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Romano reformula a subjetividade à luz de sua teoria do evento, propondo o termo advenant (do verbo francês advenir, “advir”) como nova concepção do ser humano capaz de experimentar eventos, em contraste com as noções tradicionais de sujeito na fenomenologia, que reduzem a experiência a meros fatos e obscurecem a fenomenalidade singular dos eventos.
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Definição fundamental do advenant: “um ser humano constitutivamente aberto a eventos, na medida em que o humano é a capacidade de ser si mesmo diante do que nos acontece” (ROMANO, Event and World, p. 20), onde a experiência do evento é inseparável da ipseidade (selfhood) e do mundo, transformando ambos através de um processo hermenêutico que Romano denomina “hermenêutica eventual”.
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Relação etimológica entre advenant e événement (evento): ambos compartilham a raiz no verbo venir (“vir”), com o prefixo ad- indicando direção (“em direção a”) e é- sugerindo origem (“a partir de”), o que sublinha a centralidade do evento como origem da subjetividade, em oposição à noção tradicional de sujeito como substância ou hypokeimenon (o que está “debaixo” ou “por trás” do que acontece).
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Crítica à concepção tradicional de sujeito: Romano argumenta que o sujeito, entendido como
hypokeimenon (termos aristotélicos retrabalhados por Boécio e
Descartes), é um obstáculo para a compreensão dos eventos em seu sentido eventual, pois pressupõe uma entidade substancial imutável que reduz eventos a meros acidentes ou atributos, impedindo qualquer transformação radical da
ipseidade pelo evento.
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O advenant como processo de “subjetivação”: não é uma entidade fixa, mas um “processo contínuo de vir-a-ser” (coming-to-be) através dos eventos, onde a ipseidade é constituída a posteriori pela exposição aos eventos, especialmente pelo evento primordial do nascimento, que inaugura a “aventura humana” e reconfigura as possibilidades existenciais.
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Distinção entre advenant e Dasein heideggeriano: embora Romano parta da crítica heideggeriana ao sujeito moderno, ele rejeita a centralidade do Dasein como condição de possibilidade do mundo, argumentando que o Dasein permanece preso a uma forma de transcendentalismo que oculta a fenomenalidade dos eventos, reduzindo-os a fatos inautênticos ou à mera “eventualidade do ser” (o único evento autêntico para o Dasein é a morte).
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Crítica ao transcendentalismo em Ser e Tempo: Romano identifica uma “bifurcação do mundo” em Heidegger, onde o mundo ontológico (desvelado pelo Dasein) é distinto do mundo fático (objeto do ceticismo), o que reproduz, em nível existencial, a separação cartesiana entre res cogitans e res extensa, apesar da pretensão heideggeriana de superá-la através da noção de ser-no-mundo.
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O advenant como alternativa não-transcendental: propõe uma “hermenêutica dos eventos” que precede qualquer análise existencial do Dasein, pois o evento — especialmente o nascimento — é a condição a posteriori de toda subjetividade, invertendo a hierarquia tradicional entre sujeito e mundo e eliminando a necessidade de um a priori transcendental.
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Relação com a antropologia fenomenológica de Blumenberg: Romano alinha-se à proposta de substituir a pergunta “O que é o homem?” por “Como o homem é possível?”, focando na existência e transformação através da experiência, em vez de uma definição ousiológica (substancial) da humanidade, o que converge com a noção de advenant como ser finito e temporal, constituído pelos eventos que o afetam.