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Duas observações preliminares se impõem antes do esboço que se segue.
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A primeira adverte contra a tendência a abordar a memória a partir de suas deficiências, privilegiando antes a descrição dos fenômenos mnemônicos do ponto de vista das capacidades em sua efetuação “feliz”, uma vez que não se dispõe de outro recurso, quanto à referência ao passado, senão a própria memória, cuja ambição de fidelidade torna o esquecimento não uma disfunção patológica, mas o reverso sombrio da região iluminada da memória, sendo o testemunho a estrutura fundamental de transição entre memória e história.
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A segunda observação propõe esboçar uma fenomenologia dispersa mas não radicalmente fragmentada, cujo fio condutor é a relação com o tempo, ainda que “ser do passado” se diga de múltiplas maneiras, como “o ser se diz de múltiplas maneiras” segundo
Aristóteles.
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A primeira expressão do caráter disperso dessa fenomenologia decorre do caráter objetal da memória — lembra-se de algo —, distinguindo-se a memória como visada da lembrança como coisa visada, e a questão do “quê” da questão do “como” e do “quem”, correspondendo, em termos husserlianos, à noese da rememoração e ao noema da lembrança.
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Um primeiro traço caracteriza o regime da lembrança: a multiplicidade e os graus variáveis de distinção entre lembranças, que se apresentam isoladas, em cachos ou em sequências propícias à narrativa, destacando-se sobre um fundo memorial difuso.
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O traço mais importante concerne ao privilégio dado aos acontecimentos entre as “coisas” lembradas, sendo o acontecimento-lembrança paradigmático por equivaler fenomenalmente ao acontecimento físico; entre os extremos das singularidades eventuais e das generalidades chamadas “estados de coisas” situam-se aparições discretas, rostos, palavras ouvidas e encontros memoráveis, assim como coisas aprendidas e retidas, aproximando-se do polo da Reminiscência platônica, exemplificada no Mênon, e culminando nos fatos históricos elevados, segundo Tucídides, à condição de “posse para sempre”.
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Diante dessa diversidade de “coisas” passadas, propõe-se uma série de pares oposicionais como guia do campo polissêmico da lembrança, à maneira dos tipos ideais weberianos ou da analogia aristotélica e da semelhança de família wittgensteiniana, dado o enredamento entre a experiência vivida pré-verbal e o trabalho de linguagem que conduz a fenomenologia à hermenêutica.
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O primeiro par oposicional é o do hábito e da memória, ilustrado pela distinção bergsoniana entre memória-hábito e memória-lembrança, ambos os polos supondo uma experiência anteriormente adquirida, incorporada de modo não marcado no primeiro caso e referida explicitamente à anterioridade no segundo, permanecendo em ambos verdadeiro que a memória “é do passado”.
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A prioridade dada ao par hábito/memória decorre de sua aptidão a ilustrar a conquista da distância temporal: exemplificada pela recitação de uma lição de cor, a memória-hábito é “agida” como parte do presente, enquanto a lembrança de tal ou qual leitura particular tem por essência trazer uma data e não poder se repetir, opondo-se a memória que repete à memória que imagina, pois esta requer abstrair-se da ação presente para sonhar.
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Esse texto bergsoniano revela a parentela entre a lição decorada e os saber-fazeres corporais e sociais mobilizados sem reflexão, cobrindo capacidades como poder falar, poder agir e poder narrar, além dos hábitos coletivos ligados à comemoração, que se distinguirão da rememoração assinalada à memória privada.
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Tratando-se de polaridade e não de dicotomia, o papel de fenômenos intermediários entre os polos bergsonianos confirma essa gradação.
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O segundo par de opostos é constituído pela evocação e pela busca.
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A evocação designa a sobrevinda atual de uma lembrança, correspondente à mnēmē aristotélica caracterizada como afeição, carregando o enigma da presença atual do ausente anteriormente percebido, questão que se distingue provisoriamente da persistência da afeição primeira — tema das neurociências sob o título dos traços mnésicos — posta entre parênteses, prevalecendo a anterioridade da “coisa” lembrada como dimensão cognitiva da memória.
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No outro polo situa-se a anamnēsis, mitificada por
Platão como reencontro de um saber pré-natal esquecido, e naturalizada por
Aristóteles como busca (zētēsis) voltada contra o rio Lete, sem que se possa decidir se o esquecimento resulta de apagamento definitivo ou de impedimento provisório, incerteza que confere à busca sua coloração inquieta, podendo o esforço de rememoração ser bem-sucedido ou fracassar.
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Quanto ao mecanismo do rememorar, evocou-se já o leque de procedimentos que vão da associação quase mecânica ao trabalho de reconstrução aproximado do raciocínio.
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Busca-se aqui um eco moderno nos textos antigos, recorrendo novamente a
Bergson, especialmente ao ensaio “Esforço intelectual” em A Energia Espiritual.
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A distinção principal recai entre o “rememorar laborioso” e o “rememorar instantâneo”, situados nos extremos de uma investigação mais ampla sobre a característica intelectual do esforço intelectual, questão relevante também às ciências cognitivas contemporâneas.
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A gradação do mais fácil, que é reprodução, ao mais difícil, que é invenção, apoia-se na distinção entre “planos de consciência” que vão do souvenir puro à imagem atualizada, servindo o esforço de rememoração de modelo para departir automatismo e reflexão, a exemplo da leitura analítica versus o esquema dinâmico, ilustrado pelo jogador de xadrez que mantém várias partidas de memória, indicando o esforço de rememoração o trajeto de descida do esquema à imagem, marcado por hesitação, resistência do hábito à invenção e coloração afetiva penosa comum a toda forma de esforço intelectual.
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Ao concluir o exame da recordação, cabe mencionar brevemente a relação entre o esforço de rememoração e o esquecimento, retomada mais adiante.
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É o esforço de rememoração que oferece a ocasião maior de “fazer memória do esquecimento”, como diz
Agostinho, testemunhando a finalidade de lutar contra o esquecimento e a coloração inquieta ligada ao temor de esquecer, tarefa que se converte no dever de não esquecer, permanecendo o esquecimento paradoxo e enigma quanto a saber se resulta de impedimento a evocar ou de desgaste inelutável dos traços deixados pelos acontecimentos, questão a articular com o saber das neurociências.
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Cabe lugar à parte à distinção husserliana, nas Lições para uma fenomenologia da consciência íntima do tempo, entre retenção ou lembrança primária e reprodução ou lembrança secundária, análises que, embora conduzam progressivamente à autoconstituição do fluxo de consciência, permitem isolar a face objetal da memória correspondente ao “souvenir”.
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A experiência descrita tem por eixo o presente do som que ressoa: enquanto continua a soar tem um presente sempre novo, e o presente precedente se transforma em passado, modificação que constitui a “retenção”, situação análoga à considerada por
Agostinho, embora
Husserl reduza o som a um puro dado hilético, cabendo distinguir o modo pelo qual algo “é dado” na continuidade do fluxo, mantendo-se a referência ao presente como fase de início.
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Uma tensão discernível na análise, anterior à distinção entre retenção e re-lembrança, opõe a fixação no presente atual à indivisibilidade do fenômeno de escoamento, tensão constitutiva do próprio fenômeno, no qual o presente se transforma continuamente ao mesmo tempo em que surge, sendo todo escoamento “retenção de retenções” que pode se recolher num ponto de atualidade comparado a uma cauda de cometa.
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Quanto ao termo eventual do enfraquecimento retencional,
Husserl fala de imperceptibilidade sem prever fim da retenção, o que deixa espaço tanto ao esquecimento inelutável quanto à persistência inconsciente do passado.
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Chamar originário o instante passado próprio da retenção equivale a negar que ela seja figuração por imagem, distinção necessária a priori entre percepção e retenção, sendo a lembrança dada como um “não-agora” que exclui o presente, e durar consistindo em superar essa exclusão permanecendo o mesmo.
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Dessa exclusão do não-agora surge uma polaridade nova dentro do próprio não-agora do souvenir: a polaridade entre lembrança primária e lembrança secundária, retenção e reprodução.
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A reprodução supõe desaparecido e de volta o souvenir primário de um objeto temporal como a melodia, não sendo mais presentação mas re-presentação — “quase ouvida” —, permanecendo classificada nas Lições de 1905 entre os modos de imaginação, cabendo distinguir imaginação posicionante e imaginação irrealizante, sendo o caráter posicional do re-souvenir que assegura a diferença entre imaginação e lembrança, correspondendo a “segunda intencionalidade” ao que
Bergson chama reconhecimento.
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É nesse ponto que uma minuciosa análise sobre a distinção entre Erinnerung e Vorstellung, reunida no volume XXIII das Husserliana, se encadeia com a segunda seção das Lições sobre a consciência íntima do tempo.
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Deseja-se encerrar o percurso das polaridades com um par de termos complementares cuja importância se revelará na transição da memória à história.
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A polaridade entre reflexividade e mundanidade opõe-se a memória de si à memória das situações mundanas — corpo próprio e alheio, espaço vivido, horizonte de mundo —, sendo a reflexividade traço irrecusável da memória em sua fase declarativa, ainda que a sobrecarga interpretativa do idealismo subjetivista, presente mesmo na fenomenologia husserliana do tempo, obstrua a relação dialética com o polo da mundanidade, malgrado a fenomenologia do Lebenswelt levantar parcialmente essa equivocidade.
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As considerações seguintes devem imensamente à obra de Edward Casey, Remembering, cuja divergência de interpretação está em situar-se além do tema da intencionalidade sob pressão da ontologia existencial heideggeriana, opondo “manter a memória na mente” a “perseguir a memória além da mente”, intercalando entre esses polos os “modos mnemônicos”, numa obra que se alinha ao propósito de resgatar do esquecimento a própria memória “feliz”.
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Quanto ao polo reflexivo, ele reagrupa termos já aparecidos nos pares anteriores — o lado hábito como o menos marcado, o esforço de rememoração como o mais marcado pela reflexividade, e a evocação espontânea e involuntária, tão cara aos leitores proustianos, situando-se entre esses extremos, com a irrupção obsessiva e a “repetição” freudiana como inverso da rememoração.
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Os três “modos mnemônicos” que Casey intercala — Reminding, Reminiscing, Recognizing — constituem fenômenos transicionais entre reflexividade e mundanidade.
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O Reminding designa indicadores contra o esquecimento, distribuídos entre interioridade e exterioridade, seja como associação mecânica no trabalho de rememoração, seja como pontos de apoio externos — fotos, cartões-postais, agendas, o famoso nó no lenço —, prevenindo tanto o esquecimento do passado quanto o esquecimento de tarefas futuras.
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O Reminiscing, mais ativo, consiste em reviver o passado evocando-o em conjunto, com o souvenir de um servindo de lembrete ao outro, encontrando forma canônica na conversação oral, além de formas interiorizadas como o diário e as memórias escritas.
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Resta o Recognizing, a reconhecência, complemento e sanção do rememorar, pelo qual se reconhece como o mesmo a lembrança presente e a impressão primeira visada como outra, altura em que a “coisa” reconhecida é duplamente outra — ausente e anterior —, com graus que vão da familiaridade à estranheza, correspondendo o grau médio ao que Casey chama trazer o evento “de volta a onde estava”, anunciando a operação crítica pela qual a história restitui seu objeto ao passado, o “ausente da história” de Michel de Certeau.
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O pequeno milagre do reconhecimento é revestir de presença a alteridade do passado, sendo a lembrança re-presentação em duplo sentido, o que constitui ao mesmo tempo uma armadilha para a análise fenomenológica.
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Resta ainda que o passado reconhecido tende a valer como passado percebido, o que aproxima reconhecimento e percepção, como na tríplice síntese kantiana de percorrer, ligar e reconhecer, e no esquema dinâmico bergsoniano como retorno à percepção.
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Concluída a travessia dos modos mnemônicos de Casey, confrontam-se fenômenos mnemônicos envolvendo o corpo, o espaço e o horizonte de mundo.
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Tais fenômenos não abandonam a esfera da intencionalidade, mas revelam sua dimensão não reflexiva: lembra-se de ter sofrido e gozado em certa época da vida, de ter habitado tal casa, de ter viajado a tal região, evocando-se do aqui todos os lá onde se esteve, como o testemunho que diz “eu estava lá”.
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Começando pela memória corporal, ela se redistribui ao longo do primeiro eixo de oposições, do corpo habitual ao corpo eventual, podendo ser “agida” como hábito ou, diante de doenças, feridas e traumas, direcionar-se a incidentes precisos que convocam a lembrança secundária e o relato, sendo o momento do despertar, tal como descrito por Proust, particularmente propício ao retorno das coisas e dos seres a seu lugar no espaço e no tempo.
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A transição da memória corporal à memória dos lugares se dá por atos como orientar-se, deslocar-se e sobretudo habitar, constituindo-se assim o fenômeno dos “lugares de memória”, que funcionam como lembretes contra o esquecimento e sustentam a ars memoriae conhecida como método dos loci.
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Esse vínculo entre lembrança e lugar coloca um difícil problema, o do grau de originariedade da datação, paralelo ao da localização, questionando-se até que ponto uma fenomenologia da datação e da localização pode se constituir sem recorrer ao espaço geométrico e ao tempo cronológico objetivos.
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Trata-se da questão de reconquistar um Lebenswelt anterior ao mundo construído pelas ciências da natureza, o que nem mesmo
Bergson evita ao caracterizar a lembrança-souvenir, em contraste com a memória-hábito, pelo fenômeno da datação, tal como confirma também a análise husserliana da consciência de sucessão como dado originário.
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Retomando a memória dos lugares, distingue-se, à maneira de Casey, o sítio da espacialidade abstrata do lugar como espacialidade vivida, sendo os lugares habitados por excelência memoráveis e servindo os lugares percorridos de lembretes aos episódios neles ocorridos.
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Colocar-se-á, no início da segunda parte, a questão de saber se um tempo histórico e um espaço geográfico podem conceber-se sem categorias mistas que articulem o tempo e o espaço vividos com o tempo e o espaço objetivos suspensos pela epoché fenomenológica.
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A questão do caráter sustentável da epoché husserliana retorna: o vínculo entre memória corporal e memória dos lugares legitima a desimplicação do espaço e do tempo de sua forma objetivada, sendo o corpo o lugar primordial, o aqui, em relação ao qual todo outro lugar é um lá, permanecendo em aberto se esse suspenso pode manter-se sem recair no espaço geométrico comum, do qual dependem os lugares de memória para exercer sua função memorial.
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Essa dificuldade agrava-se quando, seguindo Casey, se situa a comemoração ao fim do percurso que afasta a memória de seu núcleo “mentalista”, pois a gestualidade corporal e a espacialidade dos rituais comemorativos não podem eludir sua articulação com o espaço público e o calendário festivo, questionando-se se a perenização ritual não constitui o ato mais desesperado contra o esquecimento sob a forma da erosão física operada pelo tempo, conforme
Aristóteles nota que o tempo “consome” e “desfaz”.
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Sob o título “A lembrança e a imagem” atinge-se o ponto crítico de toda a fenomenologia da memória: se a lembrança é uma espécie de imagem e, sendo assim, como explicar seu entrelaçamento, dado que ambas partilham a presença do ausente mas se distinguem pela suspensão ou não de toda posição de realidade, questão herdada dos gregos e de suas variações em torno da eikōn, que retornará ao plano da representação historiadora do passado.
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Toma-se
Husserl como primeiro guia dessa investigação, cuja contribuição fragmentária ao longo de mais de vinte e cinco anos, reunida no volume XXIII das Husserliana sob o título Vorstellung, Bild, Phantasie, constitui segunda contribuição maior da fenomenologia descritiva à problemática da memória, ao lado das análises sobre retenção e re-souvenir.
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Esses textos exploram as diferenças específicas entre os correlatos “objetais” de variados atos de consciência, dificultados pelo entrelaçamento com usos anteriores de termos como Vorstellung, traduzido por “representação”, opondo-se a apresentação pura, Gegenwärtigung, própria da percepção, à presentificação, Vergegenwärtigung, própria de todos os demais atos.
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O título do volume cobre o campo de uma fenomenologia das presentificações intuitivas, na qual a lembrança figura como presentificação relacionada ao tempo, situando-se entre os modos de presentificação que compartilham a intuitividade mas diferem pela não-presentação de seu objeto, ligando-se sua determinação plena à análise da retenção e da reprodução no volume X das Husserliana.
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Quando
Husserl fala de Bild, refere-se às presentificações que representam algo indiretamente, como retratos, quadros, estátuas e fotografias, podendo traduzir-se por “depicção”.
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Quando
Husserl fala de Phantasie, refere-se a fadas, anjos e demônios das lendas, tratando-se propriamente de ficção, associada à espontaneidade da crença.
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A fenomenologia da lembrança está implicada nessas distinções e ramificações, cuja estabilização de sentido permanece árdua ao longo de intermináveis análises husserlianas.
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A distinção entre Bild e Phantasie já embaraçava
Husserl desde as Investigações Lógicas, deslocando-se depois, nas Ideen, para a modalidade de neutralidade própria da Phantasie face ao caráter posicional da percepção, ora aproximando-se do “dépeint” quando o acento recai sobre a reprodução, ora opondo-se radicalmente à lembrança quando falta à fantasia a crença de ser atribuída ao souvenir.
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O campo ora se alarga a todas as Auffassungen ora se restringe às ramificações das presentificações, jogando-se então entre o lembrado, o fictício e o depicto sobre o fundo da oposição global à percepção, cuja coisa se apresenta a si mesma diretamente.
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Sendo a lembrança uma imagem nesse sentido, comporta dimensão posicional que a aproxima da percepção, situando-se a fratura entre irreal e real, enquanto a imaginação joga com entidades fictícias fora da presentação e a lembrança põe as coisas do passado, variando as noções de “consciência de Bild” e “consciência de Phantasie” conforme a extensão reconhecida a cada uma no campo das presentificações intuitivas.
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Essa problemática englobante da presentificação será deslocada na terceira seção das Lições sobre a consciência íntima do tempo, onde a oposição entre apresentação e presentificação continua a operar, cabendo à coisa lembrada, enquanto passada, ser tida como pura Phantasie, mas, enquanto dada de novo, impor-se como modificação sui generis da percepção que suspende a fantasia, seguindo-se a sequência percepção, lembrança, ficção, marcada pela intervenção da crença.
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A linha de separação corre ao longo da fratura entre apresentação e presentificação, sendo a lembrança modificação específica da apresentação ao menos como lembrança primária ou retenção, excluindo-se assim toda confusão entre lembrança e imagem no sentido do Bild.
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As Ideen I, apesar do viés idealista, não falam outra língua quanto ao “como do preenchimento” das modalidades intuitivas, reforçando-se o critério de posicionalidade nos textos posteriores, que opõem o mundo da experiência aos mundos livres e indeterminados da fantasia.
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Se nos exercícios do volume X o acento recai sobre as modalidades temporais da presentificação e nos exercícios sobre Phantasie, Bild, Erinnerung recai sobre as diferenças entre os membros da família das presentificações, conclui-se que a parentela entre lembrança e imagem, no seio dessa família, autoriza retrospectivamente o corte que isola o momento objetal do movimento que conduz as Lições de 1905 à autoconstituição do fluxo de consciência.
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Ao fim dessa travessia com
Husserl, resta apenas metade do caminho para explicar a confusão entre imagem e souvenir, restando desvendar por que a lembrança retorna sob forma de imagem e por que a imaginação assim mobilizada assume formas que escapam à função do irreal.
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Adota-se como hipótese de trabalho a concepção bergsoniana da passagem do “souvenir puro” ao souvenir-imagem, separando-se, na medida do possível, a descrição psicológica da tese metafísica de Matéria e Memória sobre a imaterialidade da memória, o que equivale a dissociar a eikōn do tupos herdados dos gregos.
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A distinção bergsoniana entre “souvenir puro” e souvenir-imagem radicaliza a tese das duas memórias que inaugurou o esboço fenomenológico anterior, situando-se de modo intermediário quanto à estratégia global da obra.
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Admitindo um “souvenir puro” ainda não convertido em imagens, e partindo do exemplo da lição decorada, descreve-se a mise en images do souvenir como passagem do virtual ao efetivo, das trevas à luz, mobilizando-se não a função irrealizante mas a função visualizante da imaginação, aproximada do opsis aristotélico da Poética, que consiste em “colocar diante dos olhos”.
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Seguindo essa vertente do “souvenir puro” ao souvenir-imagem e além, assiste-se a uma inversão completa da função imageante, cujo espectro vai da ficção à alucinação.
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Do polo ficção da imaginação tratou-se em Tempo e Narrativa ao opor relato de ficção e relato histórico; situa-se agora no polo oposto, o da alucinação.
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Para dar conta dessa armadilha, convoca-se, ao lado de
Bergson, Jean-Paul
Sartre em L'Imaginaire, obra que, apesar de afirmar a diferença radical entre a tese da consciência imageante e a tese da consciência realizante — estando a lembrança do lado da percepção —, revela na sua quarta parte, “A vida imaginária”, que o ato de imaginação é um ato mágico de incantação que anula a ausência e a distância, preparando a compreensão da “patologia da imaginação” centrada na alucinação e na obsessão, análoga à hantise que os historiadores do tempo presente descrevem como “passado que não passa” na memória coletiva.
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Dessa descrição sartriana da inversão da função irrealizante em função alucinante resulta um curioso paralelismo entre a forma intermediária do souvenir-imagem, entre souvenir puro e reconhecimento, e uma forma intermediária da imaginação entre ficção e alucinação, correspondente à função ostensiva de “colocar diante dos olhos”.
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Uma fenomenologia da memória não pode ignorar essa armadilha do imaginário, que constitui fragilidade e perda de fiabilidade para a memória, a exemplo de certa escrita da história, à maneira de Michelet, em que a “ressurreição” do passado assume formas quase alucinatórias.
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Ao concluir, não sobre essa perplexidade, mas sobre a resposta provisória à questão de confiança que a teoria da memória transmite à teoria da história — a da fiabilidade e da verdade da memória —, afirma-se que uma exigência específica de verdade está implicada na visada da coisa passada, exigência que se declara no momento do reconhecimento e que se chamará doravante fidelidade, verdade-fidelidade do souvenir, dimensão epistêmico-veritativa cuja composição com a dimensão pragmática do exercício da memória será tarefa do estudo seguinte.