estudos:agamben:amor-2015
AMOR (2015:255-259)
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Observação recorrente acerca da ausência do amor na obra de Heidegger
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O problema do amor aparece como ausente da obra heideggeriana, sobretudo em Sein und Zeit, apesar da ampla análise das Stimmungen, como o medo e a angústia, desenvolvida na analítica existencial.A partir dessa constatação, formulam-se críticas segundo as quais a analítica do Dasein, fundada exclusivamente na Sorge, deixaria de conceder lugar estrutural ao amor.
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Koepp, em 1928, e Binswanger, em 1942, censuram a ausência do amor na constituição fundamental do Dasein.
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Em nota de caráter hostil, Jaspers qualifica a filosofia heideggeriana como desprovida de amor, inclusive em seu estilo.
No seminário de Zollikon, esclarece-se que o cuidado, quando interpretado apenas como determinação antropológica do Dasein isolado como sujeito, pode parecer unilateral e necessitado de integração pelo amor.-
O cuidado, compreendido de modo fundamental, mostra-se inseparável do amor, pois nomeia a constituição extático-temporal do caráter fundamental do Dasein, isto é, a compreensão do ser.
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O amor funda-se de maneira decisiva na compreensão do ser, assim como o cuidado quando entendido antropologicamente.
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Uma determinação essencial do amor orientada pela determinação fundamentológica do Dasein alcança maior profundidade e maior alcance do que uma definição que o conceba apenas como algo mais elevado em relação ao cuidado.
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Limites e pertinência das críticas
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As críticas permanecem ociosas enquanto não lograrem substituir a analítica heideggeriana por uma analítica centrada no amor, como observa Löwith.
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A insuficiência dessas objeções decorre da ausência de uma alternativa estrutural capaz de ocupar o lugar sistemático da Sorge na analítica existencial.
O silêncio — ou aparente silêncio — sobre o amor permanece, entretanto, problemático.-
Entre 1923 e 1926, durante a preparação da obra fundamental, desenvolve-se a relação amorosa com Hannah Arendt.
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Testemunho posterior de Arendt indica que essa relação foi considerada a paixão da vida de Heidegger e que a elaboração de Sein und Zeit ocorreu sob o signo do amor.
A tensão entre a centralidade existencial do amor na vida e sua ausência temática na obra intensifica a questão filosófica.-
A questão da ausência temática do amor
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A relação com Hannah Arendt produz, de sua parte, a dissertação Der Liebesbegriff bei Augustin, publicada em 1929, na qual se reconhece influência heideggeriana.
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A disparidade entre a tematização arendtiana do amor e o silêncio de Sein und Zeit reforça o problema da ausência temática.
A nota sobre o amor localiza-se no parágrafo 29 de Sein und Zeit, dedicado à Befindlichkeit e às Stimmungen.-
A nota contém exclusivamente duas citações: Pascal afirma que se entra na verdade pela caridade; Agostinho declara que não se entra na verdade senão pela caridade.
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Ambas afirmam um primado ontológico do amor como acesso à verdade.
A referência a esse papel fundamental do amor provém das conversas com Scheler acerca da intencionalidade.-
Em Liebe und Erkenntnis e em Ordo Amoris, Scheler insiste na condição originária do amor, afirmando que o ser humano é antes ens amans que ens cogitans ou ens volens.
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A importância fundadora do amor consiste em condicionar a possibilidade do conhecimento e do acesso à verdade.
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A crítica da intencionalidade e a estrutura da transcendência
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A referência ao amor insere-se no contexto de crítica à concepção corrente da intencionalidade como relação cognitiva entre sujeito e objeto.
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Essa concepção deixa inexplicada a própria relação, pois não determina o gênero de ser envolvido nem esclarece o modo de ser dos entes relacionados.
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A noção de ser mobilizada à maneira de Hartmann e Scheler, como ser disponível, não elucida a essência da relação.
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Um dos objetivos preliminares de Sein und Zeit consiste em esclarecer essa relação em sua essência originária.
A estrutura mais originária do que a relação sujeito-objeto é a autotranscendência do In-der-Welt-Sein.-
O Dasein abre-se ao mundo para além de toda subjetividade, de tal modo que, antes da constituição de sujeito e objeto, já se encontra aberto ao mundo.
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O conhecer funda-se previamente em um Schon-sein-bei-der-Welt, isto é, em um já-ser-junto-ao-mundo.
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Somente a partir dessa transcendência originária pode a intencionalidade ser compreendida quanto ao seu modo de ser próprio.
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Reinterpretação do amor a partir da abertura originária
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O não tratamento temático do amor decorre do fato de que o modo de ser da abertura mais originária de todo conhecimento constitui o problema central de Sein und Zeit.
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A abertura que Agostinho e Scheler situam no amor corresponde, em sentido ontológico-fundamental, à estrutura mesma do Dasein.
O amor, compreendido a partir dessa abertura, não pode ser concebido como relação entre sujeito e objeto nem como relação entre dois sujeitos.-
Seu lugar próprio deve ser buscado na articulação do Schon-Sein-bei-der-Welt que caracteriza a transcendência do Dasein.
Impõem-se então questões decisivas relativas ao modo de ser dessa abertura:-
O sentido segundo o qual o Dasein está sempre junto ao mundo antes de qualquer conhecimento.
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A possibilidade de abertura a algo sem convertê-lo em correlato objetivo de um sujeito cognoscente.
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O esclarecimento da relação intencional quanto a seu modo de ser particular e quanto ao seu primado em relação a sujeito e objeto.
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Introdução da noção de facticidade
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Nesse contexto problemático, introduz-se a noção de Faktizität como determinação essencial para esclarecer o modo de ser do Schon-Sein-bei-der-Welt.
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A facticidade explicita a estrutura originária da abertura do Dasein, no interior da qual a questão do amor deve encontrar sua determinação ontológica.
AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Ensaios e conferências. Tr. Antônio Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015
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