Si mesmo e consciência

ZAHAVI, Dan. Exploring the self: philosophical and psychopathological perspectives on self-experience. Amsterdam: J. Benjamins publ, 2000.

1. Mesmo uma vida mental reduzida a uma única percepção elementar, como sede ou fome, já suscita a questão decisiva de saber se a própria ocorrência perceptiva envolve alguma forma de si mesmo ou substância, pois, caso nenhuma estrutura de subjetividade esteja presente nessa experiência mínima, a mera acumulação posterior de percepções tampouco parece capaz de produzi-la.

2. A distinção de Andrew Brook entre autoconsciência empírica e autoconsciência aperceptiva separa, de um lado, a consciência de estados psicológicos particulares, alcançada simplesmente ao vivenciar e estar consciente de percepções, lembranças, desejos ou sensações corporais, e, de outro, a consciência de si como sujeito da experiência e como sujeito comum de uma multiplicidade de estados psicológicos.

3. A distinção entre essas formas de autoconsciência conduz ao problema de saber se toda autoconsciência implica necessariamente um si mesmo, sujeito ou ego, ou se pode haver uma autoconsciência sem sujeito, não egológica, entendida apenas como consciência que determinada experiência possui de si própria, questão cuja solução é decisiva tanto para compreender a autoconsciência quanto para determinar o significado de ser um si mesmo.

** 1. O desafio não egológico **

4. A oposição proposta por Aron Gurwitsch entre teorias egológicas e não egológicas da consciência permite distinguir uma concepção segundo a qual toda experiência envolve um objeto, o próprio ato experiencial e um sujeito que o vive, de outra segundo a qual experiências seriam acontecimentos mentais fundamentalmente sem ego, não pertencentes a ninguém e acompanhados apenas por uma consciência anônima de seu próprio ocorrer.

5. Argumentos contemporâneos influentes contra a concepção egológica podem ser encontrados em Dieter Henrich e Ulrich Pothast e possuem importante antecedente na posição clássica de Jean-Paul Sartre.

6. Henrich e Pothast sustentam que compreender a autoconsciência como consciência de um si mesmo, sujeito ou ego tende a convertê-la em uma forma de consciência de objeto e, assim, a submetê-la às dificuldades da teoria reflexiva da autoconsciência, além de introduzir indevidamente na consciência pré-reflexiva um ego concebido como agente, princípio de atividade ou proprietário separado das experiências.

7. Em A transcendência do ego, Sartre procura mostrar que o ego é desnecessário ao fluxo consciente porque a própria consciência possui individuação e unidade temporal intrínsecas, não necessitando de um princípio exterior, central e atemporal que sintetize suas experiências.

8. O ego também não poderia integrar a consciência porque a consciência é caracterizada por transparência fundamental, isto é, por autodoação ou automanifestação em que nada de sua existência permanece absolutamente oculto, enquanto o ego é opaco, manifesta-se apenas progressivamente e conserva aspectos ainda não revelados, não podendo por isso pertencer à própria estrutura transparente da consciência.

9. Uma descrição fenomenológica da consciência vivida tampouco encontraria um ego como habitante ou proprietário da consciência, pois, durante uma atividade absorvente como a leitura de uma narrativa, há consciência do objeto e autoconsciência pré-reflexiva da própria leitura, mas não necessariamente consciência de um ego nem tematização de que a atividade está sendo realizada por um “eu”, razão pela qual o cogito cartesiano pareceria afirmar mais do que a experiência permite ao substituir “há consciência desta cadeira” por “eu sou consciente desta cadeira”.

10. A consciência pré-reflexiva permanece, nessa concepção sartreana, sem estrutura egológica enquanto a experiência é simplesmente vivida, e o ego aparece apenas quando uma atitude reflexiva, distanciadora e objetivante transforma a experiência em objeto, embora mesmo então o polo reflexivo permaneça não egológico e o ego manifestado seja objeto, e não sujeito, da reflexão.

11. A convergência entre Sartre, Henrich e Pothast não resolve, contudo, se uma autoconsciência rigorosamente impessoal pode realmente ser atribuída a um fluxo não egológico sem transformar a experiência em entidade observável em terceira pessoa, sobretudo porque a noção de ego utilizada por essas críticas — princípio ativo, proprietário das experiências ou pessoa constituída por hábitos, caráter e convicções persistentes — talvez não esgote todas as formas possíveis de compreender o si mesmo.

12. Torna-se necessário reconhecer nos próprios fenômenos experienciais uma egocentricidade ou ipseidade fundamental, sem identificá-la com o ego substancial criticado pelas teorias não egológicas, pois a análise husserliana oferece recursos para compreender conjuntamente o significado do si mesmo e sua relação intrínseca com a autoconsciência.

13. Os termos “si mesmo” e “ego” podem ser empregados de maneira intercambiável para simplificar a análise, ainda que em outros contextos possam adquirir conotações distintas.

** 2. Uma resposta egológica **

** 2.1. A ipseidade da doação em primeira pessoa **

14. Husserl iniciou as Investigações lógicas adotando uma concepção não egológica próxima daquela posteriormente defendida por Sartre, mas abandonou-a em razão, sobretudo, das dificuldades que ela criava para a análise fenomenológica da intersubjetividade, uma vez que esta exige uma concepção de subjetividade capaz de distinguir uma consciência de outra e, assim, tornar inteligível uma pluralidade efetiva de sujeitos.

15. No encontro com a raiva de outra pessoa, a consciência distingue imediatamente a própria perplexidade da experiência alheia porque toda experiência possui uma qualidade fenomenal subjetiva, um modo próprio de “como é” vivê-la, e porque, enquanto o objeto percebido pode em princípio aparecer igualmente a diversos sujeitos, a própria experiência perceptiva é dada diretamente apenas ao sujeito que a vive.

16. A superação husserliana da teoria não egológica implica que toda experiência consciente pertence necessariamente a algum sujeito, embora esse pertencimento não dependa de uma entidade exterior acrescentada à experiência, mas do próprio modo como ela se dá: quando uma experiência aparece originariamente em primeira pessoa, ela é vivida como própria, ainda que não haja tematização explícita de um “eu” que a possui.

17. A doação em primeira pessoa, a autoconsciência e uma egocentricidade ou ipseidade básica convergem, portanto, numa mesma estrutura, mais adequadamente expressa pela “subjetividade da experiência” do que por um “sujeito da experiência”, pois esta última expressão pode sugerir erroneamente uma entidade separável das vivências, enquanto a primeira indica que a dimensão subjetiva é inseparável do próprio fenômeno experiencial.

18. Embora a identificação entre autoconsciência e uma forma mínima de si mesmo possa parecer trivial, ela permanece filosoficamente necessária justamente porque é negada pelas teorias da impessoalidade, da ausência de pertencimento, do anonimato radical e da consciência não egológica, sendo tarefa da filosofia, como assinalaram Wittgenstein e Heidegger, tornar explícitas estruturas tão familiares e evidentes que sua própria importância tende a permanecer despercebida.

19. A concepção não egológica admite experiências rigorosamente impessoais que não conteriam sequer uma referência implícita a um sujeito, de modo que duas experiências simultâneas e qualitativamente idênticas pertencentes a duas vidas mentais seriam numericamente distintas não porque possuíssem sujeitos diferentes, mas apenas porque uma ocorreria nesta vida mental particular e outra naquela vida mental distinta.

20. A adoção efetiva da perspectiva de primeira pessoa mostra, porém, que a diferença fundamental entre uma percepção própria e a percepção de outra pessoa não consiste simplesmente em uma ser “esta” e a outra “aquela”, pois uma experiência é precisamente esta experiência própria porque se oferece de maneira irredutível em primeira pessoa, enquanto a experiência alheia não se apresenta desse modo e, por isso, não integra a própria vida mental.

21. A objeção segundo a qual um ego separado da experiência não poderia transformar sua consciência dessa experiência em autoconsciência deixa de ser decisiva quando o ego não é entendido como entidade situada acima do fluxo consciente nem sua relação com a experiência como posse externa, mas quando a própria autodoação e automanifestação em primeira pessoa da experiência são reconhecidas como a forma mais fundamental de egocentricidade.

22. A reformulação sartreana do cogito como simples afirmação de que “há uma percepção de uma cadeira” permanece insuficiente, pois duas pessoas podem perceber simultaneamente a mesma cadeira sem tematizar explicitamente um “eu”, mas suas percepções continuam radicalmente diferenciadas porque apenas uma delas é dada em primeira pessoa a cada sujeito, revelando uma ipseidade intrínseca aos próprios fenômenos experienciais.

23. A tentativa de resolver o problema da intersubjetividade postulando uma vida anônima originária e indiferenciada, anterior à distinção entre si mesmo e outro, não evita o solipsismo, mas dissolve o próprio problema ao eliminar simultaneamente individuação, ipseidade, diferença, alteridade e transcendência, impossibilitando tanto a subjetividade quanto a relação entre subjetividades.

24. Experiências podem legitimamente ser denominadas anônimas quando lhes falta uma autoconsciência explicitamente tematizada, mas não quando supostamente lhes faltam autodoação, individuação e doação em primeira pessoa, pois tratar essas estruturas como atributos contingentes exigiria explicar como uma consciência originalmente indiferenciada poderia posteriormente adquirir uma primeira pessoalidade que não estava presente em sua própria constituição.

25. A dificuldade comum a Sartre, Henrich e Pothast decorre de uma concepção excessivamente estreita do ego, deficiência que o próprio Sartre parece ter posteriormente reconhecido ao abandonar a caracterização puramente impessoal da consciência pré-reflexiva e sustentar que a consciência, mesmo sem possuir um ego no nível imediato, permanece pessoal por remeter fundamentalmente a si mediante sua autodoação ou ipseidade.

26. A autoconsciência egocêntrica não consiste em apreender um si mesmo puro separado da experiência, mas em vivenciar uma experiência segundo seu modo de apresentação em primeira pessoa, cuja presença originária constitui sua qualidade de ser “minha” e a vincula a determinado sujeito, de maneira que o si mesmo implicado na autoconsciência constitui uma dimensão ou função do próprio modo de doação da experiência.

** 2.2. Identidade na diferença **

27. A análise da autodoação e da apresentação em primeira pessoa permite reconhecer que toda experiência consciente envolve uma forma elementar de ipseidade, conclusão que constitui um argumento fundamental contra as teorias não egológicas da consciência.

28. Essa noção mínima de si mesmo é condição necessária, mas não esgota a relação entre si mesmo e autoconsciência, pois existem formas mais complexas de identidade e autorreferência que ultrapassam a autodoação de uma experiência singular e exigem considerar a multiplicidade de conceitos possíveis de si mesmo.

29. Husserl acrescenta à ipseidade inerente à experiência singular a noção de um ego transcendente aos atos, compreendido como polo de identidade compartilhado pelas experiências de uma mesma corrente de consciência, distinto das vivências transitórias sem poder existir independentemente delas e constituindo, por isso, uma “transcendência na imanência”.

30. A distinção entre o ego e as experiências torna-se necessária quando a análise ultrapassa uma única experiência e considera formas de autoconsciência que abrangem uma pluralidade simultânea ou temporal de vivências, pois é possível reconhecer-se como a mesma subjetividade comum a diferentes experiências presentes ou recordar uma experiência passada como própria apesar da transformação contínua dos conteúdos conscientes.

31. A consciência do ego enquanto identidade transcendente aos atos não surge na simples autodoação imediata de uma experiência singular, mas requer diferença, distância e síntese entre diversas experiências, pois somente mediante uma multiplicidade de atos relacionados entre si torna-se possível apreender algo que permanece o mesmo através de conteúdos mutáveis.

32. Essa estrutura aproxima-se diretamente da autoconsciência aperceptiva descrita por Brook, na qual não há apenas consciência de ser sujeito de uma experiência singular, mas consciência de si como sujeito comum de diversos estados psicológicos, sendo a referência a uma pluralidade de experiências condição essencial, e não elemento acidental, desse tipo de autoconsciência.

33. A ipseidade inerente à doação em primeira pessoa e a identidade transcendente aos atos não constituem concepções incompatíveis do si mesmo, pois é necessário distinguir entre vivências particulares e transitórias (Erlebnisse) e a dimensão persistente do experienciar (Erleben), na qual diferentes atos aparecem e por meio da qual continuam podendo ser reconhecidos como próprios.

34. A pertença de diferentes experiências ao mesmo campo de doação em primeira pessoa permite compreender como a autoconsciência atravessa atos numericamente distintos e distâncias temporais, tornando possível recordar imediatamente uma experiência passada como própria sem precisar reconstruir previamente uma cadeia contínua que conecte o presente ao passado.

35. Embora a identidade do si mesmo transcendente aos atos se revele somente por meio de sínteses que relacionam experiências diferentes, ela não surge arbitrariamente no ato reflexivo, pois encontra seu fundamento na dimensão mais originária e contínua do experienciar em primeira pessoa.

** 3. Conclusão **

36. A relação entre si mesmo e autoconsciência não pode ser formulada como alternativa entre consciência de um si mesmo e autoconsciência de uma experiência supostamente sem sujeito, pois existem diferentes níveis de autoconsciência que vão desde a autodoação pré-reflexiva de uma experiência atual até a reflexão temática sobre si como subjetividade comum que pensa, delibera, decide, age e sofre.