade de judeus”.
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Classificação da qualidade como virtude ou vício.
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Preconceito como condição para criminalização.
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Virtude inata como condição para autoafirmação e perversão social.
* A acusação de desjudaização dos judeus assimilados torna-se enganosa porque o nascimento judeu, como mostra Proust, assume papel decisivo na vida privada dos assimilados ao converter uma qualidade nacional em assunto privado por meio de reformadores, revolucionários e do judeu educado “um homem na rua e judeu em casa”, gerando um judaísmo centrado em decisões e sentimentos e vivido como defeito ou qualidade física semelhante a um vício [Arendt].
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Genocídio percebido como sofrimento sem qualidade de martírio.
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Alienação de crença e vida também presente na Europa oriental.
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Proust contrasta com o judaísmo oficial.
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Reformador: religião nacional convertida em denominação privada.
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Revolucionário: cidadania do mundo como negação de nacionalidade.
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Judeu educado: dupla vida rua/casa.
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Judaísmo privatizado torna-se obsessivo com a perda de sentido religioso e nacional.
* A “disposição inata” atribuída por Proust configura-se como obsessão individual reforçada por uma sociedade onde sucesso e fracasso dependiam do nascimento judeu, levando Proust a interpretá-la como predestinação racial e aproximando padrões de conduta judaicos e homossexuais em superioridade ou inferioridade, diferença orgulhosa, justificações do ser, oscilação entre desculpa e provocação, e impossibilidade de transitar entre grupos numa sociedade fragmentada [Arendt].
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Obsessão socialmente justificada por critérios de nascimento.
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Predestinação racial como leitura do aspecto social.
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Paralelo com conduta de homossexuais.
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Superioridade e inferioridade como polos afetivos.
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Diferença como fato natural do nascimento.
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Justificação do ser em vez do fazer.
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Oscilação entre desculpas e afirmação de elite.
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Necessidade de pertencer mais forte que ser ou não ser, evocando Hamlet.
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Sociedade em pequenos grupos corporificando sentimentos de clã.
* A exigência social de representação desloca-se do indivíduo para o grupo quando a sociedade se fragmenta, convertendo conduta em desempenho regulado por exigências silenciosas e distribuindo papéis extremos nos salões do Faubourg Saint-Germain, onde judeus representam “magia negra”, homossexuais exibem anomalia, aristocratas exibem diferença dos burgueses, e a solidariedade entre iguais surge sobretudo em catástrofes como a agregação judaica em torno de Dreyfus [Arendt].
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Representação como capacidade de desempenhar o que se é.
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Fragmentação em grupos e padronização de conduta.
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Metáfora teatral do conjunto de papéis.
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Judeus como encenação de magia negra.
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Homossexuais como encenação de anomalia.
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Aristocratas como encenação de não ser comum.
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Isolamento intra-grupo em tempos ordinários.
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Dreyfus como exemplo de agrupamento em catástrofe.
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Distinção depende do contraponto entre grupos.
* A linguagem de sinais usada por grupos sem consistência própria serve para identificação e fabricação de mistério, sendo nos judeus um artifício de atmosfera, ao contrário dos homossexuais que ocultam segredo real, e culminando na cena banalmente sabida do judeu oculto no canto de um salão cuja ascensão dependia daquela qualidade [Arendt].
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Grupos dissolvem-se quando outros se afastam.
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Linguagem de sinais como marca de pertença.
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Relevância dos sinais para recém-chegados.
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Homossexuais como mestres de sinais ligados a segredo verdadeiro.
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Judeus usando sinais para produzir mistério esperado.
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Mistério indicando fato público e sem sentido substantivo.
* A sociedade mista do fim do século XIX gira em torno da nobreza porque a aristocracia, embora em declínio cultural e político sob a Terceira República, busca distinção social contra a igualdade política e mantém desdém pela burguesia, favorecendo a aceitação de grupos rejeitados como judeus e invertidos, enquanto a classe média, apesar de riqueza e poder, carece de dignidade e reforça uma hierarquia social secreta que faz do Faubourg Saint-Germain modelo caricaturado de toda a vida social francesa e leva Proust, ao elaborar sua apologia pro vita sua, a reanalisar a sociedade [Arendt].
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Nobreza como centro simbólico da sociabilidade.
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Aristocracia perde curiosidade cultural e mantém desprezo pela burguesia.
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Terceira República e perda de privilégios políticos.
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Sentimento de clã e reserva de postos do Exército como resíduo de poder.
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Aceitação de rejeitados motivada por desdém aos padrões médios.
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Paralelo prussiano: atores e judeus; paralelo francês: invertidos e prestígio.
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Classe média rica e poderosa sem dignidade social.
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Igualdade política gerando hierarquia social oculta.
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Faubourg Saint-Germain como princípio hierárquico reproduzido em toda a França.
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Proust reanalisa a sociedade ao reanalisar a vida nos círculos aristocráticos.
