Diferente das reações de outros intelectuais alemães atingidos pela derrota e pela desnazificação, Heidegger mantém uma atitude fundamental serena e não se entrega nem à autocompaixão agressiva, como Carl Schmitt, nem a uma autocrítica política explícita, como Alfred Baeumler.
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Schmitt, apesar de sua implicação mais profunda com o regime nacional-socialista, assume uma pose de silêncio heroico e de vítima acossada, ocupando-se incessantemente de sua defesa e manifestando desprezo pelos processos de depuração.
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Baeumler, por sua vez, empreende um rigoroso exame autocrítico que o leva a diagnosticar em si mesmo e nos alemães uma tendência à abstração e à fuga da realidade política em direção a ideias absolutas, valorizando positivamente a democracia como o “antisublime” e carente de certezas metafísicas.
Heidegger, ao contrário, reveste-se da função do “sábio da montanha”, pensando o abuso da modernidade em grandes panoramas que incluem, mas não tematizam explicitamente, os crimes do nacional-socialismo.
O primeiro documento público do pensamento de Heidegger após 1945 é a “Carta sobre o humanismo”, escrita como resposta a uma pergunta de Jean
Beaufret, figura central para a recepção de Heidegger na França do pós-guerra.
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A pergunta de Beaufret, “De que maneira é possível dar um novo sentido à palavra humanismo?”, oferece a Heidegger a oportunidade de travar uma disputa indireta com o existencialismo de Jean-Paul
Sartre, cujo ensaio “¿Es el existencialismo un humanismo?” (1945) tornara-se um fenômeno cultural europeu.
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Sartre proclama um humanismo baseado na liberdade radical e na responsabilidade do indivíduo, para quem a existência precede a essência e não há valores dados, pois estes devem ser inventados e realizados através da ação e do compromisso, fundando assim a possibilidade de uma comunidade humana.
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Esta mensagem de autocriação e responsabilidade em um mundo sem Deus ecoou profundamente na Alemanha do pós-guerra, mergulhada em ruínas e na necessidade de um novo começo.
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O debate sobre o humanismo no pós-guerra não se limita ao existencialismo ateu, mas inclui respostas desde um humanismo cristão que critica o vazio da transcendência sartriana.
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Gabriel Marcel argumenta que a secularização e a perda de uma transcendência verdadeira entregam o homem ao mundo sem reservas, o que conduz à idolatria de fins intramundanos, como a raça ou a classe, e à falta de liberdade nos sistemas totalitários.
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A transcendência, para Marcel, é uma relação que exonera os homens da carga de ser tudo uns para os outros, santifica a consciência do estranho e torna suportável a confissão da finitude e da culpa, constituindo assim uma resposta espiritual aos limites do humano.
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Marcel sustenta que o homem deve se transcender em direção a algo que nunca poderá ser, para uma dimensão na qual possa “desrealizar-se”, evitando assim que o mundo se torne um inferno.
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Na Alemanha, pensadores como Reinhold Schneider e
Romano Guardini defendem posições semelhantes, insistindo que a relação com Deus, e não um projeto humano, é o único que pode salvar o homem da culpa coletiva e oferecer sentido após a catástrofe, interpretando o fim da época moderna como uma oportunidade para redescobrir o homem “nu” diante de Deus.
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Diante destes humanismos, tanto o ateu quanto o cristão, e diante do clima intelectual da Alemanha do pós-guerra, caracterizado pela desconexão entre o espírito elevado e a realidade política concreta, Heidegger desenvolve em sua carta uma reflexão que pretende ir além do próprio humanismo.
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Dolf Sternberger, entre outros, critica a tendência do espírito alemão a evadir-se em abstrações e a desdenhar a esfera política concreta, advogando por um cultivo da liberdade civil e uma cultura encarnada nos assuntos humanos, em vez de discursos sobre valores superiores indeterminados.
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A situação política imediata apresentava dilemas concretos e urgentes, como a validade dos processos de Nuremberg, a desnazificação, a ameaça comunista ou a construção de uma democracia em um povo sem tradição democrática, questões que a política real começava a resolver de modo pragmático, à margem dos debates espirituais.
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Observadores como Hannah
Arendt diagnosticavam na Alemanha do pós-guerra uma apatia política, uma fuga da realidade e uma “estupidez” intelectual que buscava as causas da catástrofe em abstrações metahistóricas, esquivando-se da responsabilidade por ações políticas concretas.
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Neste contexto, a “Carta sobre el humanismo” de Heidegger pode parecer politicamente desconectada das urgências práticas, mas seu propósito não é oferecer orientação política concreta, e sim recapitular seu próprio caminho do pensamento e abrir um horizonte para pensar os problemas fundamentais.
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O texto se apresenta, assim, como um documento do “crescente seguir adiante” do pensamento heideggeriano e um balanço de sua trajetória, contendo em germe toda sua filosofia tardia.
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Heidegger inicia suas reflexões pelo compromisso do pensamento consigo mesmo, com a “coisa do pensar”, para então, a partir daí, abordar a questão do humanismo.
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Para Heidegger, a concepção vulgar do pensamento está presa a uma “interpretação técnica” que o subordina à ação e à utilidade, uma visão que remonta a
Platão e que intimida a filosofia, levando-a a querer emular as ciências e a perder sua relação com a experiência originária.
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O lugar autêntico do pensamento não é a teoria abstrata, mas a proximidade da experiência imediata do ser-no-mundo, aquela “cercania” tematizada em “Ser e tempo” como o ser-afetado originário que precede toda objetivação científica.
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No entanto, pensar essa proximidade é uma tarefa paradoxal, pois o pensamento tende a distanciar e mediar; o verdadeiro pensar acontece quando “se rompe” nessa dificuldade, constituindo um “pensar que fracassa” em seu intento de apreender, mas que assim se mantém aberto ao seu assunto próprio.
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O pensamento, em sua acepção autêntica, não é nem teórico nem prático, mas acontece antes de tal distinção; ele é a “lembrança do ser” e nada mais, não produz resultados ou efeitos práticos, mas satisfaz sua essência simplesmente ao ser.
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A tarefa suprema desse pensamento é “deixar que o ser seja”, uma fórmula que condensa toda a filosofia tardia de Heidegger e que implica uma atitude de abertura, recepção e custódia, em contraste com a atitude projetiva e dominadora da metafísica.
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Em relação ao humanismo, Heidegger sustenta que sua concepção, seja teônoma ou autônoma, não experimentou ainda a “dignidade autêntica do homem”, pois não o situa em uma altura suficiente.
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O homem não é um animal racional entre outros, mas o “pastor do ser”, aquele ente em cujo aberto o ser vem à palavra e se ilumina, analogamente ao que
Schelling pensara sobre a natureza que abre os olhos em si mesma no homem.
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Deste modo, Heidegger pensa “contra” o humanismo, não para defender a barbárie, mas porque o humanismo não eleva suficientemente a humanitas do homem, ao mantê-lo preso a uma determinação ôntica ou moral que ignora sua relação essencial com o ser.
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A distância entre Heidegger e Sartre é abismal: enquanto Sartre confia ao homem abandonado a invenção de seus valores, Heidegger busca uma experiência do ser que dispõe o homem para uma relação de devoção, recolhimento e gratidão, análoga à religiosa, mas sem a figura de um Deus pessoal.
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O “ser” heideggeriano não é Deus, mas a clareira (Lichtung) que torna possível todo encontro com os entes; experimentá-la transforma por completo a relação com o mundo, ainda que aparentemente “nada” aconteça no sentido de um efeito prático imediato.
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A “Carta sobre o humanismo” marca, assim, o viragem (Kehre) no pensamento de Heidegger, deslocando o acento da existência ativa e projetiva do ser-aí para a êxtase receptiva diante do ser que se dá.
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Este pensamento posterior dedicar-se-á a examinar essa nova mirada sobre o mundo na técnica, na arte, na linguagem e na poesia, esforçando-se sempre por “deixar que aconteça aquele ser que faz que um mesmo seja”.