Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015
…teria de ser um romance…
1. A literatura não faz parte da linguagem escrita: isto é, ao menos, se a escrita não for o simples registro gráfico da fala, sendo a escrita anterior à fala e talvez até à linguagem, pois uma língua só é possível através de referência implícita mas constitutiva à impossibilidade de ir além de si mesma para estabelecer-se noutra língua que lhe forneceria sentido, só podendo uma língua estabelecer-se em si mesma, no retorno circular ao seu próprio código, podendo essa lei da linguagem expressar-se pela fórmula: não há metalinguagem.
2. Uma metalinguagem não seria linguagem, seria a pura manifestação da coisa e, com ela, de seu sentido, não se tratando na verdade de sentido, havendo a coisa e, no máximo, um índice ali para exibi-la, ou algum método de apresentação, sendo até isso incerto, pois é difícil compreender por que precisaríamos mostrar aquilo que se mostra por si mesmo, axioma que define a verdade para Spinoza e, em última análise, para todos.
3. Mostrar só é necessário quando estamos no elemento do sentido: isto se relaciona àquilo, vai em direção àquilo, baseia-se em, perde-se dentro de, e assim por diante, mostrando o sentido, indicando um horizonte, uma destinação, mostrando-se a verdade a si mesma: é ela própria o horizonte ou a destinação, a menos que se situe precisamente além de qualquer horizonte ou destinação.
4. Recentemente, escrita tornou-se o nome no qual se condensa a seguinte expressão: não há metalinguagem, significando isso que a escrita se tornou o nome de algo que precede o sentido ou o sucede, em vez de ser o nome de um modo de atribuir sentido, significando isso ao mesmo tempo que é também, necessariamente, o nome da verdade, não a verdade como correspondência correta com um objeto dado, mas a verdade como aquilo que se manifesta, designando a escrita o romance da verdade, o verdadeiro romance, o verdadeiro poema.
5. Para que isso ocorresse, foi necessário que a própria operação de registro, ou correspondência, fosse deslocada ou transformada, tendo o modelo do registro gradualmente se decomposto para dar lugar ao que se poderia chamar a invenção de uma inscrição, abertura de caminho, o engrama de um traço, dando lugar a expressão da realidade numa forma linguística à produção de uma ficção na qual o real abre caminho para o sentido.
6. Evidentemente, trata-se de uma questão de representação: imaginamos que antes acreditávamos numa linguagem que traduzia o real; hoje, imaginamos o real como o abismo de nossa criação, sendo cada uma dessas representações um andaime erguido por urgência ideológica, não se perturbando muito quem escreve, do contador de histórias tribal ao escritor de narrativas e poemas, com tais representações, podendo dela se valer sempre que interrogado sobre sua atividade, mas não guiam o gesto de escrever.
7. Estamos aqui na situação de um informante, perguntando-nos como pensar a literatura, devendo talvez desembaraçar a questão, devendo talvez, de fato, escrever?, tendo Friedrich Schlegel escrito que a teoria do romance teria de ser ela mesma um romance.
8. Em outras palavras, Schlegel postula que há uma metalinguagem literária, que é ela mesma literatura e, consequentemente, imediatamente privada de qualquer pretensão de criar metalinguagem ou metaliteratura.
9. O uso recente da palavra escrita, um deslize de sentido de forma escrita para estilo, depois para criação textual, significa apenas que buscamos identificar como a literatura começa antes de qualquer literatura ou linguagem: começa com um gesto que expõe um traço.
10. Um traço ordinário segue uma passagem, precedendo e abrindo o traço em questão uma passagem, sendo sua proveniência, sua vinda, um caminho aberto: mas abrir um caminho pressupõe simultaneamente uma antecipação, uma escolha de direção, e a precariedade do traço cuja natureza é tal que tende ao seu apagamento assim que faz sua aparição.
11. De certo modo, também esse apagamento faz parte da antecipação de uma destinação: o destino de um desaparecimento está nele inscrito com a tensão de uma aparição e de um avanço, sendo para designar essa contradição interna que Derrida falou do arqui-traço, e da arqui-escrita.
12. O arqui aqui não é nem o mais antigo nem o mais supremo: nem arqueologia nem arquitetura, não é primitivo, não é primeiro, é imemorial, dessa vez a palavra é de Blanchot, não residindo o imemorial numa memória anterior a toda memória mas numa ausência de memória, dizendo respeito àquilo que se passou antes, mas sobre o qual nada pode ser ligado ao presente em termos de passado.
13. É um passado tão absolutamente passado que sequer passou ou não passou: não atravessou um presente para depositar-se num presente passado, jamais tendo se apresentado, dizendo-se antes frequentemente que terá ido antes, sendo isso o que chamamos um futuro perfeito, mas, nesse caso, o futuro perfeito está, de certo modo, duplicado: não apenas terá tido lugar, mas aquilo que terá tido lugar é referido apenas como o fato de ir antes.
14. Nessa duplicação aparecem duas reivindicações: uma em que nada teve lugar além de um indeterminado ter-lugar, sendo esse um dos sentidos possíveis do nada terá tido lugar senão o lugar de Mallarmé; e outra em que os diversos valores do futuro perfeito trabalham juntos: o valor de conjectura, não sendo absolutamente certo que tenha tido lugar, o valor de ênfase, devendo um evento significativo ter tido lugar, o valor de antecipação.
15. A conjunção desses três valores compõe o sentido que hoje damos a escrita, se escrita não consiste em transcrever dados preexistentes, eventos, situações, objetos, suas significações, mas em inscrever possibilidades de sentidos não dados, não disponíveis, abertos pela própria escrita, devemos manter: primeiro, que nenhum dado precedeu senão a própria abertura, que não é um dado mas o dom em si, pois isso não deve ser entendido como algo como a abertura de um túnel, sólido e estacionário, mas como a abertura de uma boca que se move em harmonia com as palavras pelas quais é afetada, ou como a de uma ópera que se precipita para estabelecer a tonalidade musical, iniciar o movimento, abrir as cortinas diante do palco.
16. Segundo, que nada é certo quanto ao que possa ter ido antes mas sem nenhuma precedência, nenhuma anterioridade; escrever é ler onde não há nada, escreveu Philippe Grand, podendo também ser o caso de que tudo tenha tido lugar, tudo, o mundo inteiro, e que tenhamos estado lendo o grande livro de Deus ou da natureza: tudo se resume à mesma coisa, isto é, nunca recorre.
17. E, finalmente, que aquilo que teve lugar antes que qualquer coisa pudesse ter tido lugar, esse livro vazio ou ausente, minha ausência entre meus dois pais, essa origem sem orifício, constitui um evento de grande importância, na verdade tão considerável que a escrita se dedica à sua consideração.
18. A escrita se dedica a considerar o evento que não teve lugar ou cujo ter-lugar só pode ser conjecturado porque se retirou antes de qualquer vestígio, qualquer traço que se pudesse descobrir, sendo o próprio evento, de fato, apenas a iniciação do traço, o início da linguagem: a transmissão do sentido, casualmente, ou aninhados uns nos outros, a criação do mundo, o surgimento da humanidade, a descoberta da linguagem.
19. Essencialmente, essa transmissão precede qualquer sentido possível, mas, aqui, preceder equivale a desaparecer na pura ausência de qualquer anterioridade, no já-passado de qualquer passagem, sendo isso o que a escrita sabe e o que a escrita encena.
20. A literatura sabe que nada precedeu, expondo todo artefato de escrita o traço, o mesmo traço que assinala a passagem de nada, do ausente: aquilo que se passou antes de mim, podendo chamar isso o morto, não a morte, que não é nem coisa nem pessoa, mas o morto, aquele que partiu, que passou, o passado por excelência, podendo fazer dele a personagem principal, o herói do romance que seria o romance da literatura: Passado, o Passado, o Senhor Passado.
21. Contudo, esse herói não se encontra em lugar algum, nem na existência nem na imaginação dos Antigos; é simplesmente ele mesmo, terá sido o Antigo absolutamente antigo, falando Blanchot do terrivelmente antigo, terrível porque só podemos ser tomados de pavor ao considerar a escuridão vazia da noite que nos precedeu, deixando essa noite e nela entrando, incessantemente.
22. Passado, o Morto, ninguém, portanto, mas ninguém ou o não-um, não-um-único, identificado como Ninguém, aquele que, como Ulisses diante de Polifemo, se chama Outis, personne, nobody, niemand, nessuno, nemo, todos personagens de histórias, poemas ou canções.
23. Passado, o Morto é aquele que sempre já terá chegado antes de mim, antes de qualquer um, expondo sua chegada o traço do que significa chegar em geral: vir ao mundo, vir à luz, a chegada da própria luz, ser manifesto, estar na manifestação das coisas, emitir manifestação, não vindo nada antes da manifestação assim como nada a segue.
24. A literatura deu um nome a isso, esse conhecimento da manifestação quando ela escapa ao não-manifesto, ao oculto, ao nada, cabendo perguntar quando assumiu essa denominação, incompreensível afinal quando consideramos os significados anteriores da palavra: o domínio do escrito, depois a coisa literária, depois as belas-letras, depois, em alemão, todos os documentos escritos sobre um dado assunto, bem como o resto de Verlaine, isto é, a prosa prosaica, bem como a embriaguez de Flaubert.
25. E, antes de Roland Barthes afirmar, muito mais tarde, que o escritor lança um feitiço sobre o sentido intencional, devolve a fala a um estado anterior ao sentido, entretanto, é verdade, a reescrita da epopeia será alegremente chamada de crônica das mais farragínicas, incluindo tudo, isto é, que a literatura terá tentado reencenar sem reservas seu próprio sentido, dentro e fora de si mesma, ou ao menos a identidade que poderíamos supor que possui, quando, então, veio a assumir esse sentido.
26. Hoje, distanciando-se de uma representação dominante que pretende ser testemunha, o relato do real, a experiência vivida que chamamos autoficcional, como que para significar que não é ficcional de modo algum, pois sofremos de uma perda do real, acreditamos estar perdidos no virtual, na fantasia, em formas vazias, desde quando, então, senão desde sempre?
27. Não há contador de histórias, fabulista ou narrador de histórias, mitos, lendas, contos exagerados ou canais da fala divina, ninguém que não dê sua total fé à história e no entanto saiba que toda a substância dessa história reside em sua fala, em seu enunciado, que é também sua invenção.
28. Assim, o filho mais novo, favorito da mãe, protegido por ela do macho dominante da horda, desperta um dia para descobrir sua própria façanha e conta como matou aquele que, assim, se torna o pai: essa é a origem que Freud dá à literatura, o mito explícito da invenção do mito, da fala e da tribo juntas.
29. A literatura é, precisamente, a fala que sabe que seu sentido corre do nada ao infinito, que precede a literatura e a segue, que se precede e se segue a si mesma, sendo essa fala que se estende do Morto, o Pai, a Figura distinta ficcionalizada como imolada, e, mais importante, a Morte, a Mãe, não uma figura mas a partilha da fala, até a possibilidade de algum sentido compartilhado.
30. Ouçamos mais uma vez o início dos cantos para os quais nós, mediterrâneos, inventamos a invenção sob o nome de Homero, como nome e local de nascimento de nossa literatura.
31. Ao pedir à musa divina seu canto, o cantor declara-o ficção, mas a ficção também é reivindicada como sagrada, inspirada, insuflada de um exterior que ninguém seria tentado a situar em outro lugar senão na intimidade mais profunda do próprio canto.
32. Esse exterior também é referido no canto como o dos eventos que serão contados e celebrados: a cólera de um homem, as atividades e andanças de outro, tudo isso tendo lugar em algum lugar e em algum tempo, e, no entanto, se devemos questionar a história, quase numa oração, sussurrada por uma voz mais que humana, é porque temos tudo a aprender sobre esses eventos mesmo ao nomeá-los.
33. O que está sendo cantado, a cólera, a trama, já está presente mas ainda por vir, sendo o que é dito em literatura, como literatura, sempre já ali e sempre ainda por vir, tendo isso começado muito antes da narrativa e continuará muito depois dela, sendo a marca mais reveladora da história e do canto, de fato, prosa e poema, palavras e música entrelaçados aqui, ter começado antes de a boca começar a falar.
34. A página, a tela ou a tabuinha sobre a qual a escrita é traçada são representações apropriadas dessa antecedência ao mesmo tempo virginal e iniciática, essa abertura, engajando, estruturando, desdobrando e excitando uma abertura semelhante toda a literatura, começando e continuando fora de si mesma; de fato, ela mesma não é senão essa antecedência e essa sucessão irrealizável.
35. Não podemos completar o sentido, supondo a cada momento estar pondo uma significação: o sentido as desloca todas e as deposita em outro lugar, perto de um exterior anterior e posterior, pacientemente, sem esperança, esse alhures inscreve, exscreve seus traços.