NANCY, Jean-Luc. La déclosion. Paris: Galilée, 2005.
1. O abandono e a piedade
A crise da religião não exige sua restauração, tampouco um retorno ao religioso, mas a abertura da própria razão à ilimitabilidade que constitui sua verdade, de modo que, uma vez apresentadas todas as razões, permaneça indicado aquilo que excede toda restituição racional, enquanto a secularização deixa de poder ser compreendida como simples transferência do idêntico e passa a exigir o pensamento da diferença produzida em todo retorno.
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Não se trata de remediar uma deficiência da razão mediante a religião, mas de libertar a razão sem reservas, abrindo-a àquilo que permanece para além da restituição de todas as razões.
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Tampouco se trata de restaurar os céus ou de lhes conferir uma nova configuração, mas de abrir a terra obscura, dura e perdida no espaço.
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O chamado “retorno do religioso” não merece ser compreendido como retorno de uma identidade intacta, pois aquilo que retorna já não permanece idêntico a si mesmo e a própria secularização deve ser interrogada como transformação, e não como simples deslocamento de conteúdos invariáveis.
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Um retorno à religião somente agravaria sua condição crítica e os perigos que ela pode representar para o pensamento, o direito, a liberdade e a dignidade humana.
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A questão decisiva torna-se então a do sentido da palavra “homem” e, por conseguinte, a questão do humanismo, pois sob aquilo que esse termo afirma e oculta encontram-se algumas das exigências mais urgentes do pensamento contemporâneo.
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A civilização supostamente humanista encontra-se em agonia no momento em que se torna visível a decomposição ou desconstrução histórica do cristianismo, repetindo-se a situação em que uma forma de vida envelhecida exige que o pensamento se erga diante de seu esgotamento.
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A religião, enquanto garantia de uma salvaguarda providencial do mundo e da existência, perde sua legitimidade e também o sentido de sua própria fonte quando aquilo que constituía a vitalidade da fé se converte em controle dogmático e institucional.
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Aquilo que, na fé, abria o mundo ao seu próprio fora — e não simplesmente a um além-mundo paradisíaco ou infernal — fecha-se progressivamente numa administração interessada do mundo.
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Essa ambivalência entre abertura e fechamento pertence à própria constituição da religião e, mais amplamente, ao caráter religioso de toda instituição, enquanto vínculo interno, sacralidade da fundação e elevação de sua destinação.
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O pensamento deve recolher o vazio deixado pela abertura abandonada, tal como
Hegel,
Schelling e
Hölderlin compreenderam ao procurarem, depois de
Kant, abrir a racionalidade à dimensão própria do absoluto e de uma razão mais elevada.
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Dois séculos demonstraram, entretanto, que nem filosofia nem poesia bastaram para realizar essa tarefa, enquanto a ciência se afastou da possibilidade de elevar a razão até uma explicação integral do mundo.
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A piedade essencial da razão consiste na observância do dever que a razão mantém para com o incondicionado que ela própria exige, isto é, no serviço que a razão deve prestar à sua destinação absoluta.
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Essa piedade da razão não conseguiu comunicar sua própria intensidade, encontrando suas formas místicas sobretudo na matemática e na astrofísica enquanto a metafísica se retraía sobre si mesma.
2. A ameaça (sobre)religiosa
A civilização da “morte de Deus”, isto é, da emancipação da própria razão, acabou por abandonar a Razão em favor do entendimento, deixando sem elaboração adequada o vazio aberto por essa emancipação e criando, no esgotamento simultâneo das racionalidades modernas e das religiões instituídas, a possibilidade de uma irrupção sobre-religiosa capaz de responder violentamente à ausência de sentido.
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Pensamento e arte continuaram a recordar a exigência de uma razão que excede o entendimento, seja em
Nietzsche,
Wittgenstein ou Heidegger, seja em Cézanne, Proust, Varèse ou Beckett, mas não alcançaram inteiramente o ponto em que o vazio se abrira.
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Esse vazio tampouco deve ser confundido com o niilismo, pois o niilismo constitui uma abertura obstruída e preenchida por si mesma, ao passo que a situação contemporânea corresponde antes à sua própria agonia.
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No lugar da simples permanência do niilismo delineia-se a possibilidade de uma insurreição religiosa e hiper-religiosa.
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Enquanto as racionalidades técnicas, jurídicas, econômicas, éticas e políticas permanecem confinadas ao entendimento e as religiões instituídas prolongam precariamente suas tradições entre endurecimento integrista e compromisso humanista, cresce no centro da sociedade mundializada uma expectativa ainda silenciosa suscetível de inflamar-se.
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Aquilo que as Luzes não iluminaram em si mesmas pode converter-se numa inflamação messiânica, mística, profética ou divinatória cujos efeitos poderiam ultrapassar os das exaltações fascistas, revolucionárias, surrealistas, vanguardistas ou místicas.
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Tal delírio encontraria condições de expansão proporcionais ao deserto de sentido e de verdade produzido ou permitido pela civilização contemporânea.
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A invocação reiterada da “política” procura ocupar precisamente esse lugar aberto, uma vez que toda tentativa de refundação política visa novamente à exigência de fazer justiça à razão em sua integralidade.
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A própria política encontra-se, porém, em falta consigo mesma porque lhe falta aquilo que Rousseau designava por “religião civil”: não a simples racionalidade do governo, mas o sentimento ou a paixão do ser-em-comum voltado para sua própria existência.
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Entre a salvação religiosa apolítica e a salvação histórica da humanidade prometida pela luta de classes, a religião civil não conseguiu constituir-se de modo duradouro.
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As categorias contemporâneas de “subjetivação” ou “multidões” tampouco conseguem por si mesmas aquecer a tibieza democrática.
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Desde Atenas, a democracia pode ter sido a renovação incessante da aporia de uma religião da cidade capaz de suceder ou substituir as religiões anteriores que asseguravam diretamente vínculo social e governo.
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Atenas, Roma e o Estado soberano moderno renovaram sucessivamente essa aporia.
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A religião sacerdotal e a religião civil esgotaram ambas suas possibilidades históricas, sendo a segunda nascida do recuo da primeira, mas jamais capaz de substituí-la plenamente.
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À medida que a democracia estende sua forma à escala mundial, a política parece colocada diante de uma alternativa: ou refundar-se ela própria como religião, o que conduziria à teocracia e potencialmente a um hiperfascismo, ou inventar uma relação determinada com uma dimensão de sentido que a exceda.
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Essa segunda possibilidade exigiria uma reinvenção radical do significado da laicidade.
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A política teria então de assumir uma dimensão que não poderia integrar nem absorver, uma ontologia ou etologia do ser-com articulada à excedência absoluta do sentido e da paixão do sentido, excedência que a palavra “sagrado” historicamente designou.
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O ressecamento humanista e a tentação correlata de uma inundação espiritualizante tornam necessário reconhecer o limite em que a filosofia ainda não consegue assumir a herança da operação kantiana, de sua elevação especulativa, de sua ultrapassagem kierkegaardiana e de sua radicalização nietzschiana.
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Filosofia e ciência deixaram-se intimidar pela exclusão da religião que elas próprias haviam pronunciado, embora continuassem secretamente alimentadas por aquilo que excluíam.
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A secularização e a laicização permanecem, por isso, insuficientemente interrogadas.
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Quando o mundo se torna simultaneamente mundial e inteiramente mundano, sem além-mundos, céu ou poderes celestes, impõe-se a questão de como pode inscrever-se a afirmação de que o sentido do mundo deve encontrar-se fora do mundo.
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A dissolução ou desconstrução da própria noção de sentido, entendida como expectativa de significação, não contradiz essa exigência, mas a confirma.
3. A desclosão
A desclosão designa a abertura de um recinto e o levantamento de uma clausura, devendo operar-se como desclosão recíproca das heranças da religião e da filosofia, para que a razão possa trabalhar sobre os limites que ela própria se prescreveu e reconhecer, no interior da imanência mundana, aquilo que a excede sem constituir um segundo mundo.
a. A metafísica desclosa
A metafísica não constitui simplesmente uma totalidade fechada que a modernidade teria superado do exterior, pois sua própria constituição contém o movimento pelo qual sua clausura se desestabiliza e se abre, fazendo aparecer no interior da razão aquilo que excede a razão sem lhe ser simplesmente estranho.
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Desde
Nietzsche, Heidegger e
Wittgenstein, diferentes formas de um “fora do mundo” abriram-se em plena imanência mundana.
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Desde
Freud, o afeto encontra-se afetado pelo incomensurável e o sentido pelo insignificável.
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Derrida e
Deleuze, embora por vias distintas, conduzem à exigência de pensar um segredo no qual o pensamento se torna secreto para si mesmo.
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A proveniência levinasiana permite também falar do outro, desde que essa alteridade não seja reduzida a um outro determinado, mas seja compreendida como aquilo que excede toda atribuição possível.
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A exigência da razão consiste em esclarecer sua própria obscuridade, não eliminando-a mediante a luz, mas adquirindo a disciplina e a força necessárias para deixar que o obscuro emita sua própria claridade.
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A desclosão deve incidir sobre aquilo que foi designado como “clausura da metafísica”.
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No sentido imprimido por
Nietzsche e Heidegger, a metafísica representa o ser como ente e como ente presente, instalando para além do mundo uma presença fundadora e garantidora, seja Ideia, ente supremo, Sujeito ou Vontade.
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Essa instalação estabiliza e fecha o ente sobre sua própria entidade, distribuindo a totalidade segundo pares como imanente e transcendente, aquém e além, sensível e inteligível, aparência e realidade.
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A clausura corresponde à consumação de uma totalidade que se compreende como acabada em sua autorreferência.
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Essa consumação significa também esgotamento, porque a autorreferência imobiliza o próprio ser ou o sentido do acontecimento que o ser nomeia.
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A dissociação entre os dois regimes da presença termina por revelar-se como oposição fantasmática entre o real empírico irrecusável e um real ou suprarreal inteligível inacessível.
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É nesse processo que pôde começar e consumar-se o “crepúsculo dos ídolos”.
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O cristianismo reforçou poderosamente a metafísica ao agravar a entidade do ser mediante a produção de um Ser supremo arquipresente e eficiente, tornando ainda mais sufocante a clausura monoteísta.
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Os grandes críticos da metafísica, entretanto, jamais a compreenderam como sistema simplesmente monolítico, pois reconheceram que seu próprio abalo nasce do interior dela mesma.
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A metafísica desconstrói-se constitutivamente e, ao desconstruir-se, desfecha em si mesma tanto a presença quanto a certeza de um mundo fundado em razão.
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Ela libera repetidamente aquilo que está para além do ente e produz o transbordamento de seu próprio princípio de razão.
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A imagem de uma razão moderna que teria surgido inteiramente formada com Bacon ou Galileu e libertado por suas próprias forças o território submetido à crença metafísica constitui uma ilusão histórica persistente.
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A clausura metafísica não atravessa a história como uma ruptura que separaria duas épocas, mas a percorre longitudinalmente desde
Parmênides e
Platão.
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Filosofia, saber e discurso racional sempre encontraram a extremidade da razão num excesso da razão e sobre a própria razão.
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A clausura desclosa-se continuamente a partir de si mesma, como se manifesta na exigência kantiana do incondicionado, na destruição (Destruktion) heideggeriana da ontologia, na desconstrução derridiana e nas linhas de fuga deleuzianas.
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A própria constituição da metafísica não nasceu de uma autoconstituição nem de um suposto “milagre grego”, mas de uma profunda transformação do conjunto dos vínculos com o inacessível.
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O Ocidente não nasceu da liquidação de um universo obscuro de crenças por uma nova luz racional, nem na Grécia, nem no Renascimento, nem no século XVIII.
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Formou-se antes por uma metamorfose da relação geral com o mundo na qual o inacessível adquiriu, enquanto inacessível, forma e função no pensamento, no saber e na conduta.
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Não houve simples redução do desconhecido, mas intensificação do incomensurável.
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O problema matemático da incomensurabilidade, figurado pelo alogon da diagonal do quadrado, tornou-se emblema dessa estrutura, na qual o saber verdadeiro encontra precisamente aquilo que não pode ser reduzido à sua própria medida.
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O alogon constitui a dimensão extrema, excessiva e necessária do logos, e é essa dimensão que reaparece sempre que estão em questão a morte, o mundo, o ser-em-comum, o ser-si-mesmo ou a verdade.
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O alogon não é algo que a razão encontra simplesmente fora de si, pois é a própria razão que o introduz consigo mesma.
b. O cristianismo descloso
O cristianismo deve ser compreendido não como enfermidade acidental posteriormente contraída por um Ocidente originariamente saudável, mas como componente de sua própria constituição, formado na conjunção entre pensamentos grego e judaico, razão e fé, e capaz de produzir simultaneamente a clausura metafísica e o movimento que a desclosa.
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O cristianismo surgiu num mundo mediterrânico que, durante séculos, se desencantava tanto de suas religiões propriamente religiosas quanto de suas religiões civis.
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Sua formação correspondeu simultaneamente à colaboração e ao confronto entre razão e fé.
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A condenação filosófica reiterada do cristianismo, sobretudo pelas Luzes, permanece insuficiente mesmo quando todos os seus motivos legítimos são reconhecidos, pois é pouco plausível interpretar uma civilização inteira como vítima de uma grave enfermidade congênita em sentido simplesmente patológico.
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Tampouco é legítimo conservar sem exame o descrédito moderno lançado sobre o suposto “obscurantismo” e a “superstição” de uma Idade Média que a própria denominação moderna coloca à distância.
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Reforma e Iluminismo, apesar de sua força e nobreza, habituaram-se também a relacionar-se com o passado europeu de maneira análoga àquela com que antigas etnologias tratavam os chamados povos primitivos.
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A desclosão do etnocentrismo deve valer igualmente para a relação do Ocidente consigo mesmo.
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Não se trata de restaurar práticas ou instituições religiosas tradicionais, mas de ultrapassar a simples acusação de primitivismo e clericalismo para recolocar em questão os paradigmas de racionalidade, liberdade e autonomia transmitidos pela narrativa da emancipação humana.
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Talvez seja necessário emancipar-se também de uma determinada concepção da própria emancipação que via nela a cura de uma doença vergonhosa.
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Nietzsche não simplifica essa tarefa, pois sua crítica permite pensar uma “doença congênita” do Ocidente — platonismo e judaico-cristianismo — não simplesmente como acidente patogênico, mas como constituição essencial capaz de exigir outro conceito de saúde.
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Uma condição congênita não equivale a uma doença infantil e pode constituir precisamente as condições de uma saúde que não corresponde às normas previamente estabelecidas.
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Todos os motivos legítimos de acusação contra o cristianismo — desde o desapossamento do pensamento até a exploração da dor e da miséria — permanecem válidos, mas precisam ser levados além da acusação.
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Deve-se interrogar como uma dominação religiosa tão poderosa e duradoura pôde exercer-se sobre um mundo que simultaneamente não cessava de frustrá-la, depô-la e encontrar nela própria armas contra ela, entre as quais liberdade, indivíduo e razão.
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Em seu núcleo essencial, o cristianismo designa a exigência de abrir neste mundo uma alteridade ou alienação incondicional.
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“Incondicional” não significa um termo indestrutível situado para além da desconstrução, mas a amplitude juridicamente infinita do próprio movimento da desconstrução e da desclosão.
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O cristianismo assume assim, da maneira mais radical e explícita, a questão do alogon.
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O “outro mundo” ou o “outro reino” nunca precisam significar um segundo mundo ou um além-mundo, mas o outro do mundo, isto é, aquilo que excede todo mundo enquanto consistência ligada no ente e na comunicação.
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Viver neste mundo como fora dele significa reconhecer um “fora” que não é um ente e não existe como região separada, mas que define e mobiliza a própria ex-sistência.
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A existência é assim abertura do mundo à alteridade inacessível e, paradoxalmente, acesso a essa própria inacessibilidade.
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De Paulo e João a
Tomás de Aquino, Mestre
Eckhart, Francisco,
Lutero, Calvino, Fénelon,
Hegel e
Kierkegaard, o cristianismo desclosa, em seu gesto essencial, a clausura que ele próprio constrói ao mesmo tempo que oferece à metafísica da presença sua mais poderosa reserva imaginária.
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Foi necessária precisamente a intensidade cristã da exigência de alteridade para desmontar a prova ontológica e também para proclamar a “morte de Deus”.
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O cristianismo encontra-se no coração da desclosão ao mesmo tempo que ocupa o centro da clausura.
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A lógica dessa intricação funda-se novamente na exigência do incondicionado, isto é, do alogon, cuja abertura é condição para que o pensamento não renuncie a pensar.
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Desconstruir o cristianismo não significa apenas submetê-lo a uma operação filosófica externa, mas apreender nele próprio, saindo dele e excedendo-o, o movimento de uma desconstrução.
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Essa desconstrução corresponde ao desajuste das pedras da construção e ao olhar dirigido para o vazio, para a coisa-nada aberta pelo afastamento dessas pedras.
c. “Maior do que se possa pensar”
O princípio da desclosão encontra-se inscrito no próprio coração da tradição cristã quando Anselmo, no Proslogion, conduz o pensamento para além da fórmula segundo a qual Deus é aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado e alcança a formulação mais radical do “maior do que se possa pensar”, fazendo do excesso do pensamento sobre sua própria capacidade o núcleo da experiência racional do incondicionado.
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O movimento fundamental do Proslogion não reside simplesmente numa “prova ontológica”, mas na passagem daquilo maior do que o qual nada pode ser pensado para aquilo que é maior do que pode ser pensado.
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O pensamento não pode deixar de pensar o máximo do ser que lhe é possível pensar e, ao mesmo tempo, um excesso sobre esse próprio máximo.
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Ele pode pensar que existe algo que excede seu poder de pensar, e é precisamente essa possibilidade que o conduz para além de sua própria medida.
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O pensamento, entendido não apenas como intelecto, mas também como coração e exigência, pensa inevitavelmente que pensa um excesso sobre si mesmo.
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Em vez de simplesmente penetrar o impenetrável, é o próprio pensamento que se descobre penetrado por ele.
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Somente esse movimento constitui a razão em sua incondicionalidade, na absolutidade e infinitude do desejo pelo qual o homem se ultrapassa indefinidamente.
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Anselmo aparece assim menos como simples representante do cristianismo do que como portador de uma necessidade que define o mundo moderno do pensamento e a experiência existencial do próprio pensar.
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“Deus” torna-se o nome dessa experiência.
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O nome pode ser recusado por numerosas razões, mas a experiência que ele nomeia não pode ser evitada.
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Permanece então a questão de saber se tal experiência requer ou não uma nomeação especial, distinta de toda nomeação conceitual, e se “deus” ou “divino” podem funcionar como índices ou marcas dessa experiência.
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A verdadeira medida da desclosão encontra-se na capacidade de recuperar, para além de toda dominação, a exigência que conduz o pensamento para fora de si mesmo sem confundir sua irredutibilidade absoluta com construção de ideais ou fabricação de fantasmas.
4. O que segue
O conjunto subsequente não pretende constituir uma exposição contínua e sistemática, mas reunir provisoriamente textos heterogêneos que circundam a mesma questão da desconstrução e da desclosão do cristianismo, tendo como axioma não a possibilidade de restaurar filosoficamente uma crença em Deus, mas a necessidade de perguntar se a fé alguma vez se confundiu verdadeiramente com a crença e se ela não constitui antes uma relação com o nada, isto é, com a ausência de qualquer apoio ou termo indestrutível capaz de deter a abertura indefinida da desclosão.
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Os textos reunidos não formam um desenvolvimento organizado e contínuo, mas um conjunto provisório de escritos dispersos que se aproximam do mesmo objeto sem ainda o enfrentarem sistematicamente.
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A dificuldade decorre da estreiteza extrema do espaço em que essa operação pode mover-se, tanto filosoficamente quanto socialmente, entre endurecimentos, recusas e complacências de diferentes ordens.
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Trata-se, portanto, de um canteiro aberto, e não de uma construção terminada.
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O único axioma possível nesse estágio é que não se trata de sugerir que um filósofo possa simplesmente “crer em Deus” ou em deuses.
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A questão decisiva consiste antes em saber se a fé alguma vez se confundiu realmente com a crença.
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A crença não possui caráter especificamente religioso, pois também há crenças profanas, científicas e filosóficas.
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A fé, ao contrário, pode constituir a relação necessária com o nada, isto é, com aquilo em que não existe ponto de parada, referência última nem termo indestrutível.
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A desclosão não termina de abrir aquilo que abre: o Ocidente, a metafísica, o saber, o si, a forma, o sentido e a própria religião.
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Esperança e caridade, as duas outras virtudes teologais, isto é, os outros modos de relação com o objeto da fé, permanecem reservadas para elaboração posterior.
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A ordem dos textos possui apenas consistência relativa e não precisa ser seguida rigidamente, pois eles foram compostos em circunstâncias muito diferentes.
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“Ateísmo e monoteísmo” deverá precisar e explicitar a perspectiva inicialmente delineada, assim como “Desconstrução do monoteísmo”, de caráter mais didático e anterior.
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“O judaico-cristão” e “Uma fé de absolutamente nada” tratam da ideia de fé em relação, respectivamente, a
Derrida e a Granel.
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“Uma experiência no coração” procura restituir a experiência “cristã” do
Nietzsche ateu.
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“Verbum caro factum” desenvolve uma reflexão breve e provisória sobre a encarnação.
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“O nome de Deus em
Blanchot” reúne indicações daquele que talvez tenha se aproximado mais de uma relação vazia de crença com aquilo que “Deus” pode ou deve nomear.
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O motivo da ressurreição é igualmente examinado a partir de
Blanchot e de uma discussão com
Derrida, da qual “Consolação, desolação” conserva um vestígio.
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O texto dedicado ao gesto a que, em Heidegger, se reduz o “último deus” coloca esse motivo em relação com a différance.
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“Uma isenção de sentido” introduz, a partir de uma expressão de Barthes, uma reflexão ateológica sobre o sentido.
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“Prece desmitificada” prolonga uma reflexão de Michel Deguy sobre a possibilidade de uma oração não religiosa.
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“A desconstrução do cristianismo”, sendo o texto mais antigo do conjunto, permanece aquém dos demais, mas marca o primeiro traçado da via estreita e difícil considerada necessária.
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Esse texto indica também a possibilidade de uma análise desconstrutiva dos principais elementos do dogma cristão, ainda apenas esboçada no conjunto.
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“A desclosão” oferece finalmente, no registro da conquista espacial e de um céu desertado e reaberto, uma variação formal do mesmo tema.
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O divino pode então ser pensado não como ente supremo, mas como abertura ou espaçamento, ele próprio espaçado de si mesmo e em si mesmo.