Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015
Razões para Escrever
Escrever, Sobre o Livro
1. É hoje quase impossível escrever qualquer/nenhuma coisa sobre o livro, forçando essa particularidade da língua francesa a compreender simultaneamente que já não é possível escrever mais nada a respeito do livro e que já não é possível dispensar-se de escrever sobre ele.
2. Já não é possível escrever nada a mais sobre o livro: se isso envolve a questão do livro, devendo assumir-se de imediato que essa questão já foi tratada, ainda que não possa nem deva ser objeto de tratado algum, só podendo tentar apresentar ou introduzir algo a respeito, hoje, ser sinal de ignorância ou de ingenuidade, verdadeira ou fingida, tendo algo definitivo sido fornecido, a respeito dessa questão, por um corpo, uma rede, de textos incomparáveis, que atendem pelos nomes de Mallarmé, Proust, Joyce, Kafka, Bataille, Borges, Blanchot, Laporte, Derrida.
3. Essa lista é evidentemente incompleta e possivelmente injusta, mas é certo que não apenas devemos passar por esses textos, devemos permanecer neles, não havendo nada de fetichista, idólatra ou conservador nisso, ao contrário, devendo perceber isso por nós mesmos, sendo hora de afirmar que a questão do livro já está ali, consistindo o pietismo reacionário, muito equivocadamente, em solicitar indefinidamente esses mesmos textos, com zelo ou voracidade, a fim de extrair e reintroduzir, de mil maneiras mais ou menos declaradas, por glosa, imitação ou exploração, questões sobre o livro em termos de especulação, repetição sem fim, encenação, fragmentação, denúncia ou enunciação do livro enquanto houver livros.
4. Ter-me-ia contentado em copiar pacientemente esses textos aqui, até copiando neste mesmo volume o texto de Blanchot, que abre, fecha e guia este livro no qual escrevo, este livro quase impossível, nada podendo assegurar-me que isso não devesse ser feito.
5. Contudo, ao mesmo tempo, pelo mesmo imperativo categórico, já não é possível dispensar-se de escrever sobre o livro, não sendo essa questão uma questão, não sendo um assunto que se pudesse considerar completa ou incompletamente explorado, muito menos esgotado, formando antes o esgotamento, o esgotamento indefinido, a matéria que devemos aqui enfrentar, aqui como alhures.
6. Quanto ao livro, título, programa mallarmeano, algo se anudou agora em nossa história, nada tendo a força do nó a ver com o gênio desses autores, mas assinalando a potência histórica, mais que histórica, com que a escrita do livro teve de enrolar-se sobre si mesma, tendo o Ocidente, aquilo que Heidegger nos fez pensar como Ocidente, decidido, tanto quanto se possa lembrar, consignar ao livro a ciência de uma verdade decifrada num Livro, o livro do Mundo, de Deus, até o livro do Id, porque nem a leitura nem a escrita eram possíveis, tendo o Ocidente amarrado a si mesmo numa cãibra de escritor.
7. Esta é a razão primária, e bem conhecida, do fato de que devemos constantemente reler esses textos, e também reescrevê-los, contanto que não deixemos, esquecendo assim a lição implacável de Pierre Ménard, o conceito de reescrita cair ao nível de reescrever.
8. Seguindo uma lei que todos esses textos incorporam e articulam, lei cujo rigor não precisa ser demonstrado, essa história, apreendida através da cãibra da escrita, só se conclui através da repetição, sendo essa uma questão jamais tratada, marcando a questão do livro o ressurgimento da repetição, não a sua própria repetição, pois é, na medida em que é, questão daquilo que permanece sem propriedade, sendo essa a questão da propriedade literária e do comunismo.
9. A repetição é a forma, a substância daquilo que não tem, de uma vez por todas, nem em várias ocasiões, sua identidade impressa no Livro intranscritível, formando, para quem quer que se encontre privado dessa identidade, para qualquer ocidental, a questão do livro, questão que deve ser escrita para se dissolver em sua escrita: dissolver o quê?
10. Dissolver, mas o gesto de escrever jamais satisfaz uma teleologia, dissolver, mas uma dissolução ela mesma dissociada dos valores solutivos que a metafísica sempre lhe confere, não apenas a identidade ideal inscrita na brancura cegante do Livro, mas dissolver até o ponto da privação, que é também a privatização dessa identidade, dissolver até o próprio Livro, até a privação, a privatização do Livro.
11. O Livro está ali, em todo livro estão as dobras virgens do livro, devendo ser escrito, transformado em palimpsesto, sobrecarregado, suas páginas emborcadas por linhas adicionadas até que prevaleça a pior confusão de signos e escritas: sua ilegibilidade original deve ser alcançada, agravando o esgotamento informe da cãibra interior.
12. Por quê? Esse risco deve ser corrido: o livro deve ser escrito para a libertação, o que teria pouco a ver com a Liberdade, ouvindo-se nisso, nessa Liberdade subjetiva, sujeitada, subjugada, que Deus ou o Espírito da metafísica é automaticamente concedido, devendo a escrita passar pela fenda da estranha homonímia de liber/liber, pela ambiguidade contemporânea da entrega.
13. B. é a mulher nessa história, mas sua inicial e a própria frase significam que lemos a mulher, essa mulher, uma mulher, e um homem, e B., o próprio Bataille, e um lugar, e um livro, e um pensamento, e a libertação ela mesma, em pessoa, sem alegorismo algum.
14. Tal é a repetição: retomada, reescrita da petição, o esforço para alcançar e juntar, o pedido, a demanda, o desejo, a reivindicação, a súplica, sendo reescrever o livro o clamor renovado ou murmúrio de uma demanda, um apelo urgente, sendo por terem, se os textos de que falei permanecem ainda parte de nossa história, não tratado de questão alguma mas anudado esse apelo em uma ou mais gargantas de escrita: espasmo maciço da glote.
15. Anudaram o apelo ético, e mais que ético, de uma libertação, a uma libertação, não sendo o imperativo responder, o neutro, escreve Blanchot, denominando neutro o ato literário, que, carregando um problema sem resposta, possui o fechamento de um aliquid ao qual pergunta alguma corresponderia, devendo antes distinguir-se, com tanto cuidado quanto possível, dois conceitos incomensuráveis: a resposta a uma pergunta e a resposta a um chamado.
16. É possível que só possamos responder ao chamado repetindo o chamado, como guardas encarregados de vigiar, é possível que o imperativo não seja o da resposta mas o da obrigação de responder sozinho, o que se chama responsabilidade, cabendo perguntar como, no caso do livro, pode tratar-se de responsabilidade, já não sendo possível escapar, nem evitar isto: como, numa escrita onde a Voz está ausente, uma voz sem escrita é ao mesmo tempo absolutamente viva e absolutamente morta, pode um chamado ser ouvido, como pode tratar-se de vocação, invocação ou advocação, como, em geral, pode ser liberado o inteiramente diferente do livro?
17. Todos esses textos esgotaram o tema, a teoria, a prática, a metamorfose, o futuro, a fuga ou o corte do livro por nenhuma outra razão senão repetir esse chamado.
Repetições
18. Além disso, sem dúvida é preferível pontilhar os is da repetição, mesmo que isso signifique repetir-nos um pouco, sendo a reduplicação do livro dentro de si mesmo, a autorrepresentação da literatura, a história do próprio nascimento da obra, sua própria libertação, sua autoanálise, ou a involução de sua mensagem como exibição de seu código, ou a figuração de sua persecução dentro do processo, narrativo ou demonstrativo, da formação de suas figuras, ou a implementação de suas regras pelas próprias regras de seu jogo, tudo isso, que numa palavra chamaria de autobibliografia, datando da invenção do livro.
19. Nossa modernidade equipou-se com bibliotecas inteiras para isso, tendo sido necessário, pela própria necessidade do livro do qual nenhuma escrita escapa, esta epístola inútil e prolixa que escrevo já existe em um dos trinta volumes das cinco estantes de um dos incontáveis hexágonos da Biblioteca de Babel, e sua refutação também, formando tudo isso a repetição de si, da qual o livro, desde o nascimento, só pode ser formado.
20. Foi isso que o livro mais especificamente veio recitar e ruminar durante a era de sua invenção material e técnica: na era da impressão, era do livro verdadeiro, era do sujeito maduro e da comunicação, tendo a impressão satisfeito a necessidade de que alguns estivessem em relação com outros de modo ideal.
21. Desde então, é como se o conteúdo ideal da comunicação consistisse em autobibliografia, exibindo todo livro o ser ou a lei do livro: desde o início, não há objeto além de si mesmo e dessa satisfação.
22. Tudo já foi dito, e chegamos tarde demais, pelos mais de sete mil anos em que houve homens que pensam: o primeiro capítulo deve começar assim, deve tratar de livros, de um livro chamado Os Caracteres, impondo o esgotamento do material a infinitude das maneiras possíveis de formar signos, sendo essa a história deste mundo, aquele que agora visitamos, diz-lhe a deusa: é o livro de seus destinos.
23. Passamos a outra sala e há outro mundo, outro livro, em algum lugar encontrareis também a Teodiceia, onde isso foi escrito, e aqui lereis que Borges não fez mais que anotar uma ideia de Leibniz, que Lichtenberg já havia copiado: as bibliotecas se tornarão cidades, nenhum lugar estará livre de livros, mesmo quando faltarem.
24. Nenhum livro estará livre de livros, pois, não satisfeitos em inscrever nosso nome sobre os pensamentos anônimos de um único autor, apropriamo-nos dos de milhares de indivíduos, épocas e bibliotecas inteiras, e roubamos, até plagiamos, escreve Jean Paul, plagiando-se mais uma vez, continuando sem parar a antologia textual, uma seleção de flores de livros, até nos alcançar.
25. Toda essa repetição sem fim do livro constitui sua redundância nativa, e mais ingênua do que podemos imaginar, sendo a redundância transbordamento, o excesso da onda: o Livro sempre foi pensado como a espuma infinitamente ressurgente de um oceano inesgotável.
26. Ressoada e caída da onda, essa repetição pode de fato ser escrita: escrever é coletar, incorporar, escoltar e reduzir, escoltando cada livro a redundância do Livro a um espaço delimitado por uma inscrição, venerando-se em cada um desses templos a autobiografia, desde que se ignore a outra repetição, da qual ela é de fato apenas a retomada ou remuneração, sendo a era da impressão de fato a era do sujeito: do livro só existe um Eu, e o Eu se repete; é assim que se reconhece.
27. Não fiz mais meu livro do que meu livro me fez, um livro consubstancial a seu autor, erigindo-se o sujeito como um Livro, sendo apenas essa ereção que jamais assegurou a substância de um sujeito, cuja dissimulação franca significa que o desejo se lê como um livro aberto.
28. Não estou construindo aqui uma estátua para erguer no cruzamento da cidade, isto é para um canto de biblioteca, e para divertir um vizinho, formando os outros o homem; eu recito e represento um em particular, mal formado, querendo que se veja meu passo natural e ordinário, por mais irregular que seja.
29. Repete o Eu seu desejo a si mesmo, não estando de fato todo desejo abalado? Que o Eu se revele não o faz necessariamente ver, estando alguém irremediavelmente perdido na matéria de seu livro, alguém que repetirá incessantemente.
30. Alguém, ele é quem diz eu mas não é este, repete-se, perdido em cada livro, através da repetição sem fim da autobibliografia e apesar dela, entrando um autógrafo no abismo, começando sua errância na mesma encruzilhada de sua ereção.
31. O autógrafo é aquele que se despede singularmente logo no início de seu livro.
32. Assinatura de lugar, assinatura de nome, assinatura de adeus, entra em sua leitura como entraria num túmulo, sendo sua própria mesmidade que, ao alterar sua identidade e singularidade, divide o selo.
33. A repetição literal e literária é a repetição de quem vagueia dentro de suas próprias marcas, dentro do discurso de sua própria vigília fúnebre, como Finnegan, riverrun, past Eve and Adam's…, colocando Joyce de volta em circulação e deixando vaguear os signos da história e das histórias… tendo ali recomeçado um êxodo, tendo alguém entrado na história de sua diáspora.
34. O chamado repetido sempre vem dele, sendo o chamado de uma solidão anterior a qualquer isolamento, a invocação de uma comunidade que sociedade alguma contém ou anuncia, cabendo perguntar como pode ser liberado o inteiramente diferente do comum do livro, um escritor comum, um eu que é chamado.
A História do Livro que Ele Escreve
35. É uma história que se conforma a seu desejo e a seu êxodo, marcando a escrita, diz ele, o fim do comunismo em toda parte, isto é, daquilo que ele não conheceu, pois nasce com a escrita.
36. Mas ele escreve em seus livros, e escreve em todos os seus livros, aquilo que o comunismo foi, a ausência do livro, jamais reivindicando o livro senão retraçar aquilo que o excede, jamais pertencendo a um livro a questão sobre a origem do livro.
37. Ele escreve o mundo do aoidos, o contador de histórias, o recitador sagrado, sabendo o primeiro poeta, que deu esse passo para libertar-se da multidão através da imaginação, como voltar a ela na vida real, pois fará tudo o que puder para relatar à multidão os feitos que sua imaginação atribui ao herói, sendo esse herói, no fim, ele mesmo, mas sabendo os ouvintes, que compreendem o poeta, identificar-se com o herói.
38. Essa pura poiesis do eu na pura comunidade assombra mas não descontinua toda a literatura: e ele é um homem aqui, agora, que é finalmente seu próprio narrador.
39. Foi, diz ele, o mundo de um mimo sem exemplo a seguir e sem imitador, o mundo do improvisador brilhante, o dançarino embriagado do deus, o coração pulsante, os golpes, o assobio de uma música não escrita, o mundo das orações, súplicas, invocações, sendo a tribo com suas palavras e cantos, o grito cantado pela comunidade primitiva em torno da lareira, escrita silenciosa de um fogo tão brilhante que se dilacera a si mesmo sem deixar traço.
40. Isso ocorre, na história que contamos a nós mesmos, a sociedade da escrita que não é o livro mas a gravação de caracteres sagrados, a inscrição de Leis em tábuas de pedra ou metal, em colunas, pilastras, frontões e faixas, escrita dura e a ereção de estelas nas quais se pode ler Ordem e Disposição, Estrutura e Modelo, permitindo que sejam lidas por ninguém e, assim, por todos: sendo esse o comunismo monumental, a escrita arquitetônica e a monarquia hieroglífica.
41. E todo livro tende desesperadamente a essa máxima: maxima sententia, o maior pensamento, vindo por fim, de lugar nenhum e de todo lugar, do Egito, da Jônia, de Canaã, o livro; ta biblia, a bíblia irrevogavelmente plural, a Lei, os Profetas, os Escritos tal como é dividido, arranjado, especularmente repetido e disseminado, sendo e não sendo o Livro de um, autor ou povo.
42. E finalmente, a religião muito tardia, muito antiga dos livros, de onde começam todos os êxodos, sendo o Egito, a Jônia, Canaã postos em movimento para a travessia dos desertos por vilarejos que continuam a se dispersar.
43. A história dos livros começa perdendo-se no livro da história, ninguém nos tendo dito quem escreveu este pactíssimo primeiro chamado Livro da Aliança, nem sequer se foi escrito, sendo a história do pacto, pacto de libertação, quebrado, guardado, traído, sempre oferecido, e o chamado renovado a assiná-lo mais uma vez.
44. Quebradas embora mal gravadas, as Tábuas não podem ser erguidas; abrem caminho na Arca com as tribos errantes, desenrolam-se os Rolos e o volume da história cresce até nos alcançar; o livro é inseparável do conto, da história do romance: o romantismo é a era do livro.
45. Os livros começam com sua repetição: duas histórias de gênese se misturam, se sobrepõem, se recontam e se contradizem, copiamos os livros, reproduzimo-los, publicamo-los porque não são eles mesmos públicos nem como uma canção ou um obelisco; transmitimo-los, traduzimo-los, setenta e dois judeus, seis de cada tribo, em setenta e dois dias, na ilha de Faros, transformam a Bíblia em grego, são traídos, falsificados, imitados, recopiados, nós os recitamos, os citamos.
46. Quem quer que diga eu confunde livros e assinaturas em seu livro: nos raciocínios e invenções que transplanto para meu solo e confundo com o meu próprio, às vezes deliberadamente não indiquei o autor, para conter a temeridade daquelas condenações apressadas que se lançam sobre todo tipo de escritos, começando aqui já de novo a dita repetição.
47. Os livros são corruptíveis, os livros são feitos de madeira: biblos, liber, codex, Buch, sempre casca ou árvore, queima, apodrece, decompõe-se, desaparece, sucumbe à crítica roedora dos ratos, sendo a bibliofilia, tanto quanto a filosofia, um amor impossível por objetos curtidos, desbotados, gastos, divididos, lacunares.
48. O livro é miserável, detestável, tendo Descartes odiado o negócio de fazer livros, não havendo nada sobre o Sujeito, o outro, o mesmo, aquele que diz eu (penso), nesses volumes gordos, nada além de perda de tempo, o consumo inútil de uma vida gasta lendo pedaços de uma ciência que posso estabelecer sozinho.
49. Pois aquele que diz eu deve, contudo, escrever, sendo a prova inexorável: ao considerar o problema do ego e do alter ego, do acoplamento originário e da comunidade humana, Husserl escreveu que todas essas matérias são governadas por necessidades essenciais, conformando-se a um estilo essencial, enraizado primeiro no ego transcendental e na intersubjetividade transcendental que se revela nesse ego, e então, correspondentemente, nas formas essenciais da motivação transcendental e da constituição transcendental.
50. Husserl escreve aquilo que não quer escrever, escrevendo que a alteração originária do ego, a comunidade dos homens, forma ou deforma o estilo, escrevendo até o ponto da inteligibilidade, cujo sucesso último ele irrevogavelmente decifra.
51. Assim, a súplica pelo livro começou ao mesmo tempo que a perseguição aos livros, associando-se a escrita ao simulacro cruel do sofrimento, podendo qualquer um agora ver através do vidro o modo como a inscrição é feita no corpo.
52. No final da história, o oficial que controla a máquina é ele mesmo executado quando a lei que violou é gravada em sua carne: Sê justo! mas só a máquina permanece para a aplicação selvagem da lei, o comunismo e o capitalismo das máquinas de escrever, sendo contudo o mesmo o apelo: como pode ser liberada a total alteridade do livro?
O Apocalipse
53. E se os livros sempre anunciassem, sempre provocassem o recomeço renovado nesta história daquilo que não tem lugar? E se compreendêssemos por que, hoje, ao falar e escrever, devemos sempre falar várias vezes ao mesmo tempo, falando segundo a lógica do discurso e, portanto, sob o domínio de uma nostalgia pelo logos teológico; falando também para tornar possível uma comunicação falada que só pode ser alcançada com base num comunismo das relações de troca, portanto de produção; mas também não falando, escrevendo, através de uma ruptura com toda língua falada e escrita?
54. Com o fim dos livros, há o Apocalipse, sendo esse o gênero caracteristicamente escrito da profecia, isto é, do chamado, sendo o livro do fim do mundo, o livro da renovação, falando aquele que o escreve, e eu digo seu nome, João, e falando seu lugar de exílio, a ilha de Patmos, sendo este livro uma carta às igrejas dispersas, à comunidade privada de sua comunhão, endereçando-se nessa carta uma carta a cada uma das igrejas, cada uma das congregações, sendo a carta repetida, dividida, transformada.
55. Nesse livro, João escreve as visões que lhe é dado ver, mas escreve apenas porque as visões o ordenam a escrever, falando o Anjo com ele enquanto segura o Livro, mas João não o copia, escreve o que o Anjo lhe dita, não sendo o revelado o Anjo, nem o Livro: é a escrita do homem, sendo o homem anunciado através da revelação, o homem que por sua vez diz quem é aquele que fala, o homem, escreve João, que diz ser o alfa e o ômega.
56. Ele é o Livro, evidentemente, mas também nada além do relato finito dos caracteres da escrita, sendo isso tudo o que é revelado nos sete selos rompidos do livro do Cordeiro degolado, sendo esse o fim da religião.
57. João escreve todas as suas visões da escritura, mas no meio é proibido de escrever as palavras dos sete trovões, não podendo livro algum liberar a palavra inaudita, inaudível, ensurdecedora, o tumulto primitivo cujo som acompanhará a exaltação da comunidade mística, mas sabendo o livro a dispersão da comunhão: é a inscrição e comunica o chamado.
58. Cabe a você dar um passo em direção ao não-sentido, não havendo possibilidade de determinar, em nenhuma língua, o que vem no Vem, não sendo isso um apelo à comunicação mas a propagação da repetição do apelo, da ordem e da demanda que não portam, produzem ou promovem nada, que não ensinam nada, vem, que não exigem resposta alguma mas apenas a obrigação de responder, a responsabilidade de escrever novamente com as vinte e seis letras que não abrigam revelação alguma, apenas seu próprio esgotamento.
59. Aqui o esgotamento é inicial: minha razão para escrever é alcançar B., ir da primeira à segunda letra, traçar letras, conectadas umas às outras, o que se chama escrita, o que chama a escrita, o que chama uma mulher, um homem, um livro, uma história, e sempre como B. na história, uma nudez impossível, insuportável.
60. Tão além e tão aquém do que nenhuma palavra pode revelar da verdade, tão aquém e tão além de qualquer Livro, resta o apocalipse a ser descoberto, a descoberta que transforma cada livro: é que o livro e a comunhão são desnudados, revelados, em cada livro, sendo a ausência do Livro a ausência da Comunhão, nossa comunhão, ou parte de uma em todos e de todos em uma.
61. Mas também a presença, para sempre submersa no momento, do livro, tendo João de comer um pequeno livro.
62. O que se comunica, o que se comunga, é nada, não é nada, nada além de amargor, mas um chamado; outro comunismo ainda por vir sem terminar a história, um comunismo do êxodo e da repetição, gostaria de dizer nada, mas, nas palavras de Blanchot, mais do que querem dizer, o que as palavras querem: relações de troca, portanto de produção?, mas escreveria, esse comunismo, a libertação dos livros, nos livros.
63. Vã na medida em que é livresca, palavra cunhada por Montaigne, e como não seria, começando exatamente aqui?, essa libertação, certamente, mas certamente livresca também na medida em que é vã, na medida em que a escrita, de novo e mais uma vez, não corre riscos abertamente.
64. Repito: as razões para escrever um livro podem ser comparadas ao desejo de modificar as relações que existem entre um homem e seus semelhantes, sentindo-se essas relações como inaceitáveis e percebidas como uma forma de sofrimento terrível.
65. Chamados distantes. Vindo, longe! Fim aqui. Nós então.