Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015
I
1. Quando o livro está fechado, há três possibilidades: a primeira consiste em não abrir o livro, literalmente ou, ao menos, no sentido de que abri-lo e lê-lo envolve repetir o texto que já conhecemos, que aprendemos e possuímos desde a infância, de cor, como se diz, isto é, com uma intimidade que o preserva intacto em sua recitação, podendo dizer-se que, nessa intimidade, o livro permanece indefinidamente aberto, mas contido em sua dispersão.
2. A segunda possibilidade é deslizar um alfinete na espessura das páginas, ao acaso, e lançar sortes virgilianas, encontrando um oráculo na primeira palavra ou frase que se encontra, sendo isso feito com a Eneida, considerada poema inspirado pelos deuses, sendo chamada de bibliomancia uma forma generalizada desse exercício, tendo ta biblia sido apropriadamente seu terreno preferido, envolvendo prática semelhante não abrir o livro: apenas lançamos-lhe um olhar, tiramos uma rápida instantânea.
3. A terceira envolve simplesmente abrir o livro e mantê-lo aberto enquanto viramos suas páginas, sendo essa abertura um movimento, não sendo esse movimento apenas a sucessão de páginas erguidas e baixadas uma após a outra, animação que as novas máquinas de leitura digital tentam duplicar na flexibilidade de suas imagens.
4. Usamos essas três possibilidades simultaneamente, alternadamente, sem sempre nos darmos conta disso, lendo enquanto cantarolamos suavemente o texto em algum lugar no fundo da câmara escura que filma o texto, sendo aleatoriamente tomados por uma palavra, por uma expressão na qual reunimos uma espécie de augúrio que não se relaciona imediatamente com nossa vida mas com o sentimento de um possível e inesperado excesso de sentido.
5. E continuamos a virar as páginas, mantendo o livro aberto, ao menos na medida em que desejamos prosseguir, sendo isso algo que desejamos fazer se entramos no livro, expressando nossos sentimentos ao dizer coisas como não consegui entrar nele ou uma vez que se começa, não se pode parar, havendo assim um estado, uma relação em que o livro não está apenas aberto diante de nós mas estamos nele, procedemos em seu próprio ritmo, reconhecemo-nos nele e, sempre que retornamos à nossa leitura depois de termos tido de interrompê-la, todo um mundo se recoloca em seu lugar.
6. Esse mundo está ao redor de nós, dentro de nós; é impossível distingui-los: estamos ali, num lugar, isto é, eventos ali têm lugar, o tempo rola ou se encurta, espaços se abrem diante de nós ou se fecham sobre si mesmos, vemos pessoas, paisagens, partilhamos impressões, expectativas, surpresas, sendo assim a decepção quase inevitável de qualquer transposição de um romance para o cinema: por mais bem feita, cuidadosa ou bem-sucedida, o que não conseguimos superar é a imposição de imagens onde havíamos criado nosso próprio mundo de visões evanescentes.
7. Isso não é verdade apenas para narrativas e ficção, não estando um texto reflexivo, o que não implica um documento informativo, desprovido de ritmo, apelo, inflexões ou evocação de imagens e afetos.
8. Não compreendemos simplesmente o sentido dessa frase; ela nos é comunicada perceptivamente, em palavras como retomada ou reflexão em, pelo itálico de segundo, e assim por diante, podendo dizer-se que a frase faz o que diz… que toda fala é performativa, sendo isso algo que encontramos em Derrida, entre outros, mas também na experiência e, unicamente, na experiência da literatura.
II
9. Pois a literatura não é chamada assim por nada: encena a letra, sendo a letra a articulação, o coração da fala e da linguagem, isto é, não apenas as duas articulações, semântica e fonética, inerentes à linguagem, mas a pronúncia, emissão, modulação, tom, estilo e o que acabamos por chamar escrita.
10. A literatura é gestual na medida em que é fala, mas é essencialmente oral, como gostava de nos lembrar Lacoue-Labarthe, o que significa endereçada, enviada, descobrindo ou fornecendo seu sentido apenas quando enviada, não ouso dizer seu voo, e no entanto…, sendo abrir o livro erguer a cortina sobre a cena de tais gestos de envio.
11. Encontramos todas as possibilidades, posturas, estilos e invenções de algo que encontra sua energia inicial expressa nas palavras de Didier Cahen: eu falo pelo outro, em relação a ele, a ele, em seu lugar, em seu nome.
12. E, evidentemente, o outro, sim, aquele cujo endereço ouvimos, é também eu mesmo, que tem pouco ou nada a ver com esse eu que fala, sendo em mim mesmo, como no outro eu, uma abertura a um para o outro: para um alhures, um exterior sobre o qual é fundamentalmente necessário que não tenha forma nem função como objetivo ou destinação, nem trajetória completada ou operação concluída, esperando-se ao contrário que deixemos todos esses registros para trás, que os esqueçamos e permitamos que sejam substituídos por uma espécie de deriva preocupada consigo mesma, à qual o leitor consente sempre que se aprofunda mais no livro.
13. É então que o livro está aberto: aberto ao que contém e entrega: um sentido se desdobrando, sendo produzido, traçando seu caminho, por si mesmo e para nenhum outro propósito, não havendo nada de chocante no fato de podermos ver isso como relaxamento ou diversão: trata-se de permitir-se ser desviado, defletido das necessidades de intenção e produção e deixar que um gesto se materialize e faça sinal ao brilho no qual compreendemos, por um momento, que o mundo aparece sempre que o fazemos aparecer, devendo nós sempre ser entendido como eu, um único para todos, ao menos para muitos.
14. Compreendemos: isso é dizer muito, dizê-lo mal, sendo antes compreendidos, capturados, tomados pela abertura do livro para dentro do qual fomos atraídos, ou não: há livros que permanecem fechados para mim, outros que se fecham a si mesmos; jamais exploramos suficientemente a delicada questão do gosto, das inclinações, dos impulsos singulares, aqui como em todas as matérias perceptíveis ou estéticas…
15. E, no entanto, compreendemos, somos capturados por um pensamento, sendo esse pensamento sempre simultaneamente o de uma história, uma figura, um tom, uma língua, e pensamento disso, seja ele nos contado, relatado ali diante de nós, no livro, à distância, na ficção ou na fala, num elemento destacado do mundo e flutuando diante dele.
III
16. Que flutua incerto, lábil, inconsistente, irreal: literatura, tudo o que resta! O resto do sério, do construído, do importante, do certo, do conhecido, sendo esse resto também aquilo que precede toda ocupação séria do gênero vida-morte, dor-prazer, trabalho-repouso, precedendo porque a fala é mais antiga que tudo isso e porque, na fala ainda mais antiga, encontramos este pronunciamento: portá-lo diante de si, apresentá-lo, declará-lo.
17. Declarar, do modo como declaramos uma mercadoria, um amor, uma associação, a abertura de uma reunião, significando isso, calo, clamo, que algo é feito ressoar, não sendo o real se não ressoa no irreal, sendo ali que se encontra aquilo que nos precede, sem o qual não seríamos esses animais falantes, sem o qual os próprios animais não seriam, que em seus mugidos, sibilos e latidos já fazem o mundo ressoar.
18. É por isso que a literatura é oral: abre-se numa ressonância sem início e sem fim, numa glossolalia de presença sem a qual tudo seria simplesmente ausente.
19. Mas é por isso que é escrita: a ressonância tem de retornar, tem de ser repetida, tornar-se eco para que possa ser ouvida e repetida, sendo a literatura escrita em sua própria oralidade: é recitada, aprendida de cor, é forma e cadência, sendo, quando a escrita vem, apenas a antecedência dessa ressonância que é exposta como tal.
20. E é por isso que, entre todas as ocupações, uma sozinha ignora a hierarquia: o escriba é seu próprio senhor, afirma o egípcio Khety, cujo comentário astuto contém seu próprio inverso muito sério: é de fato nas mãos do escriba que todas as outras atividades são consignadas, contadas, declaradas.
21. Literatura: a declaração que não deve nada mais que sua própria inscrição, sua articulação, sua circulação, sua recitação, sua leitura, não fazendo a escrita realmente parte do mundo das coisas: provado pelo fato de que o livro só tem valor quando é aberto e através de sua ressonância quando está fechado, sempre temporariamente.
22. O livro é um objeto notável e bibliófilo apenas na medida em que é um material apreciavelmente impalpável, sendo liber, fina película tomada entre o córtex e a materia; tem a consistência negligenciável de uma forma.
23. A folha, pele, papiro, papel, tela, é o sítio daquilo que Duchamp chama infrafino, alguns exemplos do qual são dados por o vazio no papel entre a frente e o verso de uma folha fina…, podendo, voltando-nos a Hesíquio, estimar que a literatura deve seu nome a uma transcrição da palavra grega diphtera, que se refere ao couro curtido, o fino pedaço de couro do qual se fazia o pergaminho, sendo sempre feita de pele, de uma película, daquilo pelo qual as coisas se dão a conhecer na superfície e umas às outras.
24. Todas as folhas do livro aberto ressoam juntas, e cada livro, por sua vez, se abre a todos os outros, dentro e para os outros, resto eloquente deste mundo fortuito.