noutro volume, Intencionalidade e linguagem nas Investigações lógicas de
Husserl, dedicou-se um comentário detalhado à obra em que se forma e se impõe o conceito fenomenológico de intencionalidade, a saber a primeira edição das Investigações lógicas (1900-1901), interrogada ainda sob o ângulo do alcance da referência a “objetos inexistentes” e da extensão exata da teoria fenomenológica da referência, permitindo essa démarche recolocar
Husserl no campo de soluções existentes para um problema e melhor avaliar a singularidade de seu pensamento
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sua posição carrega a marca de tensões ligadas, de um lado, ao que se poderia chamar a emancipação do conceito de intencionalidade, enfim liberto de seu ambiente mentalista inicial e elevado ao nível de um verdadeiro uso semântico que dele então se faz, e, de outro, ao realismo ontológico fundamental das Investigações lógicas, que entra até certo ponto em contradição com essa liberdade
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essa tensão, se pode dar à solução professada por
Husserl nas Investigações para o problema de interesse algo de intermediário, por assim dizer entre Bolzano e Meinong, e de decepcionante, é também, ao que parece, o que faz o interesse da fenomenologia das Investigações, em tudo o que ela permite ver em suas próprias tendências contraditórias
num último momento, em conclusão desse segundo volume, tal percurso conduziu a uma breve reflexão sobre o interesse e as potencialidades respectivas dos pontos de vista intencionalista e não intencionalista
cabe sublinhar a dívida, além da reabertura na fenomenologia de tipo continental, nos anos oitenta, da questão da intencionalidade, ou ao menos dos modos de doação, por Jean-Luc
Marion, para com Jean-François
Courtine e a reflexão por ele empreendida nos últimos anos sobre a riqueza, e a renovação em relação à metafísica tradicional, do sentido fenomenológico do objeto
de outro lado, como os trabalhos precedentes, que aqui encontram seu prolongamento, o presente estudo só foi possível pelo exemplo de Jacques Bouveresse, que deu a prova de que havia lugar na França para tal tipo de pesquisa, votada à filosofia do século XX em sua diversidade, tendo uma sessão de seu curso no Collège de France em 1998, consagrado à filosofia austríaca, sobre os objetos intencionais, contado bastante para a decisão de avançar nessas questões
cabe ainda sublinhar tudo o que se deve ao trabalho de Frédéric Nef, que colocou os mesmos problemas de um ponto de vista diferente, a título da edificação de uma ontologia formal, tendo-se procurado separar o que ele buscava aproximar, mas, por isso mesmo, encontrando-se os dois projetos em certo nível e podendo, em seu conteúdo, trocar mais de uma coisa
o trabalho de Robin D. Rollinger foi também decisivo, tendo ele desdobrado pela primeira vez toda uma parte, o lado brentaniano, do campo aqui construído, de modo mais detalhado e preciso historicamente, havendo frequente acordo factual com ele — por exemplo sobre o fato de a posição ontológica do primeiro
Husserl ser muito mais moderada e convencional que a de Meinong no tabuleiro do brentanismo — tendo-se apenas permitido alargar o espectro a fim de colocar em perspectiva alguns pressupostos, principalmente o da intencionalidade, constituindo seu livro, ainda que de natureza diferente, fonte preciosa
por fim, cabe precisar que este projeto jamais teria tomado corpo e se desenvolvido como o fez sem a estimulação decisiva constituída pelas pesquisas sobre a intencionalidade e a crítica do uso fenomenológico da noção de intencionalidade conduzidas nos últimos anos por Vincent
Descombes, querendo esta empreitada, por certos aspectos, ser uma resposta a ele, não no sentido de uma refutação, mas de uma investigação complementar, de natureza histórica, e de uma livre meditação, de natureza temática, que mede depois dele, e de outro modo que ele, as possibilidades e impossibilidades do conceito de intencionalidade, apropriando-se até certo ponto das críticas que dele fez, mas abrindo talvez também o conceito, e sua crítica, a outras possibilidades
agradecimentos são dirigidos a todos os que impulsionaram esse caminho, refletiram junto e ajudaram a refletir, a Sandra em primeiro lugar, e a todos os demais não nomeados por receio de outros esquecimentos