Em Que é a Literatura?, Jean-Paul
Sartre mostra que a recepção não é fato externo e contingente, mas dimensão constitutiva da própria obra, que já contém em sua elaboração uma imagem do público a que se dirige, de modo que todo texto pressupõe um leitor implícito inscrito em sua própria estrutura.
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Sartre acompanha essa tese historicamente desde o contrato clássico entre autor e público até a insegurança do escritor comprometido do século XX, incapaz de se dirigir com segurança à burguesia, à classe operária ou ao homem em geral.
Se o texto propriamente dito é apenas um conjunto de esquemas à espera de concretização pelo leitor, torna-se difícil discutir esses esquemas sem já os ter concretizado de alguma maneira, o que levanta a dúvida sobre se é possível falar de um texto idêntico sob interpretações radicalmente diferentes, questão que nem
Ingarden nem Iser conseguem resolver satisfatoriamente, ainda que Iser reconheça algum grau de determinação exercido pela obra sobre as respostas do leitor.
O crítico norteamericano Stanley Fish assume sem hesitação que não existe obra literária objetiva fora das interpretações que lhe são atribuídas, concebendo a leitura não como descoberta de um sentido, mas como experiência do que o texto provoca no leitor, de modo que a estrutura estudada pela crítica é a da experiência do leitor, e não alguma estrutura objetiva inerente à obra.
Para evitar a dissolução do texto em interpretações arbitrárias, Fish recorre a estratégias interpretativas partilhadas por leitores informados e academicamente formados, ainda que sustente que não há absolutamente nada dado na própria obra, considerando ilusória a ideia de um significado imanente à linguagem do texto, posição que ele atribui como equívoco a Wolfgang Iser.
A divergência entre Fish e Iser é, em parte, questão de palavras, pois embora nada seja absolutamente dado fora de toda interpretação, há diferença entre hipóteses científicas e dados científicos, e entre reconhecer marcas negras como formando a palavra rouxinol e discutir as múltiplas interpretações possíveis de um poema de Keats, distinção que a teoria da indeterminação da filosofia da ciência não anula no primeiro caso.
Que determinadas marcas denotem certo tipo de pássaro é convenção linguística e histórica totalmente arbitrária, mas essa arbitrariedade não significa ausência de regras, pois o reconhecimento dessas marcas se impõe pelos usos sociais práticos da linguagem, que não desaparecem quando a palavra é inserida num texto literário, ainda que a leitura possa deslocar seu significado dentro do novo contexto.
Não há justificativa para afirmar que um texto literário pode significar qualquer coisa, pois as palavras pertencem ao conjunto de uma língua e mantêm complexos vínculos com outras práticas linguísticas que restringem, mesmo quando as transgridem, as interpretações possíveis, de modo que o significado permanece, em certa medida, imanente ao próprio texto.
Ainda assim, a interpretação de um poema goza de maior liberdade que a de um aviso do metrô londrino, pois este está inserido numa situação prática que exclui certas leituras e legitima outras, ao passo que a instituição literária, embora também restrinja interpretações por meio de convenções socialmente legitimadas, não oferece ao leitor um contexto tão prefabricado quanto o de uma placa de trânsito, o que explica os frequentes desacordos sobre o significado da linguagem tratada literariamente.
A intenção do autor e as estratégias interpretativas de Fish revelam-se tentativas insuficientes de fixar de vez o significado da obra, pois é antes a instituição literária, composta por editores, redatores, revisores, cronistas e acadêmicos, que determina quais interpretações são geralmente permitidas, sancionando não tanto discordâncias pontuais quanto violações dos limites e procedimentos reconhecidos como próprios da crítica literária, de modo que o liberalismo dessa instituição, como o de Iser, costuma ignorar seus próprios limites constitutivos.
Reconhecer que não existe uma única interpretação correta nem uma leitura puramente literária, livre de pressupostos sociais e históricos, implica assumir que toda interpretação carrega uma leitura mais ou menos definida da realidade social, da moderação de Matthew Arnold em relação à classe trabalhadora ao nazismo de Heidegger, de modo que romper com a instituição literária significa romper com as próprias formas pelas quais se definem a literatura, a crítica e os valores sociais que as sustentam.
O século XX ainda guarda outro instrumento em seu arsenal crítico-literário para tentar fixar definitivamente o significado da obra literária: o estruturalismo, que será examinado a seguir.