VALLEGA-NEU, Daniela. Heidegger’s poietic writings: from contributions to philosophy to the event. Bloomington (Ind.): Indiana university press, 2018.
Sobre o Início (GA70)
Conteúdo e Composição de Sobre o Início (Über den Anfang)
1. Com Sobre o Início, Heidegger realiza de fato um novo início (em 1941) no pensamento do evento, distinguindo-se marcadamente esse volume (que precede O Evento) de Besinnung e A História do Seer, na medida em que as meditações frequentemente confrontacionais sobre maquinação e vontade de poder (ou vontade de vontade) dos volumes anteriores quase desaparecem, cedendo lugar a um pensar o evento em seu acontecer mais inceptivo.
2. Sugeriu-se antes (ao final do capítulo 4) que, em termos da história do seer, Heidegger se move para uma situação híbrida em que a fundação do Da-sein não acontece abertamente para um povo, mas antes em ocultação para os poucos que podem escutar o chamado do seer, ou em cujo “espaço do coração” (Herzensraum) reverbera uma história mais inceptiva do seer, veremos, contudo, como a questão da história do seer torna-se novamente questão quando o pensamento se arrisca mesmo além do seer e assim mesmo além da história.
3. Sobre o Início começa com o seguinte prefácio: “a palavra tentante do início pode sempre permanecer apenas na aparência de uma exposição e, contra sua determinação Bestimmung], frequentemente soa como um relato. É por isso que, para tal tentativa, o título apropriado é o cabeçalho: Sobre o Início.”
4. Sobre o Início possui seis partes sem ordem aparente, embora a parte I, “A Inceptividade do Início” (Die Anfängnis des Anfangs), comece já no coração do tema e desenvolva o pensamento renovado de Heidegger do evento como início “a partir” do início.
5. Comparado a Contribuições à Filosofia, a “organização” de Sobre o Início difere no sentido de que não indica a transição do primeiro ao outro início, começando antes, como se mostrará, “aquém” da diferenciação em primeiro e outro, o que significa que já começa em (já saltou para ou entrou n)o outro início, e a partir daí repensa também o primeiro início, não sugerindo assim a estrutura desse volume algo como uma sequência no movimento do pensamento.
6. A exposição seguirá em grande parte os temas anunciados nos títulos das várias partes e subseções do volume, focando-se nos conceitos de “início”, “diferença” e “diferenciação” (de ser e entes), “realização”, “o sem-nada” e “o sem-ser”, “dignidade”, “pobreza” e “ânimo” (Gemüt), “Da-sein”, a relação entre ser e humanos, e “explicitação” (Auslegung) especialmente no contexto da leitura heideggeriana de Hölderlin (ministrando Heidegger, em 1941–1942, duas preleções sobre Hölderlin), e a “história do seer”.
“O Que Significa 'Início'?”
7. Na primeira seção de Sobre o Início (com o título “o que significa 'início'?”), Heidegger dá indicações sobre o que entende por início (Anfang), nomeando “início” a verdade do seer e seu acontecer como evento.
8. A palavra An-fang tem a raiz “fangen”, capturar; “in-cepção” tem a mesma raiz latina (-cepção vem de “capere”, capturar), sendo por isso sensato traduzir Über den Anfang por Sobre o Início.
9. O movimento de pensamento aqui (que Heidegger não aborda explicitamente neste ponto) não é o de suportar o abismo, mas o de partida, sendo Abschied, partida, nova palavra essencial para Heidegger: “in-cepção é o tomar-para-si da partida para dentro do abismo. Esse tomar-para-si é a apreensão inceptiva [ Aneignung ] e, portanto, a apropriação [ Er-eignung ] da inceptividade [ Anfängnis ]. In-cepção é, inceptivamente e isso significa de modo abissal, o evento apropriador.”
10. Não é acidental, acredita-se, que Heidegger introduza a noção de início não apenas sem referência explícita ao pensamento, mas também sem especificar “outro início” (outro começo), uma vez que pensa o início num limite onde o primeiro e o outro início da história ainda não estão diferenciados, ou onde o primeiro e o outro pertencem ambos ao início, razão pela qual escreve, na seção 42: “'início' é a palavra para o ser que tem a capacidade de nomear o primeiro e o outro 'começo'.”
11. A verdade (desvelar-ocultar) é o fundamento ou fundação dos entes, e, no entanto, bastante diferente de um fundamento sólido, tendo o fundamento antes o sentido de “elemento” de um “em que” os entes se tornam entes, não definido por fronteira alguma, mas ocorrendo de modo abissal.
12. No início, os entes se erguem ao ser sem fundamento, sem porquê, e, quando o início ocorre inceptivamente, permanecem ligados à ocultação, pensando Heidegger agora o evento (como início) mais radicalmente do que em Contribuições em relação aos entes, de tal modo que o evento e os entes ocorrem como o erguer-se ao ser (ou à verdade) daquilo que “anteriormente” era sem-nada e sem-ser: “o evento apropriador inceptivo, contudo, tem sua essência plena apenas no fato de que, ao ocorrer como evento apropriador e assim como realização [als Er-eignung austragend], clareia a clareira inceptiva e assim apropria a abertura. Tal apropriar é a vinda-para-o-entremeio [Dazwischenkunft] da clareira como tempo-espaço. O apropriar apropria o entremeio (como em-meio e enquanto-isso) para aquilo que — até o lapso [Frist] que ocorre essencialmente a partir do apropriar — [é] o sem-nada [das Nichtslose], que então surge como um ente.”
13. O evento apropriador inceptivo clareia uma abertura, com a qual Heidegger repensa o que chama, em Contribuições, o “aí” do ser-aí, o sítio aberto (ou tempo-espaço) para a verdade do seer, sendo marcante que agora (na primeira seção de Sobre o Início) pense essa abertura de imediato em relação ao “tornar-se-ente” (seiend werden) dos entes a partir do sem-nada, que é (“é” precisa ser riscado aqui) precisamente um ente antes de se tornar um ente, antes de ser diferenciado em vir-a-ser um ente.
14. Em Contribuições, a relação entre o evento como ocorrência da verdade do seer, de um lado, e os entes, de outro, era mantida à distância ao se pensar primeiro a necessidade de preparar o Da-sein, para que então um abrigamento da verdade nos entes pudesse ocorrer; mas agora Heidegger traz os entes à baila de imediato.
15. Mas como se pode sequer pensar tal pensamento? Como pensar o que não é?
16. Essa dificuldade complica-se ainda mais pelo fato de Heidegger pensar que, mesmo quando os entes surgem ao ser, eles não são (!): “o seer como início e evento tem unicamente aquela essência que permite dizer: 'o seer é'. Todos os entes apenas surgem ao ser; os entes nunca são; mas sempre apenas 'são' entes. Um ente não é, na medida em que deve ter suas circunstâncias [ Bewenden ], isto é, aqui o início, no 'é'. Um ente só é como ente; e isso significa: um ente só alcança o ser às vezes, mas um ente não é ele mesmo o ser. Um ente permanece tão decisivamente diferenciado contra, através e a partir do seer, que um ente não tem sequer o nada [das Nichts ] como próprio; porque só o seer tem a ocorrência essencial do nada. Os entes são o sem-nada.”
17. Só o ser — não um ente — é e tem a ocorrência essencial do nada, devendo pensar-se talvez esse nada do ser a partir da corrente da retirada do ser ou a partir do horizonte da morte que determina nosso ser, não tendo os entes essa dimensão, não estando na corrente da retirada do ser como estamos ao enfrentar a mortalidade ou experienciar a partida.
18. O que Heidegger quer dizer com isso? Parece dizer que árvores, pedras, pássaros, palavras (poderíamos incluir também rádios, xícaras e cadeiras? e um “povo”, uma “nação”, a “história”, um “deus” ou “deuses”?) não são, mas às vezes surgem ao ser, presumivelmente naqueles momentos em que o evento apropria o entremeio — mas mesmo então não são, se tomarmos o “são” no sentido forte que inclui o nada.
19. Antes de explorar mais a diferenciação entre ser e entes agora abordada como die Unterscheidung (a diferenciação — retomada mais adiante), lança-se um olhar sobre a última parte da seção 1 de “Sobre o Início”, onde Heidegger começa a abordar a diferença entre primeiro e outro início, que não são dois começos, mas antes parecem ser diferenciações relativas à direcionalidade do pensamento inceptivo.
20. Na seção 2, Heidegger diferencia ainda mais primeiro e outro início, ainda pensados a partir do início como “a captura do que é apropriado”: (primeiro início) “a in-cepção — o autocapturar-se sobre o próprio fundamento abissal na chegada da disposição que se ergue [das Sichfangen über dem eigenen Ab-grund in die Ankunft der aufgehenden Verfügung]”; (outro início) “o início — o autocapturar-se sobre o próprio fundamento abissal no descenso à partida”; (primeiro início) “o autocapturar-se como o tomar e capturar do desvelamento”; (outro início) “o autocapturar-se como o tomar do abandono do ser na apropriação.”
A Diferença (Unterschied) e a Diferenciação (Unterscheidung)
21. Na seção 57 de Über den Anfang, Heidegger refere-se à diferenciação (die Unterscheidung) de ser e entes como a primeira na ordem de hierarquia, pensada essa diferenciação mais inceptivamente não apenas do que a diferença metafísica entre ser e entes, mas também mais inceptivamente do que a diferença ontológica em Ser e Tempo, que permanece ligada à transcendência do Dasein.
22. Heidegger aborda aqui o surgir ao ser dos entes como o qual o seer ocorre, mas agora com respeito ao movimento do próprio seer em sua inceptividade mais radical, que inclui a noção de reclusão, sendo a reclusão (Abgeschiedenheit) aparentada e estreitamente ligada à noção de partida (Abschied).
23. As passagens em que Heidegger tenta pensar a reclusão do início contam-se entre as mais difíceis de interpretar, suspeitando-se que se deva entender o que ali tenta pensar como precursor da noção de Enteignis (que pode ser traduzida como “expropriação” ou “des-apropriação”) que emerge mais plenamente em O Evento.
24. A relação entre diferença e diferenciação emerge mais plenamente ao final da seção 59: “no evento como a diferença (a semelhante-à-partida), os entes surgem ao permanecer-postados [ Erständnis ] segundo o próprio, e através desse permanecer-postado — e segundo o lançamento [ Zufall ] do seer nos entes — os entes se movem da diferença para a possibilidade de serem diferenciados do ser e, com isso, para a possibilidade da diferenciação.”
25. Até agora, referiram-se passagens que poderiam abordar o início tanto no primeiro quanto no outro início, ocorrendo em ambos os casos, no movimento da diferença, uma diferenciação de ser e entes. Considerar-se-á agora como o primeiro e o outro início vêm a ser distinguidos.
26. Na seção 9 de Über den Anfang, intitulada Anfang und Aufstand, “início e insurreição”, Heidegger traça o início da metafísica do seguinte modo: “como o vir-para-o-entremeio do entremeio [als Dazwischenkunft des Inzwischen], o evento apropriador é o chamar-para-fora do sem-nada [des Nichtslosen ] para o ser, a fim de ser como ente. Os entes assim se erguem para si mesmos. Ao serem apropriados ao ser [übereignet], os entes se apoderam [aneignen] do ser de tal modo que, a partir de então, os entes se dão como aquilo que carrega e traz à luz o ser em si mesmos, de tal modo que os entes também devem se tornar a medida e o fundamento para a determinação do ser, que [o ser] assim já se comprometeu com a eidade. Os entes assim se erguem contra o ser (como evento apropriador). Essa insurreição ocorre a partir do início e a ele pertence, de tal modo que o início incorre no perigo de que, a partir dessa insurreição, se instale o encobrimento da verdade do seer. Esse perigo tem sua urgência no fato de se disfarçar na aparência de que somente agora o ser é trazido à sua dignidade. A metafísica realiza essa aparência.”
27. Mas, quando o evento apropria, o erguer-se dos entes ao ser não acaba necessariamente no desencadeamento dos entes. Na seção 97 de Über den Anfang, intitulada “O Evento e os Entes”, Heidegger pensa o evento quando os entes se erguem à abertura do ser sem encobrir esse evento.
28. Pode-se pensar isso no contexto do abandono dos entes pelo ser, de tal modo que, no abandono, os entes “são” não-entes, escrevendo Heidegger, de fato, um pouco depois na mesma seção: “o ser, como a-propriação, é a consignação dos não-entes [das Sein ist als Er-eignung die Übereignung des Unseienden] — ou dos entes que são abandonados pelo ser — no ser [in das Sein]. Isso implica que os próprios entes se tornem o que emerge [das Aufgehende ] e que, ao emergir (agora a φύσις é pensada mais inceptivamente), venham a permanecer-postados [ Erstehen ] numa permanência [ Verweilung ].”
29. O erguer-se dos não-entes ao vir-a-ser é sempre único, diz Heidegger, e “é sempre diferente conforme os entes sejam apropriados ao ser como pedra, árvore, animal, humano, deus… O erguer-se não é representação nem mero aparecer; erguer-se é emergir [Aufgehen] e, ao mesmo tempo, permanecer para trás no sem-ser [zurückbleiben im Seinlosen].”
30. O que Heidegger diz aqui, ao final — que os entes, ao mesmo tempo em que surgem, permanecem para trás no sem-ser — é crucial, sendo somente assim preservada a relação com o ser, não sendo o que é preservado o nada, mas o sem-ser, podendo-se talvez pensar essa condição de sem-ser em termos de vazio ou de indeterminação absoluta, e não como um sentido de retirada, passagem ou falta.
31. O pensamento do sem-ser, o Seinlose, marca o pensamento mais extremo e o momento mais inceptivo em Über den Anfang e O Evento, tentando-se agora acompanhar Heidegger em como pensa a condição de sem-ser (ou o sem-nada) como o momento mais inceptivo (que não é realmente um momento nem coisa alguma) no pensar o evento de apropriação como inceptividade do início.
O Último Descenso; O Sem-Ser
32. Como se entende, com o sem-ser, Heidegger pensa um deixar-ser mais inceptivo dos “entes ainda não ou já não sendo”, que ocorre no descenso mais extremo ao abismo, acreditando-se também relacionar-se isso a uma nova disposição histórica no pensamento heideggeriano, a de deixar passar o abandono dos entes pelo ser, isto é, o desdobramento histórico e a instalação da maquinação ao final do primeiro início, em vez de resistir a isso.
33. A noção de condição de sem-ser é, poder-se-ia dizer, noção positiva para Heidegger, noção mais inceptiva (de fato pré-inceptiva), precisando ser nitidamente diferenciada do abandono dos entes pelo ser, pensando Heidegger também, junto à condição de sem-ser, uma noção positiva de Enteignis, “des-apropriação”, não sendo a des-apropriação novamente o movimento de retirada do seer que desencadeia os entes na maquinação, mas apontando para o momento mais inceptivo no descenso ao abismo do início, em que a relação com o abismo é preservada.
34. O mais surpreendente na noção do sem-ser é que implica a noção de que os entes de algum modo são “anteriores” ao ser: “posto, contudo, que o ser vem-para-o-entremeio no sem-ser [Weil aber das Sein in das Seinlose dazwischen ankommt] e começa como o início dos entes, portanto os entes — a saber, como o subsequente sem-ser sendo [als das nachmalige seiende Seinlose] — são em certo sentido 'anteriores' e mais antigos que o ser [sic]. Os entes são o 'a priori' do ser, se aqui não ocorrer confusão por causa do uso de títulos metafísicos para o ser e os entes sendo [Sein und seiende Seiende] fora de toda a metafísica.”
35. Como aquilo que era (“era” precisa ser riscado aqui) anteriormente sem-ser, os entes “são em certo sentido 'anteriores' e mais antigos que o ser” (não sendo claro que Heidegger escreveria que o sem-ser é mais antigo que o seer, uma vez que, com o seer, pensa também a partida “para além do seer”).
36. Os sem-ser são (“são” precisa ser riscado aqui) entes antes e depois de surgirem ao ser, isto é, antes de uma clareira do ser ser apropriada; antes do Da-sein! Deveria perguntar-se como Heidegger ou qualquer um poderia chegar a tal pensamento — não seria seu pensamento em Contribuições e nos escritos seguintes precisamente uma tentativa de pensar o ser, isto é, a partir de uma disposição básica que já é um ente no “aí”, isto é, no Da-sein? Como pode pensar “anterior a” o Da-sein? Não pode.
37. Ainda na seção 98, escreve: “mas na condição de sem-ser pode ser concebido algo mais extremo pertencente à essência do ser (início — descenso — partida). Aqui — na 'condição de sem-ser' e no 'sem-ser' — reside um desafio [eine Zumutung] diante do qual nenhuma metafísica encontra caminho.”
38. Pode ser útil considerar aqui em que ponto pensa esse pensamento do “indizível” (das Unsägliche), como o chama, pensando esse pensamento mais extremo em “o último descenso”: “isso [o último descenso] determina um tempo-entremeio inceptivo [Zwischenzeit], no qual a história não necessariamente continua na mesma manifestidade Offenbarkeit]… quando o início do seer é e o seer ocorre essencialmente apenas inceptivamente, então o próprio seer (como evento) deve uma vez trazer à luz o 'tempo' (campo de jogo temporal-espacial) no qual e com o qual ele [o seer] alcança essencialmente [erwest] seu descenso. 'Então' toda possibilidade de um 'então' desapareceu; então — falado ainda uma vez e apenas a partir do abandonar transicional [aus der übergänglichen Überlassung gesprochen] — também não há 'entes'. Os não-entes, que — dito transicionalmente — continuam, não são nem o nada nem o não-nada. 'São' (mas pensado apenas num sentido mais inceptivo) o μηδέν que Parmênides pensou (mas de outro modo) no primeiro início.”
39. Heidegger qualifica aqui o último descenso de seu pensamento como um überlassen transicional, que em alemão corrente tem o sentido de deixar algo a alguém, podendo pensar-se isso como um deixar-ir que deixa os entes à maquinação, onde os entes são não-entes.
40. Esse movimento mais inceptivo no pensamento inceptivo heideggeriano — seu descenso, no qual ocorre uma Verwindung, uma torção para fora da metafísica e da maquinação — marca um tempo fora do tempo, um tempo-espaço sem “quando”, uma suspensão da história num entremeio, ligando-se essa nova disposição do pensamento heideggeriano (primeiro anunciada na noção do “sem-poder” em 1939) às noções de pobreza e dignidade, a que continua a se referir em Sobre o Início.
Dignidade
41. O modo como Heidegger fala de dignidade (Würde) é estranho se se pensa a dignidade primariamente no sentido de uma atitude ou característica de alguém, não sendo, para Heidegger, a dignidade um caráter dos humanos, nem própria ao pensamento, mas antes ao próprio seer (com “y”, isto é, o seer que acontece historicamente).
42. Dignidade designa o modo como, no outro início (o descenso), o seer ocorre inceptivamente, caracterizando Heidegger a dignidade como o movimento do ocorrer inceptivo do seer acima descrito: surgir da ocultação e permanecer voltado para ela.
43. A seção 153 fala da autossuficiência da dignidade, na medida em que a dignidade “não efetua nada nos entes e não se justifica primeiro a partir de seus efeitos. A dignidade transpassa todos os entes e suas possibilidades porque deixa cada ente erguer-se à sua medida e assim também tem de deixar a cada ente seu ser lançado à desmedida.”
44. O que acontece na dignidade e na pobreza é desvinculado do sucesso no âmbito dos entes, não tendo importância alguma o resultado público, diz Heidegger, nas seções 21 e 22: “de fato, torna-se inessencial se a inceptividade do início vem a ser comunicada ou não. O único digno da dignidade é que o dizer aconteça [dass die Sage sich ereignet]. Digno da dignidade é somente o pensamento do seer; que ele seja apropriado e nada mais.”
45. O seer não precisa do que é público, e, no entanto, se deve ocorrer em sua dignidade, precisa de um sítio; o desvelamento precisa acontecer, requerendo isso uma resposta de pensar-dizer, de tal modo que o pensamento seja disposto ou atonalizado pela pobreza e dignidade do ser.
O Pensamento Inceptivo, o Da-sein e os Humanos
46. Na parte II de Sobre o Início, Heidegger medita sobre o pensamento seer-histórico, enfatizando os poucos e únicos que são apropriados para dizer do seer, enfatizando também o caráter transicional do pensamento seer-histórico, dizendo que tal pensamento primeiro precisa ser preparado.
47. O que Heidegger escreve nessa parte de Sobre o Início frequentemente soa mais transicional do que inceptivo, como algo que poderia ter escrito também em volumes anteriores, retomando mesmo os conceitos de “lançamento” e “projeto” que remontam a Ser e Tempo, ao escrever: “o ser precisa lançar-se para [zu-werfen] o pensamento. O pensamento precisa ser deslocado para esse lançamento Zu-wurf] e assim se tornar ele mesmo projetante [Ent-werfendes].”
48. Heidegger pensa então a mesma relação entre ser e pensamento (em Contribuições, um dos sentidos da reviravolta [Kehre] do evento) como Anspruch und Antwort, isto é, reivindicação (no sentido de ser interpelado) e resposta, vindo a interpelação através da palavra “de” (no sentido de “pertencente a”) o seer, à qual a essência dos humanos responde ao sondar e tornar-se constante (inständig) no Da-sein, sendo assim o Da-sein trazido a seu acontecer essencial (erwest), dizendo Heidegger que tudo isso “er-eignet sich”, é apropriado (voz média).
49. Notou-se, ao início deste capítulo, que Heidegger não aborda o pensamento ao pensar o evento como início na primeira parte de Sobre o Início, residindo aí a abordagem mais radical do evento em 1941.
50. Embora o Da-sein deva ser pensado ao mesmo tempo a partir do ser, do desvelamento e da apropriação dos humanos, ainda assim é o seer que ocorre como início, e os humanos pertencem ao evento; em outras palavras, em termos de início, o seer retém certa prioridade.
51. Desenvolve então a relação do seer com os humanos, jogando com a noção de que a essência humana oscila (schwingt) no seer, enfatizando na noção de schwingen um “ser elevado” e “carregado” no lançamento apropriador do seer.
52. Que o seer determine co-originariamente humanos e entes não-humanos é decididamente diferente do que Heidegger escreve em Ser e Tempo, onde atribui ao Da-sein (entendido como o ser ou existir dos humanos) o caráter de descobrir ou desvelar os entes.
53. O Da-sein, então, deveria ser pensado mais a partir do seer do que dos humanos, embora a noção de Da-sein sempre inclua o ser humano, não sendo o Da-sein “propriamente” (nicht eigentlich) uma determinação dos humanos, escreve Heidegger, mas “somente na consequência essencial” (in der Wesenfolge) e de outro modo e outra essência do que a subjetividade humana tradicionalmente concebida, significando o Da-sein o tempo-espaço da fundação da verdade do ser nos entes: “o Da-sein, compreendido em sentido inteiramente diferente do de Ser e Tempo e pensado mais inceptivamente do que ali, é a ocorrência essencial do tempo-espaço para todo ser dos entes.”
Disposição e Linguagem
54. A seção 108 lista uma série de conceitos que poderiam ser lidos como um esboço de como os humanos são atraídos ou incluídos no seer (einbezogen in das Seyn): ser; apropriação (do Da-sein); voz [Stimme] (palavra do seer — ocultação — manter-se em silêncio); disposição [Stimmung]; exigência de coragem [ou envio de ânimo, Zu-mutung significa ambos]; ânimo reunido [Gemüt]; morada interior [Inständikeit — antes traduzida como “constância”]; condição [Befindlichkeit] (ser corpóreo) (compreendida diferentemente do que em Ser e Tempo, onde era equiparada à disposição).
55. A determinação essencial do ser humano repousa no Da-sein, que é apropriado através da voz silenciosa do seer, que dispõe o Da-sein de tal modo que este é “a re-ressonância [Wieder-klang] do seer”, sendo o ser humano, a partir daqui, que mora no ser-aí, disposto inceptivamente.
56. O que ressoa no Da-sein disposto, a voz silenciosa do seer, aponta para a dimensão oculta e abissal do seer, e isso também deve significar, para além do seer, para dentro do sem-ser, acrescentando-se aqui a noção do sem-ser à luz da palavra Zumutung, que Heidegger usa precisamente em relação ao pensamento do sem-ser.
57. A noção de Zu-mutung e a palavra Gemüt compartilham a palavra “Mut”, que significa coragem, mas também (em sua raiz) ânimo, encontrando Heidegger nessa raiz semântica um recurso para articular as várias disposições (Armut, Sanftmut, Langmut, Anmut, Großmut, Schwermut, Gleichmut, Unmut e Mißmut) que apontam para a dimensão do seer tal como ressoam no Da-sein.
58. É difícil não pensar a disposição como algo pertencente aos humanos concebidos como sujeitos, precisando lembrar-se repetidamente que, para Heidegger, as disposições estão “localizadas” no seer, e que o Da-sein requer um modo de pensar não ancorado em “coisas” como “substâncias”, mas em experienciar o vir-a-ser como evento.
59. Se se segue o pensamento heideggeriano do evento como um desvelamento inceptivo do vir-a-ser, também se torna claro que, anterior a algum desvelamento ou meditação sobre um “eu”, vem — junto ao ser disposto — a linguagem.
60. Nos anos em que Heidegger trabalha em Sobre o Início e O Evento, anos em que seu pensamento mais radicalmente “desce”, as meditações sobre poesia e linguagem se intensificam, sendo esse o caso especialmente, como se verá, em O Evento.
Explicitação (Auslegung) e Poesia
61. Auslegung é comumente traduzida por “interpretação” e significa literalmente “expor” ou “colocar para fora”, usando-se aqui a palavra “explicitação”, uma vez que Heidegger contrasta Auslegung com Interpretation, esta tomada como nome de uma abordagem “historiográfica” que reduz o que interpreta a interesses atuais e egoístas.
62. Na seção seguinte, Heidegger passa a dizer mais sobre em que consiste a explicitação, discutindo-a não apenas em relação à poesia de Hölderlin, tentando meditar, aqui, sobre o que está em jogo em seu próprio pensamento, isto é, em sua leitura da história do ser e seu pensamento do evento como início.
63. O estranhamento é essencial se se quer evitar uma “compreensão” que se vale de conceitos e modos de pensar já formados, sendo, além disso, “o que é inceptivo” implicitamente estranho, por ser um acontecer originário da verdade que nos desassossega de (ou ocorre enquanto se é desassossegado para) modos habituais de pensar e ser.
64. Heidegger diferencia três aspectos da “explicitação seer-histórica”: “a explicitação da história do ser”, com o que se refere à explicitação da metafísica; “a explicitação do seer como história, como início”, que é o dizer do evento, isto é, o outro início; e a explicitação que reúne os dois primeiros aspectos, que é “a explicitação em transição do primeiro para o outro início”.
65. Assim, em sua leitura dos grandes filósofos e poetas (todos, de algum modo, inceptivos, uma vez que suas palavras e pensamento em última instância são concedidos pelo seer histórico, mesmo quando não conseguem pensar essa concessão), a explicitação heideggeriana tenta apreender a disposição que guia seu pensamento, disposição que ressoa em suas palavras pensantes para aquele que consegue escutar além do que é falado ou escrito e apreender o que é inceptivo no pensamento do filósofo, no dizer do poeta ou na escultura do artista.
66. Embora Heidegger fale de “a verdade” e “a palavra”, isso não significa que haja apenas um dizer que possa explicitar a verdade e a palavra, tendo a prevalência do singular em Heidegger — se se lê Heidegger com Heidegger — a ver com seu senso da unicidade do ser (Einzigkeit), ligada a seu acontecer sempre único.
67. A noção da verdade de uma explicitação complica-se não apenas pela multiplicidade de sentido (Vieldeutigkeit) inerente, por exemplo, à palavra poética, mas também pelo erro, questionando Heidegger não apenas suas explicitações dos hinos de Hölderlin, como poderiam estar errando, mas refletindo também mais amplamente (na seção 136) sobre a possibilidade de errar inerente a toda tentativa de pensamento inceptivo, lembrando a si mesmo e ao leitor (se tem um leitor em mente aqui) que pensar adiante para o início “só raramente é inceptivo”: “em tudo que é inceptivo… facilmente ocorre que quem tem de pensar e poetizar em seu âmbito se engane [versieht sich] naquilo que já lhe foi consignado e atribuído, e que, contudo, é ainda uma propriedade não contida.”
68. Heidegger também aponta como facilmente se pode pensar que o caminho tomado poderia ser tomado como espécie de “ponto de partida” que torna tudo o mais possível, o que seria exigência de um pensamento sistemático mais tradicional, sendo-se levado a não ver que o início inicia sua essência em si mesmo e assim não pode ser posto como ponto de partida rígido.
69. Heidegger prossegue então meditando mais especificamente sobre a poesia de Hölderlin, cuja explicitação surge, diz, “a partir do conhecimento da história do ser”, e prepara o outro início, obtendo-se indicação mais específica de como Heidegger lê Hölderlin a partir da história do ser na seção 138, intitulada “O Sagrado e o Seer”.
70. É por isso que Hölderlin pode ser facilmente mal compreendido e interpretado metafisicamente, diz Heidegger, sendo também por isso que a poesia de Hölderlin precisa do pensador (Heidegger) como aquele que pensa adiante e assim primeiro abre o tempo-espaço da poesia e a funda na questão do ser como a questão da verdade do seer.
71. Heidegger pensará ainda mais extensamente sobre a relação entre pensamento e poesia em O Evento, ao buscar cada vez mais profundamente um pensar-dizer que deixe acontecer a verdade do seer como inceptividade do início.
A Articulação Mais Inceptiva da História do Seer
72. As reflexões heideggerianas sobre como explicitar a poesia de Hölderlin e sobre suas próprias preleções sugerem que — embora, em suas tentativas mais radicais, Heidegger tente pensar o evento sem quaisquer efeitos esperados e não em vista de qualquer público — ainda estava preocupado com a preparação do outro início para um povo, sugerindo isso alguma forma linear de tempo: preparar um tempo por vir.
73. A seção 152 de Sobre o Início começa com a pergunta: “o que acontece na história do seer?”, pergunta que Heidegger imediatamente desconstrói ao apontar que já opera na diferenciação entre uma ocorrência e aquilo que ocorre (isto é, “algo”, um “quê”), o que erra precisamente o seer e sua história.
74. A história do seer não pode ser explicitada por algo (alguma circunstância ou ocorrência) que nela aconteça, não podendo ser descrita, mas apenas indicada, não sendo nada além do acontecer do evento como início, que Heidegger explicita novamente como “o tomar-para-si” (An-sich-nehmen) da clareira (que é tanto o “próprio” quanto a “propriedade” — Das Eigene und das Eigentum — do seer) e o tomar-para-si da partida.
75. A história do seer, pensada inceptivamente, é o evento no outro início. Mas como se deveria pensar (pensado a partir do início) o que aparece à maioria como a história do ser, a saber, “acontecimentos” representáveis?
76. Na seção 153, Heidegger medita novamente sobre “a história do ser”, mas agora escreve ser com “i”, indicando o uso continuado do “i” nessa seção, ao falar da história do ser, embora nem sempre seja consistente no uso diferenciado de “y” ou “i”, que está pensando na história do primeiro início, precisando, contudo, mesmo a história do primeiro início ser pensada em termos de sua ocorrência inceptiva.
77. Heidegger não encontra resposta a essas perguntas, e, no entanto, insiste na necessidade de pensar inceptivamente e superar toda historiografia, retomando as diferentes abordagens da história na seção 159, onde acrescenta uma terceira via de pensamento situada entre uma explicação historiográfica e um pensamento apropriado seer-histórico, sendo essa “a explicação histórico-mundial — como cada postura fundamental nos entes fornece o fundamento para o caráter dos entes (por exemplo, o Deus cristão como a realidade mais alta e primeira) (por exemplo, o ser humano como aquele que se sustenta a si mesmo e efetua e planeja) [sic]”.
78. Ainda assim, Heidegger não abandona (mesmo em sua interpretação mais inceptiva da história do seer como evento não linear) o modo como traça a história do ser (a metafísica) desde Contribuições, esboçando a seção 154 novamente essa história, mas em forma de perguntas: “não se deveria abrir, na história do ser, a relação entre ser e humanos? Não deveria o próprio ser deixar-se a essa relação e, com isso, à aparência de que ele [o ser] só agora é estabelecido através dos humanos e de modo humano? Não é a eidade como ἰδέα o início desse deixar-solto no qual o ser se oculta na aparência e no aparecer [Schein und Scheinen]?”
79. Por que pensar em termos de “prova” aqui? Por que essa ideia de que os humanos precisam provar-se a si mesmos?
80. Segundo a “lógica” da história do ser que Heidegger relata desde Contribuições à Filosofia, a metafísica precisa primeiro encontrar sua consumação na “entrega extrema aos entes… no lançamento para fora da verdade dos entes no esquecimento do ser”, sendo necessária a aflição extrema da falta de aflição para se entrar numa relação mais inceptiva e autêntica com o seer, porque somente na aflição extrema a retirada do seer (a retirada como a qual o seer ocorre) e assim o nada pertencente ao ser, e com ele ocultação e desvelamento, descenso e partida, isto é, o evento como início, podem ser experienciados e pensados.
81. O problema do pensamento sequencial e a luta para não apenas diferenciar historiografia de história, mas pensar seer-historicamente, emerge também no contexto da questão do primeiro e do outro início (ou antes “inceptividade”, já que a palavra alemã é sempre Anfang) e dos começos: “entre os começos, fendas [Klüfte]; seu [dos começos] projetar-se para frente é o mesmo; isso [é] não algo geral, mas, em cada caso, único.”
82. Heidegger explica, numa seção anterior, “que cada começo é separado por uma fenda do começo e que essa fenda não existe primeiro por si mesma, mas se origina na inceptividade”, escrevendo também: “cada fenda de começo a começo se determina, em cada caso, a partir de cada um. Cada começo é, em sua unicidade, a história [die Geschichte].”
83. Heidegger está ciente de que falar de começos (no plural) de algum modo os vê “de fora”, movendo-se assim para dentro e para fora de um modo de pensar algo representacional, sendo o desafio manter a representação à distância ao tentar interpretar o fragmento de frase “entre os começos, fendas”.
84. No Da-sein, o seer sempre acontece unicamente do mesmo modo em que se pode dizer que cada momento desvelador em nossas vidas é único, sendo a noção de unicidade (Einzigkeit) essencial ao pensamento heideggeriano do evento, uma vez que a questão é ser apropriado no evento, de tal modo que, quando o pensamento se encontra apropriado a realizar o evento, o seer é experienciado, em cada caso, em sua unicidade, unicidade que se perde uma vez que se tenta representar o evento.
Pairando na Inceptividade
Um Engajamento Crítico com Über den Anfang (Sobre o Início), de Heidegger (GA70)
1. A leitura expositiva de Sobre o Início, no capítulo 6, já vinha infundida de certa perplexidade quanto à trajetória de pensamento heideggeriana nesse volume, perguntando-se aonde ele vai, como se deve entender esse “descenso à partida” e esse “deixar passar” a implantação maquinacional dos entes, tanto com relação ao que Heidegger chama de história quanto ao que acontecia historicamente num sentido mais “ôntico”, e como se deve entender o surgimento da noção do “sem-ser” nesse contexto e aonde isso conduz quanto à questão da “simultaneidade” e diferença entre beyng e entes, sendo essas as principais questões perseguidas neste capítulo.
O Pensamento Heideggeriano da História
2. Ocorre uma mudança com relação à história quando Heidegger deixa passar a maquinação, podendo dizer-se que, ao fazê-lo, se afasta ainda mais de uma “história” mais comumente entendida, tendo, em Contribuições, enfatizado que a história acontece como decisão, sendo essa decisão ao mesmo tempo lançada como a decisão da história para um povo.
3. Considerando que a tentativa heideggeriana nos escritos poiéticos sempre foi pensar não representacionalmente e a partir de um senso de ser, responsivo a um chamado apropriador do beyng, em Sobre o Início parece ter feito “progresso”, havendo momentos em que articula a inceptividade do início, o “tomar-para-si e capturar do que é apropriado”, momentos que deixaram para trás o pensamento linear.
4. Mas o que é essa “história” tão despojada de qualquer coisa ou acontecimento concreto, de qualquer entidade humana? Onde acontece? E por que Heidegger insiste em pensar a história cada vez mais inceptivamente, cada vez mais removida do acontecer concreto das coisas?
5. Certamente, Heidegger não abandona por completo a narrativa da transição da metafísica ao pensamento do evento, tendo-se destacado, ao final do capítulo 7, também uma luta em sua tentativa de pensar a história não metafisicamente, fazendo clara diferenciação entre história e historiografia, mas sendo menos claro até que ponto ele ou qualquer um pode pensar “puramente” historicamente de modo inceptivo (no sentido heideggeriano).
6. Em Besinnung, onde Heidegger medita mais extensamente sobre historiografia e tecnologia, aponta (entre outras coisas) que a Historie entrincheira no sujeito a relação com os entes e que evade a história no sentido de uma decisão enraizada no beyng, exibindo o historiador no sentido tradicional a história diante de seu olhar mental, olhando e representando o passado como uma série de acontecimentos, de fatos históricos utilizáveis para explicar o presente.
7. O que se perde numa abordagem da história enraizada na subjetividade é um senso da estranheza e alteridade da história (sua não contemporaneidade e distância), bem como a percepção de que não somos nós que “temos” história, mas a história que nos tem e em sua maior parte escapa a nosso alcance.
8. Pode-se, claro, questionar se Heidegger realmente renuncia a uma posição de poder em sua visão da história — não seria o gesto de capitular diante do abandono dos entes pelo ser e de submeter-se à retirada do ser, de renunciar à “publicidade ruidosa” em prol do caminho solitário da quietude do beyng, ainda uma forma de poder, um entregar-se a e assim participar do poder maior ou antes mais profundo e mais oculto? Não seria isso ainda outra máscara daquilo que Nietzsche chama o ideal estético?
9. A ênfase heideggeriana na dignidade do beyng poderia igualmente ser construída como o último recurso de autoafirmação de alguém que perdeu tudo: tudo se perdeu… e, no entanto, permanece dignidade na pobreza — mas o que se ganha ao ler Heidegger desse modo? Que nos colocamos em posição de poder com relação a seu modo estranhante de pensar?
10. Há vulnerabilidade fundamental à qual se está exposto ao reconhecer plenamente o que o lançamento (thrownness) implica, e que não se pode escapar do que aconteceu e talvez também do que não acontecerá, expressando o amor fati nietzschiano essa vulnerabilidade também, embora, ao amar nosso destino, talvez não estejamos simplesmente sofrendo-o passivamente.
11. Ser historicamente, geschichtlich sein, implicaria então, em contraste com o ponto de vista historiográfico (historisch), uma aceitação do ser histórico, do que quer que seja dado, do “dom” do ser; implicaria um suportar a história em vez de dominá-la, podendo talvez ler-se nessa chave a partida inceptiva de que Heidegger fala em termos da essência mais própria da história do beyng.
12. A questão permanece: onde acontece a história, se se segue o pensamento heideggeriano de que a história não é senão o acontecer do evento como início? Uma vez que a história ainda requer um ente (Seiendes) para acontecer, e não acontece com coisas maquinacionalmente implantadas, o único espaço ou tempo-espaço em que acontece é quando o pensamento acontece, acontecendo a história no pensamento heideggeriano apenas enquanto ele está pensando, acontecendo num pensamento que ao mesmo tempo se esforça por deixar toda subjetividade para trás e por estar responsivamente disposto para “aquilo” que se dá ao pensamento.
13. Contudo, “aquilo” que se dá ao pensamento quando o pensamento ocorre mais inceptivamente não é um “isso”, não é nada substancial, mas é o evento do vir-à-palavra do evento, a menos que Heidegger medite sobre o primeiro início, o que repousa sobre sua interpretação de alguns textos canônicos da tradição ocidental, e a menos que interprete o que acontece ao seu redor em termos de maquinação e vivência, pertencendo isso também à história, mas apenas na medida em que pode ser recolhido ao pensar o evento como início.
14. Lembra-se de quando se leu pela primeira vez a preleção heideggeriana Introdução à Metafísica, do semestre de verão de 1935, lida à luz de Contribuições, sendo fascinante o relato dramático que ali dá do início grego da filosofia — recorrendo ao coro da Antígona de Sófocles: os gregos estavam expostos ao poder avassalador da natureza (φύσις) e se encontravam compelidos a tomar uma postura em meio a ela, tendo de se agarrar ao que se mostrava — aos entes — e vindo a cultivar uma postura diante dos entes de tal modo que pensamento e ser eram de-cididos, fendidos.
15. O relato que se obtém em Sobre o Início do primeiro início parece amplamente ter sido despojado desse pathos mais dramático; o Fortgang, a partida que marca o movimento do primeiro início quando os entes são deixados a si mesmos, é tão quieto e “subterrâneo” quanto a partida ao abismo no outro início (embora se deva confessar que a noção do Aufstand dos entes, usada por Heidegger na seção 9 ao falar do início da metafísica — Aufstand significa literalmente erguer-se contra e é usado no contexto de rebeliões — seja reminiscente de sua descrição anterior da força da presença dos entes).
Permanecer no Início
16. A conclusão que as reflexões anteriores sugerem é que somente num pensar o evento como início, isto é, no pensamento heideggeriano, a história ocorre inceptivamente; somente no pensamento o evento encontra sítio, podendo acrescentar-se que o beyng ou a história também acontece no pensamento de Hölderlin, mas ali (como se verá no capítulo 8) ocorre diferentemente.
17. Há duas seções em Sobre o Início onde Heidegger medita sobre o beyng como Bleiben, permanência, falando, na seção 10, de uma ambiguidade (Zweideutigkeit) na noção de “permanência”, dependendo de se o presenciar (beyng) é tomado no egresso (o descenso que marca a transição ao outro início) ou o presenciar é solidificado em algo presente.
18. Quando se pensa “permanência” em termos de “não deixar a inceptividade”, é quando se pensa “historicamente contra todo hábito metafísico”, sendo assim a verdadeira Geschichtlichkeit extrapolada de todo pensamento linear do tempo.
19. Na seção 20, Heidegger passa a pensar como “Ausbleiben” o modo mais puro [reinste] de permanecer [bleiben], por ser inceptivo e sainte, significando Ausbleiben usualmente que algo não acontece ou deixa de aparecer, querendo, como de costume, que se ouça a palavra mais literalmente, de modo que se enfatize o “bleiben”, traduzindo-se por “manter-se ausente”.
20. Ao passo que, em Contribuições, o manter-se ausente marca o temporalizar e o espacializar do tempo-espaço de decisão sobre a história ou a falta de história, em Sobre o Início Heidegger pensa o manter-se ausente como abrindo a chegada do egresso e como o sítio onde a história verdadeiramente acontece, tendo seu pensamento encontrado uma permanência no manter-se ausente.
21. Mas, novamente: que tipo de história (Geschichte) é esse acontecer “fracamente iluminado”? E quanto à ideia heideggeriana, apenas poucos anos antes (“A Origem da Obra de Arte”, por exemplo), de que a história acontece na abertura de um mundo? Para onde foi o mundo? E para onde foram os entes que, segundo seu pensamento em Contribuições, são o que abriga a verdade (a partir do Da-sein)?
22. Ainda na seção 20 de Sobre o Início, Heidegger escreve que o manter-se ausente se apartou dos entes (die Verabschiedung des Seienden), não efetuando tal apartar-se nada com relação aos entes, e, no entanto, permitindo aos entes serem “elevados acima de si mesmos” e surgirem na abertura de outro modo lhes recusada: “o apartar-se primeiro traz os entes (à maneira do evento, não como um nexo de efeitos) à raridade de sua simplicidade essencial e de seu caráter de primeira vez [Erstmaligkeit] próprio ao beyng.”
23. Parece paradoxal: os entes, ao se apartarem dos entes, primeiro se erguem para o aberto, podendo dizer-se, ao comparar esse pensamento novamente com Contribuições, que ali o tempo-espaço do abismo ainda está por fundar-se nos entes, ainda precisando encontrar sítio concreto através do abrigamento da verdade nos entes.
24. Isso traz de volta a questão da relação entre beyng e entes (a questão da simultaneidade e diferença entre beyng e entes), que agora precisa levar em conta também o sem-ser (ou sem-nada).
Os Entes e o Sem-Ser
25. O modo como Heidegger aborda ou trata os entes muda com Sobre o Início, mudando também seu “lugar” no pensamento do evento, parecendo, especialmente ao pensar naquela passagem em que diz que os entes (como sem-ser) são de algum modo mais antigos do que o ser, radicalizar-se a simultaneidade de ser e entes de que falava em Contribuições, porque de modo algum se pode pensar o beyng como fonte ou gerador dos entes.
26. Pobreza e dignidade são o que Heidegger encontra na partida ao sem-ser, tendo-se sugerido, no capítulo 5, que talvez essa nova disposição no pensamento heideggeriano estivesse conectada à guerra, especialmente ao se considerar o texto em que fala da estranheza da guerra (das Seltsame des Krieges).
27. Em Living with Indifference, Charles Scott explora diferentes formas de indiferença, destacando sempre o caráter de voz média que os eventos de indiferença carregam, tendo-se explorado, em artigo escrito em sua homenagem, a dimensão corpórea da indiferença, argumentando que podemos estar dispostos à indiferença das coisas e acontecimentos porque carregamos indiferença conosco em nossos corpos.
28. “Meu” corpo indiferente é um “outro” pertencente a “mim” (ou “eu” a ele) que ecoa a alteridade de todos os entes singulares que posso ou não encontrar, entes em sua indiferença a “mim”, a meus desejos e esperanças (podendo tornar-se fecundo, para pensar o corpo indiferente, o quiasma merleau-pontyano de carne tocante tocada) — mas se estaria ainda aqui pensando com Heidegger?
29. Parece, no entanto, que a noção do sem-ser como “anterior” ao ser e assim não efetuado pelo “Ser” [sic] traz o pensamento heideggeriano à beira de pensar uma alteridade que antes não podia pensar, na medida em que seu pensamento se mantinha numa tensão (a atração da retirada do beyng que precisava ser suportada) que não podia permitir o acontecer indiferente das coisas.
30. Parece, além disso, que, em certo aspecto, pensar a diferença entre beyng e entes segundo as noções de sem-ser e sem-nada aproxima Heidegger da différance derridiana, uma vez que o sem-ser não é sequer nada (e assim o “sem-nada”), havendo uma “qualidade de superfície” no sem-ser, uma vez que “ele” é sem profundidade, não tem voz, não carrega disposição alguma (ou terá?), sendo o sem-ser tão silencioso quanto o “a” de différance.
31. Ainda assim, a proximidade entre Heidegger e Derrida tem seus limites: para Derrida, jamais se pode simplesmente deixar a metafísica, daí a necessidade de questionar seus limites e expor suas operações se se quer abrir espaço para o que é excluído no discurso metafísico.
Transformação: Morte e Início
32. A transformação, para Heidegger, acontece num retorno ao início por baixo da implantação dos entes; não pode ocorrer através dos entes, sendo os entes sem-ser e sem-nada até que um “entremeio” seja clareado e o ser venha-para-o-entremeio e deixe os entes surgirem como entes.
33. Haveria ainda aqui uma linhagem cristã em ação no pensamento heideggeriano: transformação através da morte? Por outro lado, a ideia de morte e renascimento é mais antiga do que o cristianismo e não limitada ao Ocidente, talvez porque qualquer humano possa testemunhar os ciclos de vida e morte.
34. E quanto às mudanças que acontecem com os corpos que chamamos nossos (crescimento ou tumores, e decadência)? E quanto às mudanças “materiais” nas quais estamos fisicamente entrelaçados? Clima, habitat, edifícios, ritmos de acontecimentos que marcam nossas vidas cotidianas? Como se deveriam pensar essas coisas com Heidegger? São elas sequer uma questão para ele?
35. Há poucos anos, ao ser lembrada de um poema de Petrarca baseado nas Metamorfoses de Ovídio, ocorreu-lhe que havia um tipo de transformação que Heidegger não podia ou não queria pensar, ocorrendo as metamorfoses que o poeta descreve através de transformações físicas que também aborda como “transfigurações”.
36. Teria Heidegger talvez tocado em pensar uma transformação através dos entes ao falar da prioridade do sem-ser e do vir-para-o-entremeio do ser no antigo sem-ser? Pode-se também perguntar se a transformação em seu pensamento — o movimento de deixar ser o abandono dos entes pelo ser — não poderia ser descrita em termos de uma transfiguração ou transfigurações.
37. Acredita-se que sim, mas, ao fazê-lo, afastou-se consideravelmente do pensamento heideggeriano, requerendo pensar as transformações em seu pensamento como determinadas não apenas pelo chamado silencioso do beyng, isto é, a partir de uma disposição sem origem aparente que ao mesmo tempo é “histórica” de algum modo — pensar essas transformações como determinadas também pela transformação de coisas e acontecimentos “concretos” — que se leve a simultaneidade de beyng e entes mais longe do que Heidegger o fez, e que se abandone a narrativa da história do ser reunida, em 1940, em sua narrativa “do” início.
38. A dimensão inceptiva de ser e pensamento que Heidegger buscou em seus escritos poiéticos implicava um ativo “desviar o olhar” das coisas, desdobrando-se cada vez mais como prática disciplinada de permanecer com nada além da palavra do início, a palavra silenciosa e inceptiva, o que finalmente o conduziu a uma coletânea de pensamentos que considerou digna do título simples: O Evento.