Segundo polo organizador das reflexões subsequentes: fenomenalidade enquanto abertura à realidade mesma, constituindo em substância a questão do realismo; forte divisão da fenomenologia histórica entre representantes que admitiram virada transcendental de Husserl e seguiram seus passos — Eugen
Fink, Ludwig Landgrebe e, em menor medida, primeiro Heidegger — professando superioridade do idealismo sobre realismo, e outros que adotaram posição diametralmente oposta, particularmente principais representantes do Círculo de Göttingen — Adolf Reinach, Edith Stein, Johannes Daubert, Theodor Conrad, Jean Hering — assim como Roman
Ingarden.
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Razões diversas — peso intelectual da tradição cartesiana, importância do kantismo e do idealismo na filosofia francesa, marca deixada pelo espiritualismo francês — pelas quais recepção da fenomenologia na França amplamente desconheceu importância de toda corrente realista, continuando a identificar idealismo transcendental de Husserl com totalidade da fenomenologia, aceitando no máximo opor a esse idealismo apenas críticas oriundas da formulação heideggeriana da
Seinsfrage; persistência dessa situação durante segunda florescência da fenomenologia na França a partir dos anos 1980, sob impulso de nova geração de pesquisadores tendo sucedido àquela de
Sartre, Merleau-Ponty e Ricœur, depois à de
Henry.
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Apesar de considerável esforço de tradução concernente sobretudo Husserl, Heidegger e Patočka, e em menor medida Fink, fenomenólogos realistas permaneceram grandes ausentes desse renovado interesse, situação que perdura ainda hoje, não obstante trabalhos de Kevin Mulligan ou Barry Smith.
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Proposta não de retorno às fenomenologias realistas dos anos 1910-1920 ou ulteriores, mas de considerar renovadamente questão de realismo fenomenológico à luz de debates contemporâneos; convicção de que não apenas realismo pode aportar algo à fenomenologia, mas fenomenologia pode aportar algo à formulação de realismo; realismo descritivo ou fenomenológico almejado define-se não unicamente em oposição a idealismo, mas contrasta igualmente com realismo causal, geralmente naturalista por estar enraizado em teoria causal da percepção, que não pode escapar, segundo posição defendida, nem a preconceitos de metafísica da representação mental, nem a desafio cético de causalidade sobre nossos sentidos que se revelaria global e sistematicamente desviante.
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Realismo fenomenológico acompanhado de defesa da noção de essência, criticada de maneira pouco conclusiva por numerosas correntes filosóficas do século XX — do empirismo lógico vienense ao nietzscheanismo francês — mas recentemente reabilitada por certos representantes da filosofia analítica no rastro dos trabalhos de Saul Kripke; demonstração de por que afirmação da existência de verdades de essência suscetíveis de fornecer ponto de ancoragem às descrições fenomenológicas não acarreta nem dogmatismo — na medida em que busca dessas verdades de essência é falível e não repousa sobre nenhum procedimento subtraído por princípio ao erro — nem hipóstases platônicas supérfluas.
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Última parte do trabalho compreendendo certo número de análises fenomenológicas mais particulares, consagradas ao corpo, à experiência de outrem (
Autrui), à vida afetiva e emocional, à memória prática, apresentando-se também como amostras de método; representação de tantas sondagens na matéria inesgotável oferecida a fenomenologia; repouso dessas descrições, como método fenomenológico em geral tal como concebido, sobre identificação de verdades de essência iniciais e sobre formulação de questões transcendentais visando trazer à luz condições de possibilidade — ou antes de descritibilidade — desses estados de coisas essenciais.
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A partir do momento em que se abandona terreno das verdades de essência, isto é, onde se formulam questões transcendentais implícitas ou explícitas, única metodologia que permanece sendo método hermenêutico: mediante confrontação de diferentes interpretações desses estados de coisas essenciais, tornando-se possível avaliar essas interpretações em função de seu alcance descritivo, ou seja, de sua capacidade de dar conta de maior número de características de essência dos fenômenos considerados; método mantendo-se a igual distância de dogmatismo que pretenderia aceder a descrição única e unívoca desses estados de coisas e de relativismo que postularia possibilidade de infinidade de descrições igualmente válidas e impossíveis de hierarquizar.
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Esforço demonstrativo de que, entre traços essenciais pertencentes à fenomenalidade das emoções — caráter motivado por razões, acompanhamento necessário por manifestações corporais, enraizamento em normas vitais — descrições avançadas por Husserl e Heidegger de nossa vida afetiva não conseguem fazer justiça a vários deles: para Husserl, objetividade das razões que motivam nossos sentimentos e dimensão corporal destes; para Heidegger, objetividade dos motivos emocionais e condicionamento por normas vitais que permanecem irredutíveis ao plano existencial onde se situam suas análises.
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Estabelecimento de que, contrariamente ao que acreditaram numerosos fenomenólogos que tomaram distinção Leib/Körper por evidência, essa distinção permanece estreitamente solidária, em Husserl, de seus postulados idealistas e de seu edifício transcendental inteiro, para poder ser considerada subtraída a toda crítica; esboço de análise concorrente do corpo fenomenal tal como se entrega a nós, no mundo da vida, do ponto de vista de nossa experiência primordial — descrição incompatível com distinção carne/corpo (chair/corps) em suas diferentes versões, incluindo pós-husserlianas, inscrevendo-se no quadro de refundição realista do conceito de Lebenswelt.
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Oferecimento ao leitor de alguns marcos de pesquisa em curso, sem preocupação de exaustividade nem de sistematicidade, seguindo fio condutor do método esboçado em Au cœur de la raison e inflexão realista da fenomenologia que o acompanha; sondagens menos na fenomenologia histórica que em suas possibilidades ainda em espera de realização.