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O passo decisivo além de
Dilthey não consistiu em aperfeiçoar a epistemologia das ciências do espírito, mas em questionar seu postulado fundamental, tarefa realizada por Martin Heidegger e, na sequência, por Hans Georg
Gadamer, que buscam as condições propriamente ontológicas sob o empreendimento epistemológico, substituindo a pergunta “como sabemos?” pela pergunta “qual é o modo de ser desse ente que só existe compreendendo?”.
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Em Sein und Zeit, a questão da Auslegung se junta desde a introdução à questão esquecida do ser, sendo o Dasein não um sujeito diante de um objeto, mas o lugar da precompreensão ontológica do ser, de modo que a fundação ontológica se distingue do fundamento epistemológico e a hermenêutica derivada — a metodologia das ciências históricas do espírito — se enraíza nessa hermenêutica fundamental.
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Diferentemente de
Dilthey, que ligava a compreensão ao problema do outro, Heidegger desliga inteiramente a compreensão da comunicação com outrem, fundando-a antes na relação do ser com o mundo — o ser-em —, e não no ser-com, mundanizando assim o compreender e dessicologizando-o.
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As análises do cuidado, da angústia e do ser-para-a-morte, mal interpretadas como psicologia existencial, visam antes arruinar a pretensão do sujeito conhecente e reconquistar a condição de habitante do mundo a partir da qual há situação, compreensão e interpretação, sendo o encontrar-se e o sentir-se anteriores a qualquer orientação.
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A compreensão, descrita em termos de poder-ser e não de discurso, orienta numa situação e se estrutura como projetar dentro de um ser-lançado prévio — o sempre-já que separa Heidegger de
Sartre —, sendo apenas em terceira posição, na tríade situação-compreensão-interpretação, que surge o momento ontológico que interessa ao exegeta.
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O célebre círculo hermenêutico, que parecia um círculo vicioso quando enunciado nos termos de sujeito e objeto, é reinterpretado por Heidegger como estrutura de precompreensão — feita de acervo prévio, visão prévia e antecipação —, de modo que o essencial não é sair do círculo, mas nele penetrar corretamente.
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A filosofia de Sein und Zeit não é uma filosofia da linguagem, pois a questão do discurso (Rede) só é introduzida após as de situação, compreensão e interpretação, sendo o dizer (reden) superior ao falar (sprechen) e o ouvir constitutivo do discurso, de modo que o dizer remete às coisas ditas, e não ao homem falante.
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A aporia diltheyana não é resolvida por Heidegger, mas apenas deslocada e agravada, pois a filosofia heideggeriana pratica o movimento de remontada aos fundamentos sem conseguir realizar o movimento de retorno que reconduziria à questão epistemológica do estatuto das ciências do espírito, permanecendo em aberto como dar conta de uma questão crítica no quadro de uma hermenêutica fundamental.
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Essa aporia torna-se o problema central da filosofia hermenêutica de Hans Georg
Gadamer em Wahrheit und Methode, organizada em torno do escândalo da distanciação alienante (Verfremdung) que se opõe ao pertencimento (Zugehörigkeit) primordial, debate percorrido nas três esferas estética, histórica e linguística da experiência hermenêutica.
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A filosofia de
Gadamer sintetiza os dois movimentos descritos — das hermenêuticas regionais à geral e da epistemologia à ontologia — e esboça, diferentemente de Heidegger, o movimento de retorno da ontologia aos problemas epistemológicos, levando a sério a questão de
Dilthey através de um longo percurso histórico que recapitula as lutas do romantismo contra o Iluminismo, de
Dilthey contra o positivismo e de Heidegger contra o
neokantismo.
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A
Dilthey é reprovado permanecer prisioneiro de um conflito entre metodologias, sem se libertar da teoria tradicional do conhecimento, uma vez que seu ponto de partida continua sendo a consciência de si mesma como senhora de si, contra a qual
Gadamer, herdeiro de Heidegger, reabilita o preconceito, a autoridade e a tradição como expressões da estrutura de antecipação da experiência humana.
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O ápice da reflexão de
Gadamer sobre a fundação das ciências do espírito é a noção de consciência da história efeitual (Wirkungsgeschichtliches Bewusstsein), consciência de estar exposto à ação da história sem poder objetivá-la, pois ela mesma faz parte do fenômeno histórico.
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A partir desse conceito de eficiência histórica, propõe-se o problema de como introduzir uma instância crítica numa consciência de pertencimento definida pela recusa da distanciação, possibilidade sustentada por três indícios: a consciência da história efeitual já contém um elemento de distância, sendo a proximidade do longínquo; o conceito de fusão de horizontes (Horizontverschmelzung) implica tensão entre o próprio e o estranho sem jamais supor um saber único e total; e a filosofia da linguagem, ao se converter de Sprachlichkeit em Schriftlichkeit — mediação pelo texto —, revela que o que faz comunicar à distância é a coisa do texto, que não pertence mais nem ao autor nem ao leitor, expressão que conduz ao limiar da reflexão subsequente.