O interesse pela psiquiatria revelou, em seu renovamento desobjetivante via a
Daseinsanalyse — acompanhado no seminário de F.
Dastur e J.-M. Azorin/J. Naudin na ENS entre 1992 e 2000 —, uma perspectiva que, através de
Binswanger e Blankenburg, parecia libertar a experiência psicopatológica de todo paradigma reducionista, substituindo o tratamento medicamentoso por uma escuta do outro que faz da relação intersubjetiva o lugar mesmo da terapia.
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Em Mélancolie et manie,
Binswanger faz emergir, no estudo da esquizofrenia, uma forma aguda de lucidez e atenção ao outro enraizada na relação à abertura infinita dos possíveis; na melancolia, o repli sobre si indica retraimento diante do outro; em ambos os casos o ritmo temporal se transtorna — passado empobrecido, futuro inchado —, tornando instável a vida do sujeito.
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Em La Perte de l'évidence naturelle, Blankenburg descreve a fragilidade da relação ao mundo em casos de pauci-esquizofrenia, patologias limitadas e provisórias que interessam mais que as psicoses francas, por servirem de espelho ao sujeito dito normal.
Essa abordagem, embora renove reciprocamente psiquiatria e fenomenologia, permanece aquém em três pontos: a exigência radical e produtora da co-generatividade, a relação ao outro nela engajada, e a prática clínica mobilizada.
O encontro com uma equipe de urgência psiquiátrica de intervenção domiciliar, na filiação da psiquiatria existencial, desenvolveu precisamente esses três requisitos.
Baseada no hospital Charcot em Plaisir (78), dirigida pelo Dr. Frédéric Mauriac, a equipe ERIC (Équipe rapide d'intervention de crise) celebrou seu décimo aniversário em congresso internacional no Palácio de Congressos de Versalhes em 11 e 12 de junho de 2004, levando a desobjetivação do paciente ao extremo ao evitar tratamento psicotrópico — usado apenas como meio relacional — e sobretudo a hospitalização, mantendo a pessoa em domicílio ao requalificar todos os membros da família.
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Diante de uma crise entre um adolescente e seus pais, que costumam se declarar impotentes e incompetentes, o psiquiatra eriquiano se apaga para tornar o pai novamente competente em seu papel, invertendo a demissão parental e o controle objetivante do corpo médico.
A abordagem em terapia familiar, elaborada exemplarmente pelo psiquiatra belga Mony Elkaïm, é ferramenta complementar essencial, fazendo emergir uma ética que privilegia a prática de terreno sem preconceitos teóricos (uma espécie de epoché de base), a virtude transformadora da confrontação com a experiência crítica, e uma experiência relacional que ultrapassa a intersubjetividade fenomenológica em favor de um vínculo interpessoal múltiplo por ressonância.
2.2. A ANTROPOLOGIA ETNOMETODOLÓGICA
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Mais naturalmente que a prática psiquiátrica, ancorada num paradigma interindividual de face a face, o terreno mais afinado com um requisito altruísta e comunitário se liga a uma abordagem coletiva de tipo antropológico.
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Na tradição fenomenológica, a abordagem sociológica de A. Schütz privilegia a experiência vivida das relações sociais em sua dimensão sincrônica (os cossociais de que fala também Gurwitsch) e diacrônica (ascendentes e descendentes), através de uma epoché natural que ressoa com os reencontros encarnados e a partilha habitual com o mundo tematizados por
Husserl na Krisis, ainda que faltem uma prática efetiva da relação aos outros e uma empiricidade suficientemente distanciada para ser vista em sua dimensão transcendental sem se tornar abstrata.
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Numa perspectiva microssociológica mais qualitativa e descritiva, os trabalhos da etnometodologia de Garfinkel e Goffman e os avanços da etnologia pré-reflexiva de J. Favret-Saada, G. Althabe e M. Segalen abriram pistas para uma fenomenologia comunitária concreta.
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Garfinkel, fundador da etnometodologia, em Studies in Ethnomethodology no início dos anos 1960, privilegia a dimensão interacionista entre sujeitos até erradicar a noção de subjetividade em favor da imanência interativa.
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E. Goffman cultiva a descrição das situações da vida cotidiana com o mínimo de pressupostos.
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J. Favret-Saada, experimentando o terreno-limite da magia negra no bocage bretão, elabora metodologia de observação à medida da implicação estrutural do observador no observado, revelando in vivo a inanidade de toda neutralidade do sujeito na situação de feitiçaria.
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G. Althabe, etnólogo dos terrenos urbanos, evidencia as experiências locais e a cultura do próximo, pondo em xeque o preconceito exótico dos africanistas e americanistas.
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M. Segalen, instruída por sua Sociologie de la famille, desenvolveu ferramenta de interrogação das práticas culturais a partir de sua experiência de museógrafa no Museu de Artes e Tradições Populares.
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Com esses instrumentos metódicos de terreno, buscou-se dar conta da comunidade grega de Istambul, terreno prático de pesquisa sobre o estatuto da comunidade numa démarche etnológica, após dois anos na antiga Constantinopla (1988-1990) e retornos breves subsequentes, descrevendo os eixos temporal-histórico, espacial-social, familiar-genealógico e simbólico-mítico do vivido dessa comunidade, iluminados fenomenologicamente em suas dimensões internas (memória, imaginário, percepção, empatia) e intersubjetivas (festas, comemorações, conflitos sociais, greves, celebrações históricas, cerimônias religiosas), o que permite desatar apories da fenomenologia quanto à descrição de pluralidades em movimento e coletividades heterogêneas.
2.3. A PSICOLOGIA DA CRIANÇA
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Cada outro é diferente, e a busca por dar conta da experiência intersubjetiva em seu caráter concreto e encarnado revela que a alteridade reserva surpresas que nos nutrem.
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Seguindo a pista husserliana das figuras-limite de outrem — o vivente na autopoiese, o louco na
Daseinsanalyse e na terapia familiar eriquiana, o estrangeiro/primitivo na antropologia etnográfica do semelhante —, a criança expõe de modo único à novidade e à surpresa, desconcertando quem dela provém e revelando outra potencialidade de si mesmo.
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A criança coloca em presença do tréfundo arcaico, pulsional, vital e gerador mais do que num território espaço-temporal, permitindo recomunicar consigo mesmo, isto é, com o corpo e a espontaneidade, articulando a experiência do corpo à experiência íntima de alteridade que porta em si.
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Desde os trabalhos de D. Stern sobre a vida interpessoal do lactente nos anos 1960-1970 e depois a escola americana em torno de Meltzhoff, aprofundando pistas abertas por
Merleau-Ponty e Piaget, demonstrou-se experimentalmente que o recém-nascido, desde as primeiras horas (e mesmo intrauterinamente), está voltado para o outro, em posição de receptividade — o que Stern nomeia affective atunement — sendo apenas a cultura e a educação capazes de induzir um condicionamento que nos afasta dessa vitalidade primeira.
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Os trabalhos em psicologia da criança do antropólogo dos anos 1930 Marcel Jousse, notadamente Anthropologie du geste e Le Style oral, aprofundaram a compreensão da experiência arcaica da alteridade que atravessa a criança, ao centrar sua investigação não no mimetismo reprodutor e estéril mas no mimismo inventivo e renovador, aptidão universal a ser reativada em cada um.
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Jousse, que utiliza o termo intussuscepção para designar essa faculdade de interiorização espontânea da criança, convida a não fazer o carro ou o cavalo, mas a ser o carro, a ser o cavalo — em estágio de mimismo, percebe-se o quanto se está habituado a funcionar mecanicamente sem fazer reviver aptidões primordiais que constituem os vivos e que atravessam espontaneamente as crianças.
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A intuição de Jousse sobre a criança estende-se ao ser humano em geral, depositário de uma abertura infinita ao que o ultrapassa e aguilhoa, receptividade dada mas a ser cultivada, pois naturalmente tendemos ao repli e ao silêncio, erguendo uma linha de separação entre eu e outrem que só existe na projeção mental — a criança, sem barreira psíquica, ensina que a realidade é toda abertura e a distinção eu/outro uma ficção, ainda que a educação corresponda ao dressage (Zucht) reclamado por
Kant na esteira de Pestalozzi para impor os limites da cultura à força selvagem da desinibição.
3. O TECIDO DOS “FORAS” DA FENOMENOLOGIA
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A fenomenologia, ao contato desses diferentes campos de experiência, se enriquece e se renova: reinervada em sua metodologia redutiva pela co-generatividade da neurofenomenologia; requalificada na prova fundamental do corpo pela experiência das energias no pensamento ortodoxo do corpo glorioso; revisitada em sua efetivação pela prática minuciosa da relação ao espírito própria do budismo; reassegurada na dimensão intersubjetiva pela ética relacional da psiquiatria da ERIC; reabilitada na experiência comunitária pela investigação de terreno etnológico e a etnometodologia; radicalizada em sua intuição do vínculo entre corpo e outro pela antropologia do mimismo da criança em M. Jousse.
3.1. FENOMENOLOGIA DO GOZO ESTÉTICO
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Num sétimo e último ponto, a experiência estética forma um tecido onde se cruzam os fios anteriores, concentrando a relação primordial à sensibilidade corporal (aisthesis), ancoragem de toda prática, e abrindo, pelo regime expressivo, uma liberdade de indeterminação e não-finalidade que expõe a um modo de comunicação livre de toda eficácia esterilizante.
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Em coerência com a evidência interna da experiência em primeira pessoa, privilegia-se um ancoradouro efetivamente trilhado por quem fala, razão pela qual o foco recai sobre o ato de escrever, terreno privilegiado de experimentação da forma estética.
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Isola-se dentro dessa experimentação a dimensão do gozo no ato de escrever, pois o gozo aspira ao núcleo da sensibilidade corporal, lugar por excelência da relação íntima do sujeito consigo mesmo, intimidade caracterizada por autenticidade e gratuidade — não se trata, porém, de um remake da arte pela arte, pois a atenção ao que se dá no ato de escrever o torna lastreado e encarnado.
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Privilegia-se o gozo de escrever sobre a mira de um objetivo demonstrativo, suspendendo o resultado em favor do próprio processo do advento do ato de escrever, mediante a consigna metódica de se reter de escrever para deixar emergir uma qualidade de relação ao instante vital — gesto de retardo sobre o dado e o definitivo que todo artista produz, seja escritor, pintor ou compositor, sendo E.
Levinas exemplar dessa atitude em que o Dizer sempre prevalece em dignidade sobre o Dito.
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Tal gesto, artístico ou filosófico, remete à própria método da fenomenologia, a essa epoché do sentido sobre o movimento de sua conquista, a essa retenção dos conteúdos de significação sobre o ato que os origina, abrindo uma temporalidade do retraimento que é também temporalidade de maturação, densificando a relação ao presente ao aliviar o espírito do passado ou da programação do futuro — a epoché da escrita procede da exigência de não escrever, não por medo da imperfeição mas por cuidado de deixar se desdobrar o espaço do sentido.
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Em Écrire en phénoménologue. Une autre époque de l'écriture (1999), a partir dos aportes de
Husserl a
Marion passando por Heidegger,
Merleau-Ponty,
Levinas e M.
Henry, e explorando junto a poetas como Y. Bonnefoy e F. Ponge os recursos de tal escrita em ato, desenharam-se os contornos de uma prática da escrita fenomenológica que evidencia a epoché aplicada ao sentido, a temporalidade suspensiva do movimento de retraimento, e a relação a outrem como espaço de partilha onde o outro e o si não são mais concorrentes.
3.2. A COERÊNCIA DOS “FORAS”
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Além de sua significação ordenada no percurso pessoal de pesquisa, os sete terrenos revestem coerência epistemológica essencial em quatro traços: o conhecimento desses campos se fez em primeira pessoa, com o fio condutor da empatia (segunda pessoa) determinante em cada caso; o soubassement prático fornece o terreno ontológico da démarche; tematicamente, a experiência corporal, situada no centro da investigação, se aprofundou notavelmente; e, quanto à linguagem adotada, a descrição se viu ao mesmo tempo promovida e limitada em suas pretensões, em proveito de outros paradigmas pragmáticos complementares.
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Os foras da fenomenologia explorados têm por virtude nutrir uma outra fenomenologia, cujo método se faz expressamente em primeira pessoa e é essencialmente retransmitido pela segunda pessoa via empatia, cuja ontologia é eminentemente prática (com variações pragmática, experiencial e experimental), cujo enraizamento temático passa essencialmente pela experiência primordial mas revisitada do corpo, e cuja linguagem descritiva aparece reinvestida mas interrogada no modo de uma escrita fenomenológica em ato.