8 GA71

VALLEGA-NEU, Daniela. Heidegger’s poietic writings: from contributions to philosophy to the event. Bloomington (Ind.): Indiana university press, 2018.

O Acontecimento apropriador (GA71)

Composição e Conteúdo de O Acontecimento apropriador

1. Em Contribuições à Filosofia (GA65), Heidegger escreve que essa obra “ainda não é capaz de unir-se à livre conjuntura da verdade do seer a partir do próprio seer”, contendo apenas uma tentativa de pensar “do” acontecimento apropriador, sugerindo o título de GA71, O Acontecimento apropriador, que Heidegger acreditava ter finalmente escrito uma obra que constituía algo como uma “conjuntura da verdade do seer”, capaz de trazer o acontecimento apropriador à linguagem e deixar o dizer do seer acontecer plenamente nas palavras do pensador.

2. Que Heidegger entenda O Acontecimento apropriador como sendo claramente uma tentativa “melhor” ou mais inceptiva de dizer o acontecimento apropriador torna-se evidente ao criticar Contribuições à Filosofia no último prefácio.

3. A diferença entre Contribuições e O Acontecimento apropriador manifesta-se também na composição das respectivas obras, tendo caráter parcialmente sequencial as junções que organizam Contribuições, preparando a ressonância e o interjogo para o salto à verdade do seer, relacionando-se isso à diferenciação entre pergunta diretriz e pergunta fundante e a certa ênfase no pensamento.

4. Neste capítulo, seguir-se-á novamente, em certa medida, a ordem das partes de O Acontecimento apropriador (aplicando-se isso a cerca de metade do volume), ao traçar algumas palavras e disposições básicas nesse volume, tornando-se, em muitos lugares, a linguagem com que Heidegger pensa impossível de traduzir adequadamente e muito difícil de acompanhar.

O Primeiro Início

5. Como indica o editor de O Acontecimento apropriador em seu posfácio, Heidegger usou a primeira parte de O Acontecimento apropriador para a preleção do semestre de inverno de 1942–1943, havendo de fato muitas seções que se leem como notas, requerendo uma interpretação minuciosa dessas passagens olhar para suas preleções sobre Parmênides e Heráclito.

6. Em várias seções, Heidegger parece lembrar-se de como deveria proceder na exposição do primeiro início: “o primeiro início é rememorado ao pensar adiante para o outro início”, sendo a tarefa “mostrar que o primeiro início está fora da metafísica, mas ao mesmo tempo se torna aquilo que deixa a metafísica surgir”.

7. O que Heidegger faz em O Acontecimento apropriador não é a exposição de que fala (a exposição claramente visava as preleções que preparou ou ministrou), encontrando-se, contudo, várias seções dedicadas a Anaximandro, que, segundo Heidegger, “pensa mais inceptivamente do que Heráclito e Parmênides”.

Anaximandro

8. O fragmento de Anaximandro diz, na tradução de Diels: “de onde as coisas têm seu vir-a-ser, ali também devem perecer segundo a necessidade; pois pagam penalidade e devem ser julgadas por sua injustiça segundo a ordem do Tempo.”

9. No pensamento de Anaximandro, então, não ocorre a primazia dos entes presentes (isso seria metafísico), mas uma ênfase na ocorrência de ἀλήθεια do surgir e do perecer.

Heráclito

10. Heidegger diz menos sobre Heráclito, mas refere-se ao famoso fragmento DK B123, “a φύσις gosta de se ocultar” (ἡ φύσις κρύπτεσθαι φιλεἴ), no qual se pode facilmente ouvir, com “ouvido heideggeriano”, um sentido de ocultação e assim da λήθε da ἀλήθεια.

11. Em O Acontecimento apropriador, Heidegger também nota como o λόγος (devendo referir-se ao λόγος de Heráclito) é uma reunião originária no sentido de “permanecer-consigo-mesmo — ocultação como desvelamento”, tornando-se o λόγος “pré-metafísico” de Heráclito o tema primário da preleção heideggeriana do semestre de verão de 1944, na qual discute os fragmentos DK B50, B45 e 112, interpretando o λέγειν como uma reunião determinada pela ἀλήθεια, pelo que é desvelado e seu desvelar.

Parmênides

12. Heidegger começa a primeira seção da primeira parte de O Acontecimento apropriador com referência implícita a Parmênides: “a ἀλήθεια ocorre essencialmente como o início. Verdade-ser Wahr-heit]. A verdade é 'a deusa', Θέα. Sua casa é bem arredondada, não fechada, jamais (tremendo) coração dissimulador, mas antes desveladora iluminação de tudo. A ἀλήθεια é, no primeiro início, o oculto — verdade-ser: a preservação ocultante do clareado-aberto, a doação do erguer-se, a permissão da presença. A verdade é a essência do ser.”

13. Heidegger tem várias seções (notas) sobre a noção de δόξα em Parmênides, sendo o caminho da δόξα um terceiro caminho ao lado do caminho inacessível do não-ser e do caminho do ser, significando δόξα, segundo Heidegger, não simplesmente aparência e opinião (como em Platão), mas aparecer/brilhar (Erscheinen): “δόξα — clarão, brilho, radiância. Emergindo de si mesma e, no entanto, permanecendo consigo — irradiando-se continuamente de si mesma e, no entanto, nada entregue ou perdido. Reluzir — brilhar não apenas afastando-se de si mesma e um emergir, mas também acenando de volta para algo escuro, oculto, inacessível. Brilhar — a radiância do autoocultar-se.”

14. Já na preleção do semestre de verão de 1932, Heidegger lê a δόξα em Parmênides como mais originária e mais próxima da verdade, destacando o duplo significado de δόξα “como o caráter daquilo que aparece [em] si mesmo, um aspecto que se oferece” e “como o caráter do comportamento diante do que aparece”.

Torção-para-fora (Entwindung) e Partida (Fortgang)

15. A leitura heideggeriana do início pré-metafísico é possibilitada pela Verwindung, a torção livre da metafísica e o descenso ao início, razão pela qual usa a formulação incomum “Erinnerung in den ersten Anfang”, rememorar “para dentro” do primeiro início.

16. A torção-para-fora surgente “não é um arrancar, porque a essência do fundamento (o acontecimento apropriador) permanece de fato aquilo que dispõe”, ocorrendo a partida uma vez que a ἰδέα toma precedência sobre a ἀλήθεια, requerendo isso τέχνη, uma apreensão do que se torna presente no aspecto (δόξα), de tal modo que o que é presente é mantido fixo e mesmo colocado adiante e produzido (ποίησις).

17. Na primeira parte de O Acontecimento apropriador, Heidegger pensa e fala da torção-para-fora inceptiva também de modos muito mais difíceis de acompanhar, podendo ler-se a subparte E, “A Caminho do Primeiro Início”, como uma tentativa heideggeriana de articular a “torção-para-fora” de modo mais radicalmente disposto ao acontecimento apropriador como início.

A Ressonância (Anklang) e o Passar-ao-Largo (Vorbeigang)

18. “A Ressonância” é o título da segunda parte de O Acontecimento apropriador, destacando Heidegger, em Contribuições, como, no reconhecimento da aflição compelente do esquecimento do seer, a ocorrência essencial do seer ressoa, ressoando o seer como recusa, sendo as disposições diretrizes da ressonância o choque e o pudor, tendo a ressonância função preparatória para o “salto” à verdade do seer em Contribuições.

19. Em O Acontecimento apropriador, “a ressonância” é, semelhantemente a Contribuições, uma indicação “primeira” da verdade do seer e da transição ao outro início, mas, em O Acontecimento apropriador, a ressonância não é “apenas” preparatória para um salto (abandonando, de fato, Heidegger a noção de salto), carregando também disposição ou ânimo diferente, indicando a ressonância a transição ao outro início como “um modo de início” “contra a partida do primeiro início para a metafísica”.

20. “Deixar ir não é nada negativo”, acrescenta Heidegger, sendo o deixar ir do seer em direção à vontade de vontade precisamente o que permite ao seer se abrir em sua ocorrência mais inceptiva, isto é, permite a torção livre para dentro do início.

21. Heidegger aborda o passar-ao-largo do abandono dos entes pelo seer e a torção livre para dentro do início como “constelação”, evocando o sentido de estrelas passando umas pelas outras, falando da “Kon-stellação” de “Unstern” (não-estrela) e “Vorstern” (pré-estrela) e “Irrstern” (estrela errante).

22. A metafísica agora aparece como um Zwischenfall, que literalmente significa “um cair-entremeio”, traduzido por Rojcewicz como “episódio” (não devendo esquecer-se que, para Heidegger, esse “episódio” ainda é um acontecimento apropriador necessário na história ocidental do ser).

Diferenciação, Diferença e o Sem-Ser

23. Na seção 181, Heidegger tenta pensar toda a articulação ou dispensação (Fügung) começando com o “passar-ao-largo”, correspondendo a “sequência” em que aqui pensa, em certa medida, à sequência das partes II–IV de O Acontecimento apropriador, seguindo-se à parte II, “A Ressonância” (em que Heidegger tematiza o “passar-ao-largo”), a parte III, “A Diferenciação”, e a parte IV, “Torção Livre”.

24. No capítulo 6, expôs-se em certa medida como Heidegger pensa a diferenciação (de ser e entes) em relação a “a diferença” que ocorre como partida ao abismo em Sobre o Início.

25. Agora, em Sobre o Início e O Acontecimento apropriador, Heidegger articula a recusa e o acontecer de modo mais diferenciado, ao encontrar uma retenção (Vorenthalt) mais originária do que a retirada do seer que conduz ao abandono dos entes na metafísica, e de algum modo “mais antiga” do que a apropriação dos entes no ser.

26. Na des-apropriação inceptiva, o início (um vir-a-ser, uma torção-para-fora) ainda não aconteceu, podendo pensar-se tal des-apropriação agora “na realização da diferença em partida”: “a diferença diferencia o ser e o sem-ser.”

27. Lembre-se que o sem-ser não é o nada pertencente ao ser ou ao seer, pertencendo o nada ao seer na medida em que o seer ocorre como retirada ou como presenciar, ressoando, no vir-a-ser ou retirar-se, o ainda-não e o já-não, uma falta ou ocultação abissal; o seer sempre implica isso (podendo aproximar-se isso pensando em como se experiencia a morte ou a partida ou um futuro inimaginável).

28. Refletiu-se, no capítulo 6, sobre a dificuldade de pensar o sem-ser e a diferença (na qual o seer se diferencia do sem-ser). Em O Acontecimento apropriador, Heidegger aponta que a diferença (entre seer e o sem-ser) é acessada através da diferenciação entre ser e entes (embora a diferença seja mais “inceptiva” do que a diferenciação):

Torção Livre para Dentro da Grinalda da Reviravolta (der Kranz der Kehre)/Juntar-se à Junção

29. No capítulo 6, viu-se como Heidegger diferencia a torção-para-fora (Entwindung) no primeiro início da torção livre (Verwindung) no outro início, de tal modo que a inceptividade única carrega em si os diferentes acontecimentos (surgir e partida).

30. Na seção 181, Heidegger pensa a relação entre diferentes formas de “torcer” (winden) e “revirar” (kehren) seguindo a superação (Überwindung) da metafísica, sendo os detalhes dos movimentos de que fala aqui difíceis de acompanhar, mas as palavras que destaca mostram conexões que dão ao menos alguma indicação de como pensa aqui.

31. Na torção livre, a metafísica (a prevalência dos entes a partir da diferenciação entre ser e entes) é superada de tal modo que o seer retorna (zurückkehrt) à sua “junção” (Fug), fazendo a constância de que Heidegger fala aqui perguntar novamente pela temporalidade do circular no acontecimento apropriador, sendo isso reminiscente da “permanência” de que fala em Sobre o Início, que não tem sentido de duração.

32. Heidegger elabora esse conjuntar com cognatos da mesma palavra, que só podem ser aproximados em português: “Conjuntar: é ajustar como acontecimento apropriador da conjuntura do tempo-espaço do abismo, é conformar-se na junção do início. O conformar-se ajustante ocorre essencialmente na junção.”

Ereignis e Seus Cognatos

33. Após a torção livre para dentro da grinalda da reviravolta do acontecimento apropriador (parte IV), Heidegger prossegue com a parte V, intitulada “O Acontecimento apropriador: O Tesouro-Palavra de Sua Essência”, acrescentando: “para a introdução em 'O Acontecimento apropriador'”.

34. Destacam-se apenas alguns pontos centrais para cada palavra que Heidegger explicita:

35. Heidegger desenvolve então mais a essência dos entes em termos de Geeignetheit.

36. Heidegger encerra sua lista de cognatos de Ereignis com Eigentum, termo que reúne todas as determinações essenciais (cognatas) do acontecimento apropriador.

37. A sinopse dos diferentes momentos e movimentos do acontecimento apropriador aqui apresentada, que Heidegger reúne na seção 184 (parte V) de O Acontecimento apropriador, só pode, claro, servir de indicação de como Heidegger, em certo momento de seus escritos poiéticos, tenta reunir tudo o que constitui o acontecimento apropriador.

38. Chama-se atenção, ao final desta sinopse da seção 184, para como “o âmbito do próprio” ao acontecimento apropriador inclui apropriação e o que é apropriado, isto é, inclui Da-sein (agora escrito Da-seyn), humanos, deuses e entes.

39. A segunda metade de O Acontecimento apropriador preocupa-se mais com questões de disposição, Da-seyn, ser humano e linguagem, voltando-se a esses temas já abordados em certa medida no capítulo 6 sobre Sobre o Início, onde Heidegger já introduz ênfase diferente sobre o papel ou lugar do humano no acontecimento apropriador, ao pensar a partir do acontecimento apropriador de início e para dentro dele.

Da-seyn e o Ser Humano

40. Em O Acontecimento apropriador, Heidegger começa a escrever também Da-seyn com “y”, não o fazendo consistentemente (às vezes escrevendo Da-sein quando poderia muito bem ter escrito Da-seyn), mas, quando usa o “y”, ênfase especial é colocada em como o Da-seyn pertence à ocorrência essencial do acontecimento apropriador como início.

41. “Todo seer é Da-seyn”, diz Heidegger na seção 217, o que significa: “o seer, em sua dispensação para dentro da junção, ainda dá a conhecer essa essência inceptiva, a saber, que o seer ocorre essencialmente como a verdade do seer.”

42. Quando, apropriados no acontecimento apropriador, os humanos experienciam o acontecimento apropriador, encontram-se consignados a preservar (verwahren) o acontecimento apropriador, tendo Verwahren a palavra “wahr” (verdadeiro), gostando Heidegger, agora (em O Acontecimento apropriador), de usar também o substantivo antiquado die Wahr (às vezes junto à palavra antiquada “die Hut”, que carrega sentido de preservar e cuidar) ao elucidar o que constitui esse preservar.

A Experiência: A Dor da Partida — Realizar a Diferença

43. Ao pensar no papel dos humanos no acontecimento apropriador (agora pensado como a inceptividade do início), Heidegger parece ter em mente sobretudo o papel do pensamento ou, mais precisamente, como (seu) pensamento experiencia o início, como se encontra disposto pelo seer no que chama “a dor da partida” (der Schmerz des Abschieds) ao realizar a diferença (der Austrag des Unterschieds).

44. Lembre-se que a diferença nomeia o acontecimento apropriador de diferenciação do seer em relação ao sem-ser (a des-apropriação originária), a partir do qual os entes se erguem ao ser (torção-para-fora); mas também nomeia (e, no outro início, sobretudo) a partida, o deixar ir a primazia dos entes no descenso ao abismo (torção livre).

45. Dor e a realização da diferença estão ligadas também à morte, na medida em que a morte espelha a des-apropriação originária como a qual o acontecimento apropriador ocorre, falando Heidegger da morte, na seção 202, como “o abismo semelhante-à-partida com respeito ao início”, sendo a partida o movimento que deixa os entes para trás, precisamente o que ocorre ao enfrentarmos a morte.

Pensamento Inceptivo (Seguir, Atenção, Questionar, Agradecer, Conhecer)

46. Heidegger caracteriza o pensamento inceptivo não apenas como experienciar em termos de realizar a dor da partida, falando frequentemente do pensamento em termos de Folgsamkeit, que contém a palavra folgen, seguir, e geralmente significa obediência.

47. A ênfase está na receptividade, e não numa busca “ativa” ou “volitiva”; o pensamento é antes um agradecer do que um questionar, tendo, em Contribuições, Heidegger frequentemente falado dos vindouros como “buscadores” (Sucher), colocando ênfase no questionamento no contexto da dignidade-de-questionamento (Fragwürdigkeit) do seer.

48. O pensamento inceptivo não é um questionamento (em sentido estrito), mas um agradecer (Danken): “a constância da recepção é agradecer.”

49. Heidegger não quer que esse agradecer seja confundido com algum tipo de submissão, acrescentando: “o agradecer é o alto ânimo [das Hochgemute] da grande coragem [des hohen Mutes] que reconhece o risco no caráter distintivo da realização.”

50. Acrescentam-se essas observações sobre coragem ao que Heidegger diz sobre o pensamento como seguir e agradecer, a fim de contrabalançar um sentido de piedade religiosa acrítica que se poderia obter nesse contexto, significando também que a coragem é exigida que o “pensamento agradecido” não é simplesmente “passivo”.

Palavra, Reivindicação (Anspruch), Dizer (Sage) e Linguagem

51. O pensamento inceptivo ocorre como um dizer através de palavras, sendo, em última instância, na palavra pensante que o pensamento realiza a torção livre do seer, meditando Heidegger, em O Acontecimento apropriador, mais do que em volumes anteriores, sobre as noções de dizer e “a palavra”.

A Palavra

52. “O acontecimento apropriador é a palavra inceptiva, porque sua atribuição [Zueignung] (como a arrogação única [An-eignung] do ser humano na verdade do seer) dispõe [stimmt] a essência humana para a verdade do seer. Na medida em que o acontecimento apropriador apropriador é em si mesmo esse dispor, e uma vez que a disposição acontece como um acontecimento apropriador, o início que ocorre como acontecimento apropriador (isto é, o seer como abissal em sua verdade) é a voz inceptivamente disponente [stimmende Stimme]: a palavra. A essência da palavra reside no início que ocorre como acontecimento apropriador.”

53. Heidegger deixa claro que a palavra do seer também não deve ser entendida como um significado que ainda precisa encontrar uma palavra proferida, sendo tanto os sons-de-palavra quanto os significados-de-palavra derivados da palavra silenciosa do seer.

A Reivindicação

54. Heidegger fala do acontecimento apropriador da palavra inceptiva também como Anspruch (reivindicação) e como Sage, dizendo não apenas que a palavra inceptiva (do seer) disponente ou atonalizante (stimmend) determina (bestimmt), mas também que reivindica (beansprucht) o ser humano: “ainda somos incapazes de apreender que essa reivindicação [Anspruch] do início é um endereçar [Ansprechen] e um reivindicar [ein in den Anspruch nehmen] que acontece naquilo que é sem-fala.”

O Dizer

55. Assim como a palavra e a reivindicação, o “dizer” do início pertence inceptivamente ao início e ocorre em silêncio: “o dizer é ele mesmo a inceptividade do início. O dizer traz o início disposicionalmente à palavra (não vocábulos) e também silencia o início… o dizer 'do' início apropria rememorativamente [er-eignet erinnernd] a palavra pensante e concede (outorga) e recusa fala. Esta última é sempre a reiluminação do brilho estrelado do início.”

56. Em Contribuições, Heidegger pensa “dizer” como o dizer do pensador, sendo esse dizer certamente apropriado no acontecimento apropriador, mas ainda assim é o dizer apropriado e responsivo do pensamento, e não o Dizer concedente e recusante da voz silenciosa do seer.

57. Ao final da seção 336, Heidegger reúne as noções de dizer, palavra, reivindicação e fala (linguagem) do seguinte modo: “o dizer, ao dizer o início, coloca o início em sua história. O dizer como dizer (conceder, anunciar, proibir, recusar [zu-sagend, ansagend, unter-sagend, versagend]) toma a palavra na reivindicação [Anspruch] e consigna algo essencial na proclamação [Spruch] e assim na linguagem que, como a fala do pensamento, se mantém na clareira do seer, sem imediatamente conhecer nem esta nem aquela como tal.”

Pensamento e Poetizar

58. A maior parte da última seção (XI) de O Acontecimento apropriador dedica-se à relação entre pensamento e poetizar, sendo não apenas a relação com a poesia essencial ao pensamento seer-histórico, mas o encontro mais especificamente com a poesia de Hölderlin permite a Heidegger delimitar ainda mais o que é próprio ao pensamento seer-histórico.


No Limiar da Linguagem

Um Engajamento Crítico com O Acontecimento apropriador, de Heidegger (GA 71)

1. Lembra-se vividamente do dia em que se recebeu Das Ereignis pelo correio, surpreendendo-se ao ler imediatamente o livro (algo que não ocorrera nem com Besinnung nem com os demais volumes seguintes a Contribuições), não se sabendo então que se aguardava especialmente a publicação desse volume, lendo-se com perplexidade crescente frases incompreensíveis, sentindo-se estranhamento pelo texto e, assim, também atração.

2. Passados cerca de seis anos, encontraram-se muitas “estruturas” de pensamento, movimentos de pensamento que de algum modo se conseguem articular, podendo-se, em medida limitada, “explicar” como Heidegger pensa, seguir muitas mais das diferenciações sutis que faz, sentir deslocamentos de ânimo e tonalidade.

3. Neste capítulo, que se engaja mais livre e criticamente com O Acontecimento apropriador, começar-se-á refletindo sobre o trabalho heideggeriano com a linguagem e sobre a questão da linguagem “poiética” mais geralmente, questionando-se novamente seu “descenso” mais radical à dimensão abissal do acontecimento apropriador ao pensá-lo como início (já engajado no capítulo 7 ao discutir a noção do “sem-ser”), desta vez com foco na dimensão religiosa ali encontrada em ação.

Vir ao Pensamento e Vir à Linguagem

4. Como se pode engajar o pensamento heideggeriano em sua dimensão mais original, isto é, naquele trabalho com linguagem e pensamento que desafia o pensamento e a linguagem filosóficos tradicionais? Pensando.

5. Frequentemente, quando uma palavra ou pensamento nos vem, é uma palavra reveladora; diz-nos algo talvez sobre outra pessoa ou sobre nós mesmos, dizendo-nos sobre o que já estava lá, já acontecendo, mas que não “víamos” ou notávamos, des-cobrindo tal palavra algo.

6. As palavras realmente vêm do nada? Não há sempre já tanto ali, apenas oculto de nós, despercebido? Oculto em “nossa” carne ou na carne do mundo, como Merleau-Ponty a chama? Este é de fato um dos principais pontos de diferença entre Heidegger e Merleau-Ponty, pensando este sempre na plenitude do ser, ao passo que Heidegger parece sempre buscar uma nadidade originária a fim de encontrar, no início mais inceptivo, longe de todos os entes, quase purificado de toda intrusão (permanece sempre o erro), o outro início de um destino para um povo.

7. Mas o que se diz ao dizer que há sempre já tanto ali? Dever-se-ia dizer, com Heidegger, que isso é pensamento representacional, um pensamento representacional imaginativo que encobre a ocorrência originária de vir-a-ser e retirar-se?

8. Ao pensar o acontecer de uma linguagem e pensamento mais originários, Heidegger os pensa como ocorrendo em sua prática solitária de pensamento, concentrando-se seu pensamento, recolhendo-se numa experiência de partida, deixando ir os entes, deixando ecoar apenas os dizeres de alguns pensadores antigos; seu pensamento se recolhe num λέγειν voltado para o indizível, revirando-se na reviravolta da verdade do seer, circulando na grinalda da reviravolta.

9. Em certo ponto de O Acontecimento apropriador, Heidegger responde à “indignação diante do suposto jogo com significados de palavras”, parecendo isso mero jogo verbal inventado, mas, “em essência, sendo apenas o contratom [Gegen-klang] da apropriação”, ocorrendo a apropriação (Ereignung) através da disposição (Stimmung), que Heidegger aborda também como a voz silenciosa (Stimme) do seer, ainda não havendo, nesse nível inceptivo, som, ainda não linguagem, ainda não significado.

10. Pergunta-se pelo momento de transição ao pensamento ou palavra do pensador, que Heidegger às vezes aborda como uma ruptura, tendo-se retido a passagem de O Acontecimento apropriador que ocasiona aqui reflexões: “a palavra pensante é a proclamação [Spruch] da experiência da partida. A proclamação é uma ruptura [Bruch] do silêncio da clareira apropriada. De onde e como o silêncio aqui? O sem-som [das Laut-lose] como o não-sensível [das Un-sinnliche]. A ausência de som do seer. A proclamação é a palavra da resposta à reivindicação [An-spruch] do início.”

11. Citou-se, no capítulo 6, a seguinte passagem: “mas todo soar é o eco [Widerhall] do fato de que os entes, antes sem-ser, entram no acontecer rumo ao seer e nele persistem. O eco da voz inceptiva do ser origina-se de tal modo que o ser se quebra sobre os entes, que são eles mesmos primeiro iluminados através da apropriação ao ser. Na voz inceptiva da disposição que ocorre através do acontecimento apropriador, não há nem falar nem silêncio.”

12. A imagética da quebra em que a palavra vem a ser é reminiscente de dois poemas de Stefan George que Heidegger discute em seu ensaio tardio “A Palavra”, de 1958, escrevendo George, num deles (“Na Mais Quieta Paz…”), na última estrofe, sobre o mar que, com grito estridente e violento estrondo, torna a lançar-se dentro da concha há muito abandonada.

13. O outro poema de George, “A Palavra”, termina com a estrofe: “assim renunciei e tristemente vejo: onde a palavra se quebra, nenhuma coisa pode ser.”

14. Que Heidegger encontre um sentido de ruptura no surgir (ou vir-para-o-entremeio) da palavra é clara indicação de que jamais pode haver a “palavra pura do seer” proferida pelo pensador, não podendo de fato haver um acontecimento apropriador puro da verdade do seer em que de algum modo acontecesse uma revelação pura do seer como tal.

15. Viu-se como Heidegger pensa a palavra silenciosa do seer (à qual o pensamento responde) necessariamente como singular (por causa da singularidade da verdade do seer em seu acontecer), mas também fala da “palavra pensante” (que responde à palavra silenciosa do seer) no singular, provavelmente para distinguir o que se diz na palavra pensante das muitas palavras que se podem “objetificar”.

16. Significaria isso que a palavra pensante não é um ente (ein Seiendes)? Seriam apenas as palavras (escritas ou faladas) em que a palavra ressoa entes? Ou dever-se-iam distinguir diferentes “níveis” ou modos de pensar palavras e entes?

17. Derrida denuncia como metafísica a autopresença da palavra falada, a palavra em autopresença silenciosa que vincula o significante a uma suposta significação que domina o significante.

18. Sempre se pensou haver sentido ainda mais forte de disseminação quando se profere uma palavra em voz alta, e que se pode manter mais sentido de unidade em relação a uma palavra “apenas” escrita, uma palavra ainda não compartilhada.

19. Pergunta-se, nesse contexto, sobre aquelas palavras que Heidegger escreve em O Acontecimento apropriador: “o dizer do início — sua expressão e apresentação só podem ser simples. Aqui, isso significa: emergindo do um e da unidade do início: à maneira do acontecimento apropriador. Todo descobrir, todo ensinar, mas também todo despertar, todo impulsionar deve manter-se afastado; do mesmo modo qualquer 'ordenação' de 'conteúdos'. Somente a palavra pura que repousa em si mesma deve ressoar. Nenhum ouvinte deve ser pressuposto e nenhum espaço para o pertencimento-escutante (Gehören).”

20. Escreve então sobre permanecer aqui (bleiben), sobre encontrar morada no não-familiar, das Unheimische, literalmente o “não-doméstico”, circulando na grinalda do acontecimento apropriador, ecoando a voz silenciosa do seer, quebrando e então apenas deixando ressoar, com cada palavra, a voz silenciosa do ser.

21. Não seria isso uma forma de epoché que Heidegger realiza, uma epoché que abre o tempo-espaço de seu pensar-dizer solitário? Seria a palavra “pura” do seer uma palavra “purificada” do seer? Haveria um gesto metafísico em ação nessa noção de “puro”?

22. Deixando ir os entes, partindo ao abismo, a voz silenciosa do seer ressoa sem som nos pensamentos do pensador — mas e quanto ao pensamento fragmentário citado acima, que fala da ausência de som da voz do seer como “não-sensível”?

23. Há, contudo, um momento no pensamento heideggeriano em que a finitude extrema entra em jogo (e isso o leva bem longe de Hume e Kant): o não-sentido na borda do sentido: a morte, a des-apropriação, o sem-ser.

O Descenso Último

24. O primeiro prefácio a O Acontecimento apropriador é uma citação de Édipo em Colono, de Sófocles, tomada do seguinte contexto: tendo-se cegado após descobrir que matara o próprio pai e casara com a própria mãe, finalmente exilado de Tebas, o velho Édipo vagueia com a ajuda apenas de sua filha e meia-irmã Antígona a fim de encontrar um lugar onde possa morrer.

25. É então que o estranho pergunta ao velho Édipo cego: “e o que é, então, de um homem que não pode olhar [blepein] a garantia?” E Édipo responde: “o que quer que digamos, vemos em tudo que dizemos [horan].”

26. O modo como Édipo morre, ou antes, “vai embora para a ocultação completa”, é também bastante misterioso, sendo, após receber os sinais do céu (o trovão de Zeus), Édipo — até então retratado como incapaz de dar um passo sem a ajuda de sua fiel Antígona — quem se levanta e caminha sozinho, com bastante segurança, rumo a seu destino.

27. Muito liga essa cena de Édipo em Colono ao movimento do pensamento heideggeriano especialmente em Sobre o Início e O Acontecimento apropriador: cego para os entes por ter-se cegado, Édipo segue um chamado divino, caminha sozinho e “sabidamente” rumo a seu destino, e desce, sem deixar traço para trás.

28. Mas e quanto ao chamado divino que Édipo segue? Heidegger distingue o acontecimento apropriador de apropriação dos deuses, não sendo a voz sem som do seer uma voz divina — ou seria? Pergunta-se se um sentido de “recolhimento” encontrado na virada heideggeriana para a voz silenciosa do seer não carregaria uma dimensão religiosa intrínseca.

29. A última seção de Contribuições intitula-se “Linguagem (sua origem)” e começa assim: “quando os deuses chamam a terra, e quando, no chamado, um mundo ecoa e assim o chamado ressoa como o Da-sein do ser humano, então a linguagem existe como histórica, como a palavra que funda a história.”

30. Ao diferenciar pensamento de poesia, Heidegger destaca repetidamente que o pensamento ousa experienciar a falta de deus e busca o não-sagrado, talvez, em seu descenso ao abismo em 1941/1942, esteja Heidegger também mais distante dos deuses.

31. Em O Acontecimento apropriador, Heidegger diz mais sobre a falta de deus, e notavelmente pouco sobre os deuses, falando “do último deus” apenas na seção 254, mencionando, num dos prefácios concernentes a Contribuições, apenas que, nesse volume anterior, “o pensamento do último deus ainda é impensável” (não sendo claro o que isso significa).

32. Não apenas essa última frase permanece enigmática — o que seria um “deus sendo”? Ele (novamente: por que um deus “ele”?) certamente não seria um ente nem como humano nem como outros entes.

33. Mesmo nesse caso, contudo, ainda se poderia ter falado de uma religiosidade no pensamento heideggeriano, uma religiosidade de tipo próprio talvez, podendo-se, levando em conta o que disse em entrevista televisiva com o monge tailandês Bhikku, em 1963, dizer que Heidegger de fato poderia dizer que pensar em resposta à voz silenciosa do seer é uma religião.

34. As noções de pobreza, dignidade e nobreza a que Heidegger tão frequentemente recorre em seu pensamento em O Acontecimento apropriador não deixam transparecer humor algum, tendo também um tom (ao menos ao ouvido de quem lê) mais próximo da piedade cristã do que da religião grega.

35. Ao final da dissertação escrita sobre a noção de fundação em Contribuições e em Derrida, a tonalidade do próprio pensamento começou a deixar o que se poderia chamar uma fase Sturm und Drang que amava o abismo, começando a ter uma “intuição” ou “sentido” diferente do tempo histórico vivido.

Para Onde Agora? Uma Nova Cosmologia e o Emergir das Coisas

36. O dobrar-se-para-trás no abismo inceptivo alcança um pico em 1941/1942, levando a ênfase na inceptividade do início (na partida e no abismo) Heidegger a afastar-se de pensar o acontecimento apropriador como o encontro de humanos e deuses e a contenda de terra e mundo.

37. Mas sabe-se, pelas obras seguintes, que o pensamento heideggeriano tomará novo caminho, um caminho que o levará a escrever alguns diálogos (as Conversas do Caminho de Campo) e a desenvolver o que veio a ser conhecido como seu pensamento “topológico”, emergindo do abismo sem imagem e sem som com um pensamento da quadratura de deuses e humanos, terra e céu, reemergindo os entes como coisas que reúnem a quadratura, coisas como um jarro, uma noiva.

38. Poder-se-ia, claro, enfatizar como, já em Sobre o Início e O Acontecimento apropriador, o pensamento heideggeriano começa a assumir o caráter de serenidade (Gelassenheit) que permite às coisas tornarem-se “mais ser” precisamente ao ressoar com “o sem-ser”, podendo argumentar-se que o pensamento do início supera a diferença ontológica mais radicalmente do que Contribuições.

39. Não se encontram exemplos de entes liberados em sua essência em O Acontecimento apropriador, mas encontram-se nas Conversas do Caminho de Campo (1944), onde Heidegger começa a falar não apenas de entes (das Seiende), mas de coisas, Dinge, falando também do bosque, do campo, da noite e do dia, da terra e do céu, sendo esse o início do que frequentemente se chama seu pensamento topológico, podendo também chamar-se cosmológico.

40. A tarefa, ao pensar o jarro, não é representá-lo como objeto, mas deixá-lo ser o que ou antes como ele é, chegando os interlocutores eventualmente à percepção de que a essência do jarro reside não em sua assim chamada materialidade, mas em seu vazio.

41. O que aqui se desenvolve é o pensamento de uma coisa, um jarro, no contexto de uma relação com o ser (Sein), onde o pensamento é liberado numa relação com a região aberta, de tal modo que essa liberação é vergegnet, “enregionada”.

42. Claramente, tal abordagem das coisas já não as considera como objetos manipuláveis, mas deixará ser o que são? Pensará os entes em sua singularidade? Ou não seria a singularidade, a Einzigkeit do ser que Heidegger tenta evocar, antes a singularidade de um instante em que se contempla o ser em partida, instante que deixou a singularidade das coisas para trás?

43. As respostas provisórias a essas questões são duas: por um lado, não se vê o pensamento heideggeriano jamais se abrindo à singularidade das coisas e acontecimentos em seu acontecer indiferente, e isso porque sempre permanecerá fiel à primazia do seer, ocorrendo o ser humano no espaçamento entre seer e entes, mas, dentro desse espaçamento, o pensamento heideggeriano permanece dobrado de volta em direção ao seer e à ocultação.