A Europa, desde a irrupção da filosofia, sendo animada de um interesse para uma “figura normativa situada no infinito”
A vida se universalizando, graças à filosofia, pois o depositário das tarefas infinitas da theoria extravasa a soma de “todas as pessoas reais e possíveis” e de todas as tradições nacionais: é a humanidade
A theoria, funcionando como uma norma infinita, não acarretando no entanto ruptura com a prática, mas transformando-a profundamente
A theoria universalizando a prática, subordinando-a a um trabalho dos uns com os outros e dos uns para os outros (um Miteinanderarbeit) focado na pesquisa, a compreensão, a educação
A theoria conduzindo a existência a se compreender sub specie aeterni (69)
A objeção de Husserl a si mesmo sobre se este quadro não trai um retorno ilusório a uma Aufklarung suspeita, grosso modo ao racionalismo dos séculos XVII e XVIII
A resposta negativa de que este racionalismo estava a extraviar-se: era um “sich verirrenden Rationalismus”
O extravio do racionalismo sendo a raiz da crise de que ele trata, segundo ele
O extravio se devendo a uma ingenuidade fundamental cujo nome o mais geral é o de objetivismo ou ainda de naturalismo
A lacuna essencial do objetivismo e do naturalismo sendo a ausência de reflexão, de Selbstbesinnung
O reconhecimento de Husserl de ser herdeiro do idealismo alemão: “der deutsche Idealismus ist uns in dieser Einsicht langst vorausgegangen”
O idealismo alemão, segundo ele, já se tendo “esforçado com paixão de superar esta ingenuidade” objetivista
A ingenuidade objetivista, fonte da crise europeia, sendo não somente unilateral, mas absurda
O absurdo de “conferir ao espírito uma realidade natural, como se fosse um anexo real (real) dos corpos, e de pretender atribuir-lhe um ser espaço-temporal no interior da natureza”
“A subjetividade que cria (leistende) a ciência não tem o seu lugar legítimo em nenhuma ciência objetiva”
A ignorância obstinada do objetivismo ou do naturalismo de que a “natureza viva” de que se reclamam é ela mesma “a obra do espírito que a explora e ela pressupõe por conseguinte a ciência do espírito”
As formulações quase hegelianas sob a pena de Husserl, já que o idealismo alemão lutou apaixonadamente contra este desconhecimento
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“O Espírito, e mesmo só o Espírito, existe em si e para si; só, ele repousa sobre si e pode, no quadro desta autonomia e somente neste quadro, ser tratado de uma maneira verdadeiramente racional, verdadeira e radicalmente científica”
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A suficiência do Espírito a si mesmo só se dando quando o Espírito, cessando de se virar ingenuamente para o exterior, retorna a si e permanece em casa e puramente em casa (bei sich)
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A universalidade do Espírito absoluto abraçando tudo em uma historicidade absoluta onde a natureza se incorpora enquanto é uma obra do espírito
A não coincidência das formulações com a terminologia de Hegel
A concepção de historicidade autêntica em Husserl sendo o processo de realização de um plano racional a despeito das vicissitudes e para além do diverso eventencial, como em Hegel
A concepção deste processo como um trabalho, como em Hegel
O concurso dos indivíduos sendo suposto por este trabalho, mas estes não sendo senão os agentes ou os funcionários de uma entidade que os ultrapassa, como em Hegel: o Espírito em si e para si, só verdadeiro depositário ou titular da historicidade
O sentido do processo só se revelando à ciência das ciências, ou seja, à filosofia, como em Hegel
A diferença maior, quanto à história, consistindo em que em Hegel a filosofia se detém no registro pacífico da comemoração, enquanto em Husserl ela se detém no registro heroico da tarefa
PS: DUPOND, Pascal; COURNARIE, Laurent (ORGS.). Phénoménologie, un siècle de philosophie: Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty, Arendt, Patočka, Levinas, Dufrenne, Maldiney, Henry, Marion, Richir. Paris: Ellipses, 2003.