Filosofia da mente, ciências cognitivas e a escolha de uma perspectiva fenomenológica
O livro parte do problema da mente, entendida como objeto de debates complexos e interdisciplinares que atravessam psicologia, neurociência, inteligência artificial, filosofia da mente e, de modo geral, as ciências cognitivas.
A interdisciplinaridade não é acidental, mas necessária, pois nenhuma disciplina isolada consegue fazer justiça à complexidade dos fenômenos mentais.
Embora trate de problemas clássicos da filosofia da mente, a obra rejeita um filosofar isolado das ciências empíricas e recorre sistematicamente a dados das neurociências cognitivas, do brain imaging, da psicologia do desenvolvimento, da psicologia cognitiva e da psicopatologia.
Ainda assim, o projeto permanece filosófico, na medida em que visa esclarecer problemas conceituais fundamentais, e não simplesmente relatar resultados empíricos.
O diferencial da obra consiste em assumir explicitamente uma perspectiva fenomenológica, entendida como uma tradição filosófica europeia que inclui
Husserl, Heidegger,
Merleau-Ponty,
Sartre e autores posteriores.
Não se pretende oferecer uma história exaustiva da fenomenologia nem uma exegese textual detalhada, mas selecionar temas considerados centrais para os debates contemporâneos em filosofia da mente e ciências cognitivas.
Reconstrução hipersimplificada do desenvolvimento histórico recente
No final do século XIX, filosofia e psicologia mantinham diálogos intensos sobre consciência, intencionalidade e método, envolvendo figuras como William James, Edmund Husserl, Franz
Brentano, Wilhelm Wundt e Gustav Fechner.
Esses autores influenciaram-se mutuamente por meio de leituras, correspondência e debates, compartilhando problemas e interlocutores comuns.
Husserl dialogou com Frege na crítica ao psicologismo, isto é, à tese de que as leis da lógica seriam redutíveis às leis psicológicas, interesse que também marcou Russell.
Ao longo do século XX, contudo, esses caminhos se separaram progressivamente:
James voltou-se ao pragmatismo.
Frege e Russell fundaram a tradição da filosofia analítica.
Husserl desenvolveu a fenomenologia como investigação rigorosa da consciência e da experiência.
A partir da metade do século XX, instalou-se uma quase completa falta de comunicação entre filosofia analítica da mente e fenomenologia, frequentemente marcada por indiferença ou hostilidade recíproca.
Críticas mútuas extremadas exemplificam esse afastamento, como a acusação de que a fenomenologia teria se arrogado o monopólio da filosofia ou, inversamente, de que ela seria um programa de pesquisa intelectualmente falido.
Apesar disso, há interesses comuns, e o livro se propõe a mostrar tanto diferenças estruturais quanto convergências substantivas entre essas tradições.
Psicologia, comportamentismo e a narrativa tradicional distorcida
A narrativa clássica apresenta a psicologia inicial como introspeccionista, seguida por uma virada comportamentista e, posteriormente, pela revolução cognitiva.
Segundo essa narrativa, o comportamentismo teria rejeitado a vida mental interior em favor do comportamento observável, sendo depois substituído pelo cognitivismo computacional.
Essa reconstrução é considerada excessivamente simplificadora e historicamente enviesada.
Evidências históricas mostram que:
Métodos objetivistas já estavam presentes nos primeiros laboratórios psicológicos.
A introspecção sempre foi vista com desconfiança, inclusive por Wundt.
Conceitos computacionais da mente têm raízes muito anteriores ao século XX.
A consciência jamais deixou de ser tema filosófico central desde Locke e, antes dele, desde a filosofia antiga.
O cognitivismo, longe de romper radicalmente com o comportamentismo, preservou traços mecanicistas fundamentais.
A fenomenologia foi frequentemente identificada, de modo equivocado, com introspeccionismo, o que contribuiu para sua marginalização na filosofia analítica da mente.
Naturalismo, ciência e a marginalização da fenomenologia
A filosofia analítica da mente dominante adotou amplamente o naturalismo, enquanto a fenomenologia foi associada a uma postura não naturalista ou antinaturalista.
Como as ciências cognitivas emergiram sob forte influência do computacionalismo e do naturalismo, a filosofia analítica pareceu oferecer o arcabouço conceitual mais adequado.
O funcionalismo, por exemplo, forneceu bases filosóficas centrais ao modelo computacional da mente.
Nesse contexto, a fenomenologia foi considerada irrelevante para a inteligência artificial e para as ciências cognitivas, com raras exceções, como o trabalho de Hubert
Dreyfus.
Mudanças recentes e reabertura do diálogo
Três desenvolvimentos principais reabilitaram a relevância da fenomenologia:
O renovado interesse pela consciência fenomenal, especialmente a partir do debate sobre o problema difícil da consciência.
A ascensão das abordagens da cognição incorporada, que criticam a ideia de uma mente puramente computacional e desincarnada.
Os avanços das neurociências e das técnicas de brain imaging, que exigem descrições refinadas da experiência subjetiva para o desenho e a interpretação de experimentos.
Autores como Varela, Thompson, Rosch, Damasio e Clark recorreram explicitamente a Merleau-Ponty para fundamentar críticas ao dualismo mente-corpo e ao computacionalismo clássico.
A fenomenologia passa a ser vista como fonte metodológica para a descrição rigorosa da experiência, sem recaída no introspeccionismo ingênuo.
O que é a fenomenologia enquanto abordagem filosófica
A fenomenologia nasce com Husserl e se desenvolve como um conjunto plural de abordagens, incluindo existencialismo e hermenêutica, bem como críticas internas e externas.
Apesar da diversidade, há um núcleo comum que orienta a investigação fenomenológica.
Diferentemente dos manuais tradicionais de filosofia da mente, a fenomenologia não começa por assumir posições metafísicas como dualismo ou materialismo.
Ela suspende, coloca entre parênteses, tais compromissos teóricos, a fim de voltar-se ao fenômeno tal como é vivido.
O lema “às próprias coisas” expressa a exigência de descrever a experiência tal como se dá, antes de filtrá-la por pressupostos teóricos estranhos.
A suspensão das questões metafísicas e o primado da experiência
A fenomenologia não nega nem afirma teses como “o cérebro causa a consciência”, mas suspende o juízo sobre elas.
O ponto de partida é a experiência vivida, não sua explicação causal.
No caso da percepção, o fenomenólogo não investiga processos neurais, mas descreve como a percepção aparece ao sujeito e como ela se diferencia de imaginação ou memória.
Processos cerebrais podem ser condições causais da percepção, mas não fazem parte do conteúdo experiencial do percipiente.
Primeira pessoa e terceira pessoa
A fenomenologia adota uma perspectiva de primeira pessoa, interessada no significado da experiência para o sujeito.
As ciências cognitivas adotam predominantemente uma perspectiva de terceira pessoa, explicando a experiência por meio de processos subpessoais objetivos.
Ambas tratam do mesmo fenômeno, mas fazem perguntas distintas e produzem explicações de naturezas diferentes.
Estrutura intencional da experiência
Toda consciência é intencional, isto é, é sempre consciência de algo.
A experiência nunca é isolada ou elementar, mas sempre refere-se a um mundo, entendido em sentido amplo, físico, social e cultural.
A percepção não é mera recepção passiva de dados, mas envolve interpretação e sentido.
Ver algo como algo, por exemplo, um carro como meu carro, já implica um horizonte de significados sedimentados por experiências anteriores.
Contextualidade, corporeidade e sentido prático
A percepção é informada por hábitos, práticas e capacidades corporais.
O conteúdo perceptivo depende do contexto pragmático, social e cultural em que o sujeito está inserido.
Em vez de dizer que a mente representa propriedades abstratas, a fenomenologia enfatiza que o mundo se oferece como dotado de possibilidades de ação em relação a um corpo situado.
Espacialidade, temporalidade e incompletude prospetiva
A percepção é perspectivada: nunca vemos um objeto em sua totalidade de uma só vez.
Cada percepção envolve ocultamento de aspectos e antecipação de outros, formando expectativas tácitas.
Essa estrutura implica uma dimensão temporal essencial, descrita fenomenologicamente como síntese do passado, presente e futuro imediato.
Estrutura gestáltica da percepção
A experiência perceptiva organiza-se em figura e fundo, foco e horizonte.
O deslocamento da atenção implica sempre reorganização do campo perceptivo.
Fenomenicidade e “como é” da experiência
Além da estrutura intencional, a fenomenologia investiga o caráter qualitativo da experiência, o “como é” vivenciar algo.
Esse aspecto fenomenal não é separado da intencionalidade, mas articulado a ela.
Fenomenologia e ciência: complementaridade
A descrição fenomenológica não substitui explicações científicas, mas fornece um modelo claro do que deve ser explicado.
Qualquer tentativa de naturalizar ou reduzir a consciência requer uma compreensão prévia adequada do fenômeno a ser reduzido.
Uma análise fenomenológica rigorosa oferece ao cientista um ponto de partida mais sólido do que pressupostos de senso comum.
Crítica ao uso impreciso do termo “fenomenologia”
Em debates contemporâneos, o termo é frequentemente usado como sinônimo de introspecção ou descrição subjetiva não controlada.
Essa identificação é enganosa, pois ignora o caráter metodológico rigoroso da fenomenologia.
Fenomenologia, teoria e ciência cognitiva
A fenomenologia não rejeita teoria, mas busca evitar dogmatismo e preconceitos teóricos.
As descrições fenomenológicas podem fundamentar teorias da percepção, da intencionalidade e da fenomenicidade.
A tese central do livro é que essas teorias podem contribuir de modo mais fecundo às ciências cognitivas do que debates metafísicos abstratos, como o problema mente-corpo em sua formulação tradicional.