3. Temos assim, com a consciência, experiência integrante, a um só tempo de si e do mundo, de si pelo mundo e do mundo via si mesmo, inscrevendo-se aí de imediato as dimensões múltiplas da relação que, enquanto sujeitos, mantemos com o mundo: percepção, afeto, temporalidade, movimento, imaginação, vontade, juízo, linguagem, encontro do outro, comunidade, história, saber-fazer, hábito, aspiração infinita ao sagrado e ao absoluto, ampla paleta de cores da consciência, refletindo cada dimensão tanto sua estrutura quanto sua dinâmica.
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Em modo estrutural, são os atos da consciência que definem, cada um a seu modo, minha relação com o mundo — perceptivo, rememorante, imaginante, empático, judicativo, linguageiro, voluntário, motor, emocional, social, histórico, habitual e espiritual —, regendo-se essa estratificação pela ordem de aparecimento desses diferentes atos vividos.
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Em modo dinâmico, está em jogo a própria gênese desses vividos, o modo singular como emergem minhas diferentes aptidões sensoriais, minhas lembranças imediatas e antecipações próximas, o modo como se formam certas imagens, como encontro o outro, como nascem meus juízos e se produzem minhas palavras, ou a forma sob a qual aparecem minhas capacidades motoras, meus afetos e atos deliberados, enfim o engendramento social, histórico, habitual e místico de meu ser-consciente.
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4. Tal caráter proteiforme da consciência procede da riqueza infinita das experiências que todo ser sensível, animal e a fortiori humano, é capaz de conhecer durante sua vida, razão pela qual a filosofia não detém a exclusividade de sua elucidação, tendo numerosas outras disciplinas — psicologia, psicanálise, fenomenologia, psiquiatria, ciências cognitivas, tradições espirituais diversas, teístas ou não — proposto abordagens originais, revelando-se a consciência, constituída e retomada em toda sua amplitude pelo aporte conjunto dessas démarches, tema complexo, quase determinado por tal hibridação interdisciplinar.
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5. Coloca-se assim a questão do possível estilhaçamento da noção, sendo sua unidade conceitual a do saber — scire (conscius, conscientia) em latim, wissen (
Bewußtsein,
Gewissen) na língua germânica —, remetendo, contudo, essa unidade a consideráveis desvios lexicais contemporâneos entre as línguas latinas e o alemão ou o inglês (consciousness e awareness), dispondo o francês de um único termo, conscience, para traduzir a pluralidade das palavras alemãs ou inglesas, indicando isso mutação possível de sua definição e considerável reelaboração de suas referências.
Da experiência à nomeação
O fato sem a palavra
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1. Os gregos, como atestam os trabalhos antropológico-históricos de J.-P. Vernant, mal sabiam nomear essa realidade complexa que, desde a época moderna, chamamos consciência, não havendo termo grego capaz de formular de modo unificado o que era, contudo, experimentado, de diversas formas, como diálogo de si consigo mesmo, legitimando-se assim projetar a palavra consciência sobre toda sorte de relação consigo, cognitiva ou moral, efetivamente apreendida pelos gregos em diferentes épocas.
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2. Nas epopeias homéricas, nas tragédias e nos diálogos socráticos, heróis e personagens conversam interiormente consigo mesmos em termos impregnados da fisiologia do coração e das entranhas, falando Menelau, na Ilíada, a seu coração magnânimo, seu thymos, interlocutor por excelência de si consigo em espécie de conselho interior antes de agir;
Platão formaliza tal entretenimento interno nos termos do diálogo interior e mudo da alma consigo mesma (Sofista, 263e), pelo qual se aprende a melhor se conhecer, como indica o
gnóthi seautón inscrito no templo de Apolo em Delfos;
Aristóteles e os estoicos, em acentos gnosiológico ou ético, começam a usar termos forjados sobre o prefixo sun- seguido de ação verbal, synaisthánesthai ou syneídesis, retrospectivamente traduzidos pelos latinos por conscientia.
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3. Trata-se, como explicita E. Balibar em La conscience (2001), de processo de retroversão do latim ao grego, buscando os estoicos latinos criar sua própria terminologia moral a partir do quadro traçado pela Escola grega anterior, tornando-se syneídesis, ou conscientia, corrente para designar o modo como o indivíduo, a sós consigo, avalia suas ações e méritos, segundo forma antecipada de exame de consciência em que se inaugura a figura da consciência moral (Cícero) e do testemunho quase jurídico que se presta a si mesmo (Quintiliano), frequentemente em termos de culpa e remorso, mas também de recapitulação via memória.
Quem inventou a “consciência”?
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1. Os historiadores da filosofia atribuem a
Descartes a paternidade da invenção da consciência, atribuindo este, ao definir o sujeito por sua atividade de pensar (Ego cogito, ergo sum; ou Ego sum, ego existo), à subjetividade o papel de fundamento de todas as ciências, questionando-se, contudo, se se pode identificar consciência e sujeito pensante, notando J.-M. Beyssade que a palavra francesa jamais figura em
Descartes, sendo o termo latino conscientia apenas um hapax situado nos Principia philosophiae (I, 9), consagrado à definição da cogitatio, defendendo Balibar (Locke, 1998) não ser a filosofia cartesiana tanto filosofia da consciência quanto filosofia da certeza verdadeira.
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2. Utilizado pela primeira vez em 1678 por Ralph Cudworth, líder dos platônicos de Cambridge, o neologismo consciousness é retomado por Locke em seu Ensaio sobre o entendimento humano (1694), definindo-o como o modo pelo qual um homem percebe o que se passa em seu próprio espírito (II.1.19), inaugurando-se aí propriamente a problemática da consciência como identidade e experiência de si no tempo.
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3. Poder-se-ia considerar, contudo, que esse acento posto por Balibar na invenção lockiana da consciência corresponde a opção bastante nominalista, bastando a presença definicional do termo para atestar a existência da questão, originando-se já em
Descartes, senão o léxico, ao menos problemática essencial da consciência na Idade Clássica, nem que seja em razão da tese segundo a qual a alma pensa sempre, o que lhe confere identidade que passa pela duração temporal.
A problemática conceitual
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1. Distinguem-se três grandes campos nocionais da consciência: acepção principalmente teórica e racionalista, sustentada pelo paradigma do conhecimento de si, definindo nosso ser-consciente; dimensão moral que acentua o sentimento interior e culmina na ideia de certeza moral, determinando nosso ter-consciência-de; e acento mais prático, que confere à consciência o estatuto de potencial de capacidades a educar, individuais e sociais, tornando possível uma tomada-de-consciência ou tornar-se-consciente.
Paradigma teórico do conhecimento de si
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1. Nosso ser-consciente caracteriza-se pela aptidão a identificar como nossos os acontecimentos de que é feita nossa vida, aprendendo assim a melhor nos conhecer, sendo a consciência de si, entendida como conhecimento de si, aquilo que torna possível o conhecimento dos objetos, e não o inverso, havendo, nesse contexto gnosiológico, precedência transcendental do sujeito sobre o objeto e busca correlativa de acesso a essa esfera de interioridade que nos define como sujeitos conscientes de nós mesmos.
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2. Além desse movimento espontâneo de interiorização que nos revela a nós mesmos como si, há movimento segundo, correlativo, de tipo reflexivo, que nos devolve o acesso a nós mesmos a posteriori, correspondendo o método reflexivo ao retorno sobre si que os psicólogos chamam introspecção, oferecendo a possibilidade de observar os próprios estados psíquicos, cognitivos ou emocionais.
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3.
Kant é o primeiro a colocar o problema do desdobramento representacional da consciência e o da regressão ao infinito do observador interior, denominando isso o paralogismo da psicologia racional, quando a consciência transcendental, ao refletir sua própria forma invariante através da diversidade dos conteúdos sensíveis, acaba por se confundir com estes e travestir-se em eu empírico psicológico, sendo o Selbstbewußtsein (autoconsciência) a instância crítica que estabelece os limites de tal confusão, erigindo-se como ato formal, condição de possibilidade de toda experiência.
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O eu penso apreende-se então em sua própria forma sob forma de auto-afecção, experiência pura do sentido interno, o tempo, determinando tal auto-afecção sensível do eu por si mesmo retorno, agora refletido, à empiricidade, livre de todo paralogismo psicológico.
Problemática moral
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1. É precisamente na distinção conceitual forjada por
Kant entre Bewußtsein (consciência teórica) e Gewissen (consciência moral) que se origina, na língua alemã, a partição dos dois primeiros campos nocionais da consciência, retomando
Kant de Wolff a colocação em evidência do
Selbstbewußtsein e de
Lutero a invenção do Gewissen, conferindo-lhes estatuto ao mesmo tempo crítico e transcendental.
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2.
Lutero, primeiro teórico do Gewissen em alemão, seria também o teórico da consciência moderna, caracterizada principalmente como o lugar dos afetos mais violentos em que o homem é, diante de Deus, aniquilado ou elevado, não sendo em nada autônoma a consciência, pois presa, em plena passividade, aos afetos, não buscando sua liberdade em si mesma, mas na interiorização de submissão à graça divina, rompendo assim com o intelectualismo medieval ao associar a consciência à fé e à certeza do coração.
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3. Representante do jansenismo, próximo do luteranismo,
Pascal ligará por sua vez consciência, fé e coração, alojando-se a fé, segundo a fórmula bem conhecida de que o coração tem razões que a razão desconhece, no mais íntimo de nós mesmos, no foro interior, não procedendo de nenhuma prova racional, testemunhando o mesmo Rousseau, ao acentuar o sentimento do divino, e
Kant, ao insistir na prova da existência de Deus que não constitui de modo algum prova demonstrativa.
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4. Na Crítica da razão prática,
Kant define a consciência moral como imperativo categórico simétrico à forma pura da apercepção teórica, sendo ambas formas puras do pensamento definidas pelo Bewußtsein, nome do sujeito transcendental, sendo o Gewissen assim a consciência (Bewußtsein) de uma livre submissão da vontade à lei, ou, na Metafísica dos costumes, a consciência de um tribunal interior no homem, podendo o sentimento moral puro afetar-se a si mesmo internamente, dando lugar ao Gewissen de tipo psicológico, traduzido por convicção, certeza moral subjetiva de tipo pragmático.
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5. A herança da doutrina luterana do Gewissen reencontra-se, na filosofia idealista alemã, em duplo aspecto: a interiorização da liberdade dá lugar ao motivo kantiano laicizado da autonomia, entendida como consciência assumida da necessidade; e a associação entre gewiß (certo, certeza) e Gewissen, imediata no Reformador, é elevada ao conceito por
Hegel, em sua Fenomenologia do espírito (VI, C, c), com a
Gewißheit, que se declina em série de figuras, da certeza sensível à certeza de si do espírito, constituindo a gênese do Bewußtsein, que só surge como conceito com a primeira negação da Gewißheit como percepção, sendo o Gewissen figura local mas privilegiada, aquela em que o Bewußtsein se sabe a si mesmo como puro sujeito moral, tendo por objeto apenas a si mesmo.
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6. No pensamento fenomenológico, a dimensão moral inerente ao Gewissen, de
Lutero a
Hegel, desaparece para dar lugar à sua caracterização ontológica, designando Gewissen, em Heidegger, em Sein und Zeit (§ 54 e seguintes), a voz da consciência, característica originária do
Dasein que se chama silenciosamente a si mesmo de mais longe do que ele próprio, não tendo tal apelo mais nenhuma relação com o Bewußtsein nem com a Gewißheit, correspondentes, segundo Heidegger, ao momento metafísico da subjetividade aberto por
Descartes e cumprido por
Hegel.
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7. Em La voix et le phénomène (1967),
Derrida seguirá tal via de desconstrução do sujeito constituído por certeza apodítica ao enunciar que nenhuma consciência é possível sem a voz, reconduzindo a consciência a suas vibrações sensoriais, aqui auditivas, tendo já, precursoramente, no século XIX, e mais próximo de
Merleau-Ponty do que de Heidegger,
Maine de Biran, no lado francês, feito da consciência de si o fato primitivo do sentido íntimo, nada mais sendo este que a apercepção vivida do próprio corpo, delineando-se assim, bem cedo, a irredutibilidade não-dual do corpo e da alma que a fenomenologia se dará por tarefa pensar nos termos da consciência intencional ou da consciência corporal.
Pragmática do tornar-se-consciente
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1. Da consciência moral à consciência encarnada, passa-se de problemática prática formal a fenomenologia ou mesmo pragmática material, no centro da qual se situa o debate contemporâneo em torno da relação entre consciousness e awareness, alimentado pelo avanço da filosofia analítica anglo-saxônica, dando esse debate lugar a duas rupturas em relação à formação continental da consciência: a dissociação entre consciência e reflexividade, antes indissociáveis; e a substituição do acento ontológico sobre o Sein de Bewußtsein, essencial de
Hegel a Heidegger, por práxis do tornar-se-consciente (
Bewußtwerden).
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2. Aware, segundo o Oxford English Dictionary, palavra inglesa antiga que significa estar desperto, estar em guarda, dar-se conta, sendo awareness registrado apenas a partir do século XIX, estando aqui em jogo o registro da atenção e de sua manutenção mais do que qualquer processo reflexivo, sendo awareness o único termo a escapar ao campo do saber como tal.
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3. Cudworth, em The True Intellectual System of the Universe (1678), considera que formas adormecidas ou obscuras de consciência, próprias do vivente, precedem a humanidade, sendo suas formas espirituais ou lúcidas ultrapassadas por ela;
Leibniz seguirá direção semelhante, sustentando que o espírito não pode conhecer-se por sua própria reflexão, optando pela presença a si contra o saber de si, retraduzindo o neologismo lockiano por consciosidade e usando o termo apercepção para descrever a claridade não distinta de uma percepção; Condillac, por sua vez, introduz a noção de atenção, consciência qualitativa diferencial que corresponde bem à qualidade atencional da awareness, correspondendo esta a consciência de base, mínima, gradual e aberta, presença a si não inconsciente, distinguindo-se da consciência mais mediata, reflexiva, que se sabe a si mesma, a consciousness.
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4. Ao traduzir awareness por Bewußtheit e consciousness por Bewußtsein, H. E. Ellenberger sublinha o alcance não apenas arreflexivo mas pouco ontológico de awareness, exigindo esta, como já afirmava
Marx criticamente ao dizer que a consciência jamais pode ser outra coisa senão o ser consciente, mais do que uma ontologia estática: uma práxis da tomada de consciência, desenhando a abertura pragmática contemporânea, em proximidade com as filosofias anteriores da ação (
Aristóteles,
Marx, Ricœur), os contornos de um tornar-se-consciente (becoming aware/Bewußtwerden) que, segundo N.
Depraz, F. Varela e P. Vermersch (2000-2001), pode ser objeto de aprendizagem à medida que se educa.
O inconsciente, o outro da consciência?
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1. Designando awareness consciência mínima em contato com sua própria proveniência, inclui-se em sua definição a lógica elementar de sua emergência a partir do que não é ela mas a constitui, a saber, o inconsciente lato sensu, sinalizando a dupla negação que caracteriza awareness, o não-in-consciente, relação notável com aquilo que a constitui originariamente, daí a insistência legítima sobre a dinâmica do tornar-se-consciente como traço essencial da awareness.
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2. Para captar o estatuto dessa consciência genética, precisa-se sua proveniência: o inconsciente, que só é o oposto da consciência ao definir-se esta em termos reflexivos ou ontológicos, tornando-se, assim que se a pensa como gênese, o terreno originário de seu enraizamento, seu outro íntimo, não seu inimigo.
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3. Forjada no início do século XIX pelos românticos, a palavra inconsciente (das
Unbewußte) encontra sua consagração teórica com a invenção da psicanálise por
Freud no início do século XX, podendo a noção parecer ter encontrado sua unidade, não fosse por outras disciplinas terem feito surgir facetas diferentes dessa experiência originária de opacidade, cedendo lugar ao inconsciente psíquico privilegiado por
Freud o inconsciente corporal colocado no centro pela fenomenologia, principalmente por
Merleau-Ponty, não sendo este caracterizado como núcleo irredutível de obscuridade inerente ao psiquismo do indivíduo, mas como existência de capacidades corporais de ação nele sedimentadas, formando zona pré-consciente de hábitos suscetíveis de advir à consciência.
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4. Essas duas formas de inconsciente, psíquico e corporal, pertencem ao registro do vivido, da experiência imanente do indivíduo, relevando de abordagem em primeira pessoa, distinguindo-se de terceira dimensão de inconsciente, colocada em primeiro plano pelas ciências cognitivas, a zona do subpessoal, o inconsciente neuronal, por princípio inacessível à experiência em primeira pessoa de um dado sujeito, correspondendo aos mecanismos de sincronização e antissincronia das dinâmicas neuronais.
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Malgrado sua oposição quanto à abordagem privilegiada (primeira pessoa vs. terceira pessoa), o inconsciente psíquico freudiano e o inconsciente neuronal subpessoal partilham a ideia de impossibilidade de acesso a essa zona cega situada além dos limites do experienciável, escapando psiquismo e cérebro à nossa apreensão e tornando-nos, enquanto sujeitos conscientes, frágeis e desprovidos, confrontados a forças incontroláveis.
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5. Ante essa constatação de inconsciente todo-poderoso que reduz o indivíduo consciente a assumir sua passividade, outras disciplinas e certas correntes contemporâneas buscaram restaurar linhas de continuidade entre a consciência e essa zona de sombra que a constitui originariamente, traçando, em quatro direções complementares, a fenomenologia genética husserliana, as neurociências afetivas, certas práticas terapêuticas contemporâneas e certo número de tradições espirituais revisitadas, os contornos de quadro renovado em que a consciência é retomada desde seu embasamento e sua dinâmica pré-noética.
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A démarche fenomenológica genética, hoje em evidente renovação, interroga a consciência a partir da lógica de sua gênese hilética, afetiva e habitual; as neurociências atuais tendem a incluir o estudo das emoções e afetos no próprio paradigma cognitivo, até vê-los como componente originária da consciência neuronal; as práticas terapêuticas presentes, diversificando-se, são levadas a revisitar o inconsciente freudiano abrindo mais espaço à possibilidade de um tornar-se-consciente das zonas mais opacas de nosso psiquismo; e as diversas formas de vida espiritual, exercidas em sua prática cotidiana, revelam-se fermentos decisivos de despertar da consciência, evidenciando-se que o inconsciente, mesmo não unificável, forma componente essencial de nossa consciência.