Em contraste, surge o Eu pensante de
Descartes e de Pascal, apreendido em um instante de evidência absoluta.
-
Esse Eu coincide inteiramente consigo mesmo enquanto pensa, sendo tudo o que pensa ser e nada além disso.
-
Caracteriza-se por uma abertura total e por uma transparência sem resto, sem outro mistério que não o da própria evidência.
-
A tradição empirista inglesa introduz uma série subjetiva constituída por ideias que se conhecem a si mesmas em um contato imediato e mudo.
-
A subjetividade é aqui concebida como autoafeção natural, sem necessidade de mediação reflexiva explícita.
-
O conhecimento de si ocorre por uma propriedade intrínseca das próprias ideias.
-
A subjetividade em Rousseau aparece como um abismo ambíguo de culpabilidade e inocência.
-
Esse Eu organiza sozinho o complô em que se sente aprisionado.
-
Ao mesmo tempo, reivindica legitimamente uma bondade incorruptível diante de seu destino.
-
O sujeito transcendental kantiano é apresentado como distinto da intimidade psicológica e, ao mesmo tempo, mais próximo do mundo.
-
Ele contempla mundo e eu empírico após tê-los constituído.
-
Apesar disso, reconhece-se como habitante do mundo que constrói.
-
Em Maine de Biran, a subjetividade é inseparável do corpo.
-
O sujeito não apenas sabe estar no mundo, mas efetivamente está nele.
-
A possibilidade mesma de ser sujeito depende da posse de um corpo capaz de movimento.
-
Em
Kierkegaard, a subjetividade deixa de ser uma região do ser para tornar-se o modo fundamental de relação com o ser.
-
Ser subjetivo é existir de modo comprometido, em oposição ao pensamento objetivo que sobrevoa as coisas.
-
A subjetividade é condição para que algo seja efetivamente pensado.
-
Diante dessa multiplicidade, surge a questão do sentido de falar em uma única descoberta da subjetividade.
-
A noção de descoberta não pode ser entendida em sentido empírico ou retrospectivo.
-
A reflexão não encontra uma subjetividade pronta, mas transforma aquilo que pretende desvelar.
-
A ideia de um cogito pré-reflexivo levanta dificuldades conceituais decisivas.
-
A reflexão não apenas revela o irrefletido, mas o modifica.
-
A crítica heideggeriana afirma que o ser foi perdido quando fundado sobre a consciência de si.
-
Apesar dessas dificuldades, mantém-se o uso do termo descoberta em um sentido filosófico específico.
-
Trata-se de algo que, uma vez introduzido, não pode mais ser ignorado pelo pensamento.
-
Mesmo superada, a subjetividade transforma irreversivelmente a filosofia.
-
O parentesco entre as filosofias da subjetividade aparece quando são confrontadas com tradições que não privilegiam o sujeito.
-
Elementos dessa problemática já estavam presentes na filosofia grega.
-
A máxima do homem como medida de todas as coisas antecipa a centralidade do sujeito.
-
A alma é reconhecida como capaz de erro e de verdade, mantendo relação essencial com o não-ser.
-
Contudo, para os gregos, o ser do sujeito nunca é a forma canônica do ser.
-
A modernidade desloca esse eixo ao colocar o ser-sujeito no centro da filosofia.
-
A subjetividade não é coisa nem substância, mas extremidade do particular e do universal.
-
Sua natureza proteica explica a diversidade das filosofias que a tematizam.
-
Sob as divergências, oculta-se uma mesma dialética da subjetividade.
-
Ela oscila entre duas figuras fundamentais.
-
Essas figuras não são opostas, mas aspectos de uma mesma ideia.
-
A primeira figura é a subjetividade vazia, universal e solta.
-
A segunda figura é a subjetividade plena, entranhada no mundo.
-
A descoberta da subjetividade não é comparável à descoberta de um continente ou de um elemento químico.
-
Ela é uma construção que se torna inevitável pela força de seus testemunhos.
-
Uma vez introduzida, adquire a solidez de um fato filosófico.
-
A filosofia não pode simplesmente anular o pensamento do subjetivo.
-
Ela deve digeri-lo, transformá-lo ou superá-lo por pensamentos mais adequados.
-
Mesmo a nostalgia de uma ontologia pré-subjetiva depende da consciência de si.
-
A subjetividade é, portanto, um pensamento aquém do qual não se retorna.