A OBRA DE ARTE
AGAMBEN, G. O homem sem conteúdo. Tr. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2012
Que a obra de arte seja outra coisa, diferente do que nela é simples coisa, é, por fim, óbvio demais, e é isso que os gregos exprimiam no conceito de alegoria : a obra de arte ἄλλο ἀγορεύει, comunica outra coisa, é outra em relação à matéria que a contém 1). Mas há objetos – por exemplo, um bloco de pedra, uma gota d’água e, em geral, todas as coisas naturais – nas quais parece que a forma é determinada e quase apagada pela matéria, e outros – um vaso, uma enxada ou qualquer outro objeto produzido pelo homem – nos quais parece que é a forma que determina a matéria. O sonho do terror é a criação de obras que estejam no mundo como nele está o bloco de pedra ou a gota d’água, de um produto que exista segundo o estatuto da coisa. “Les chefs-d’oeuvre sont bêtes”, escrevia Flaubert, “ils ont la mine tranquille comme les productions mêmes de la nature, comme les grands animaux et les montagnes” ; e Degas : “C’est plat comme la belle peinture”2).
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Não existe um problema da arte autônomo dentro do pensamento de Nietzsche, pois todo o seu pensamento é pensamento da arte, e não há propriamente uma estética nietzschiana, já que a arte nunca é pensada a partir da apreensão sensível do espectador, sendo justamente nesse pensamento que a ideia estética da arte como obra de um operar formal-criativo atinge o ponto extremo de seu itinerário metafísico, de modo que, tendo sido perseguido até o fundo o destino niilístico da arte ocidental, a estética moderna permanece ainda distante de compreender seu objeto na altura em que Nietzsche pensou a arte no círculo do eterno retorno e sob o modo da vontade de potência.
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O estatuto da arte enuncia-se desde cedo no desenvolvimento do pensamento nietzschiano, já no prefácio ao Nascimento da Tragédia (1871), livro em que tudo é presságio, e soa assim: a arte é o mais alto dever do homem, a verdadeira atividade metafísica.
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A arte, como atividade metafísica, constitui o mais alto dever do homem, frase que não significa, para Nietzsche, que a produção de obras de arte seja a atividade culturalmente e eticamente mais nobre, devendo antes ser situada no horizonte do advento daquele hóspede mais incômodo de todos, o niilismo ascendente.
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Nietzsche descreve aquilo que vem, aquilo que não pode vir de outro modo: a ascensão do niilismo, de modo que o valor da arte só pode ser apreciado a partir da desvalorização de todos os valores, que constitui a essência do niilismo (Vontade de Potência, n. 2).
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Essa desvalorização possui dois sentidos opostos (n. 22): um niilismo ativo, correspondente a um aumento da potência do espírito e a um enriquecimento vital, e um niilismo passivo, sinal de decadência e empobrecimento da vida, dualidade à qual corresponde a oposição entre uma arte nascida da sobreabundância de vida e uma arte nascida da vontade de vingar-se da vida.
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No aforismo citado, Nietzsche distingue, diante de todo valor estético, se foi a carência ou a sobreabundância que se tornou criadora, observando que o desejo de destruição, mudança e devir pode ser expressão da força sobreabundante e grávida de futuro, a que chama de dionisíaco, ou pode ser o ódio da criatura malograda que destrói por rancor contra tudo o que subsiste, como se vê nos anarquistas; e que a vontade de eternizar pode nascer de gratidão e amor, dando origem a uma arte de apoteose, ditirâmbica em Rubens, beatamente zombeteira em Hafiz, plena de claridade em Goethe, arte que Nietzsche chama de apolínea, ou pode nascer da vontade tirânica de um homem dilacerado pela dor que quer imprimir sua própria tortura em todas as coisas, sendo este o pessimismo romântico, presente tanto na filosofia schopenhaueriana da vontade quanto na música wagneriana, ao qual Nietzsche contrapõe um pessimismo dionisíaco vindouro, do qual reivindica a primazia de visão.
Nietzsche reconhecia que a arte, enquanto negação e destruição de um mundo da verdade contraposto a um mundo das aparências, assumia também necessariamente uma coloração niilista, mas interpretava esse caráter, ao menos no que toca à arte dionisíaca, como expressão daquele niilismo ativo sobre o qual escreveria mais tarde que o niilismo, como negação de um mundo verdadeiro, de um ser, poderia ser um pensamento divino (Vontade de Potência, n. 15).Em 1881, ao escrever a Gaia Ciência, o processo de diferenciação entre arte e niilismo passivo já está concluído, e no aforismo 107 Nietzsche afirma que, sem o reconhecimento pelas artes da ilusão e do erro como condições da existência cognitiva e sensível, a existência seria insuportável e as consequências da honestidade intelectual seriam náusea e suicídio, havendo porém uma contraforça que permite eludir essas consequências, a arte entendida como boa vontade da aparência, graças à qual, enquanto fenômeno estético, a existência ainda nos é suportável e nos são concedidos o olho, a mão e sobretudo a boa consciência para fazer de nós mesmos um tal fenômeno, sendo a arte assim a força antitética voltada contra toda vontade de aniquilação da vida, o princípio anticristão, antibudista, antiniilista por excelência (Vontade de Potência, n. 853).A palavra arte designa aqui algo incomparavelmente mais vasto do que costumamos representar com esse termo, e seu sentido próprio permanece inatingível enquanto se permanece no terreno da estética, sendo um aforismo intitulado Fiquemos vigilantes aquele que indica a dimensão em que arte, vontade de potência e eterno retorno pertencem-se reciprocamente em um único círculo.-
O referido aforismo adverte contra pensar o mundo como um ser vivo, como uma máquina ou como dotado da regularidade dos movimentos cíclicos dos astros vizinhos, afirmando que o caráter complessivo do mundo é caos por toda a eternidade, não por falta de necessidade, mas por falta de ordem, articulação, forma, beleza e sabedoria, e que o universo não é perfeito, nem belo, nem nobre, não possui instinto de autoconservação nem conhece leis, não havendo senão necessidades, de modo que não existe quem comande, quem obedeça ou quem transgrida, e que a morte não se contrapõe à vida, sendo o vivente apenas uma variedade rara do inanimado, concluindo com o apelo a desdivinizar a natureza para então naturalizar o homem, redimido junto com a própria natureza.
Que o caráter complessivo do mundo seja caos por toda a eternidade significa, no horizonte da ascensão do niilismo, que a existência e o mundo não possuem nem valor nem finalidade, devalorizando-se todos os valores, e que as categorias de finalidade, unidade e ser, com as quais se atribuiu valor ao mundo, nos são novamente retiradas (Vontade de Potência, n. 853), sendo o sem-finalidade e o sem-sentido, contudo, necessários, de modo que o caos é destino, e nessa concepção do caos como necessidade e destino o niilismo atinge sua forma extrema, aquela em que se abre à ideia do eterno retorno.-
Imaginando esse pensamento em sua forma mais terrível, a existência tal como é, sem finalidade nem sentido, mas inevitavelmente recorrente, sem um fim no nada, configura o eterno retorno, forma extrema do niilismo, o nada, o não-sentido eterno (Vontade de Potência, n. 55).
Na ideia do eterno retorno o niilismo atinge sua forma extrema, mas justamente por isso entra numa zona em que se torna possível sua superação.O niilismo consumado e a mensagem de Zaratustra sobre o eterno retorno do idêntico pertencem a um mesmo enigma, mas são separados por um abismo, relação expressa por Nietzsche na última página de Ecce Homo.-
Nietzsche pergunta como aquele que, em medida inaudita, diz não a tudo a que até então se disse sim, pode ser, todavia, o oposto de um negador, e como aquele que carrega o peso mais grave de um destino fatal pode ser o espírito mais leve, porque Zaratustra é um dançarino, e como aquele que traz em si a visão mais dura e terrível da realidade, tendo pensado o pensamento mais abissal, não encontre nela nenhuma objeção contra a existência, nem mesmo contra seu eterno retorno, mas antes mais uma razão para ser ele mesmo o eterno sim dito a todas as coisas, o enorme e ilimitado sim e amém.
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Um aforismo que abre o quarto livro da Gaia Ciência mostra a dimensão em que esse nó psicológico se resolve, ao afirmar a vontade de aprender cada vez mais a ver o necessário nas coisas como o que há de mais belo nelas, tornando-se assim alguém que torna belas as coisas, fazendo do amor fati seu amor, e querendo, doravante, ser apenas alguém que diz sim.
A essência do amor é, para Nietzsche, vontade, de modo que o amor fati significa a vontade de que aquilo que existe seja o que é, vontade do círculo do eterno retorno como circulus vitiosus deus, e no amor fati, na vontade que quer o que é a ponto de desejar seu eterno retorno, assumindo sobre si o peso mais grave, o niilismo se converte na extrema aprovação dada à vida.-
Um demônio que se insinuasse na mais solitária das solidões para anunciar que esta vida, tal como vivida, deverá ser vivida ainda inúmeras vezes, sem nada de novo, com toda dor e todo prazer retornando na mesma sequência, suscitaria ou o desespero de quem se prostraria amaldiçoando o demônio, ou a resposta de quem já viveu um instante imenso o bastante para dizer que jamais ouviu algo mais divino, sendo essa última a questão decisiva sobre quanto se deveria amar a si mesmo e à vida para não desejar outra coisa senão essa última e eterna confirmação (Gaia Ciência, af. 341).
No homem que reconhece sua essência a partir dessa vontade e desse amor, e ajusta seu próprio ser ao devir universal no círculo do eterno retorno, consuma-se a superação do niilismo e, junto com ela, a redenção do caos e da natureza, transformando todo foi em um assim eu quis que fosse, não sendo vontade de potência e eterno retorno duas ideias justapostas ao acaso, mas pertencentes à mesma origem e significando metafisicamente a mesma coisa, indicando a vontade de potência a essência mais íntima do ser entendido como vida e devir, e sendo o eterno retorno do idêntico o nome da mais extrema aproximação possível de um mundo do devir a um mundo do ser.-
Imprimir ao devir o caráter do ser — eis a mais alta vontade de potência (Vontade de Potência, n. 617).
Pensada nessa dimensão metafísica, a vontade de potência é o continente do devir que atravessa o círculo do eterno retorno e, ao atravessá-lo, contém-no, transformando o caos no áureo círculo redondo do grande meio-dia, da hora da sombra mais curta, em que se anuncia o advento do super-homem, sendo somente nesse horizonte que se torna possível compreender o que Nietzsche entende ao afirmar que a arte é o mais alto dever do homem, a verdadeira atividade metafísica.Na perspectiva da superação do niilismo e da redenção do caos, Nietzsche situa a arte fora de toda dimensão estética, pensando-a no círculo do eterno retorno e da vontade de potência, de modo que a arte se apresenta como o traço fundamental da vontade de potência, na qual se identificam a essência do homem e a essência do devir universal, sendo arte o nome que Nietzsche dá a esse traço essencial, expresso no valor arte pela vontade que reconhece a si mesma em toda parte do mundo.-
Um fragmento de 1881 afirma o desejo de ter sempre de novo a experiência de uma obra de arte, devendo a vida ser plasmada de modo a alimentar esse desejo em cada uma de suas partes, enunciando-se só ao final a teoria da repetição de tudo o que existiu, uma vez inculcada a tendência a criar algo que possa florescer cem vezes melhor sob o sol dessa teoria.
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Somente por pensar a arte nessa dimensão originária Nietzsche pode afirmar que a arte tem mais valor que a verdade (Vontade de Potência, n. 853) e que se tem a arte para não sucumbir diante da verdade (Vontade de Potência, n. 882).
O homem que assume sobre si o peso mais grave da redenção da natureza é o homem da arte, aquele que, a partir das últimas tensões do princípio criativo, fez em si a experiência do nada que exige forma e converteu essa experiência na extrema aprovação dada à vida, na adoração da aparência entendida como eterna alegria do devir, alegria que traz em si a alegria do aniquilamento.O homem que aceita em sua própria vontade a vontade de potência como traço fundamental de tudo o que é, e se quer a si mesmo a partir dessa vontade, é o super-homem, sendo super-homem e homem da arte a mesma coisa, e a hora da sombra mais curta, em que se abole a diferença entre mundo verdadeiro e mundo das aparências, é também o deslumbrante meio-dia do olimpo das aparências, o mundo da arte.Como redenção do acaso, o mais alto dever do homem aponta para um tornar-se natureza da arte que é, ao mesmo tempo, um tornar-se arte da natureza, união nupcial em que se fecha o anel do eterno retorno, a áurea esfera bem redonda em que a natureza se liberta das sombras de Deus e o homem se naturaliza.Num fragmento dos últimos anos, Nietzsche evoca a afirmação de Pascal de que, sem a fé cristã, o homem seria para si mesmo, assim como a natureza e a história, um monstro e um caos, declarando que essa profecia foi cumprida (Vontade de Potência, n. 83), sendo o homem da arte aquele que cumpriu a profecia de Pascal e é, portanto, monstro e caos, ainda que esse monstro e esse caos tenham o rosto divino e o sorriso aliciante de Dioniso, deus que converte em sua dança o pensamento mais abissal na alegria mais alta, e em cujo nome, já desde o Nascimento da Tragédia, Nietzsche quisera exprimir a essência da arte.No último ano de lucidez, Nietzsche muda os projetos de título do quarto livro da obra A Vontade de Potência, que passam a soar Redenção do Niilismo, Dioniso, filosofia do eterno retorno, Dioniso filósofo.Na essência da arte, que atravessou até o fim seu próprio nada, domina a vontade, sendo a arte a eterna autogeração da vontade de potência, que se desprende tanto da atividade do artista quanto da sensibilidade do espectador para colocar-se como o traço fundamental do devir universal.-
Um fragmento dos anos 1885-86 evoca a obra de arte ali onde aparece sem artista, por exemplo como corpo, como organismo, interrogando em que medida o artista não passa de um grande preliminar, sendo o mundo a obra de arte que dá à luz a si mesma.
1)Cf. HEIDEGGER, Martin. Der Ursprung des Kunstwerkes. In : Holzwege GA5 (1950), p. 9. [Tradução portuguesa : A origem da obra de arte. In : Caminhos de floresta. Coordenação científica da edição e tradução de Irene Borges-Duarte. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. p. 11.]2)Citado em VALÉRY, Paul. Tel quel, I, 11 Uma análoga tendência para aquela que se poderia definir como a “platitude do absoluto” se reencontra na aspiração de Baudelaire em criar um lugar-comum : “Créer un poncif, c’est le génie. Je dois créer un poncif” (Fusées XX).estudos/agamben/homem-sem-conteudo/obra-de-arte.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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