Contrariando a leitura da desconstrução, a teologia de Dionísio, o Areopagita, não opera com uma oposição binária entre afirmação e negação, mas com uma triplicidade de vias: a afirmação, a negação e uma terceira via que as transcende, situando-se “acima de toda tese e de toda negação”.
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Essa terceira via não se limita a uma negação que restaura a afirmação, mas visa aquilo que está “além de toda afirmação e negação”, o que exige uma ruptura com a lógica predicativa e com as duas valores de verdade da metafísica.
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Dionísio, ao afirmar a superioridade das negações sobre as afirmações, também submete a própria negação à transgressão final, que conduz ao “des-nomear”, um movimento que não diz nem nega, mas refere-se pragmaticamente ao Inatingível, utilizando o termo “Réquisito” para superar a função predicativa da linguagem.
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O prefixo “hiper” ou “supra” não restaura a afirmação, mas nega a essência e a presença, servindo para indicar uma transcendência que não pode ser capturada por nenhum conceito, e que leva a uma linguagem que não predica, mas age, referindo-se ao que des-nomeia.
III - O louvor e a oração
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A objeção de que o louvor e a oração são formas de prédicação disfarçada é contestada, pois o nome próprio nunca é nome da essência, sendo sempre impróprio e indicando a ausência e o anonimato, em vez da presença.
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O nome próprio, inclusive o de Deus, não fixa a essência, mas marca a impossibilidade de coincidência com ela, e a oração, ao invocar o Inatingível “como…” e “enquanto…”, opera uma des-nominação que é uma visada indireta, não predicativa, mas pragmática, que se refere a Deus sem nomeá-lo em sua essência.
IV - De outro modo que o ser
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A acusação de que a teologia mística se inscreve no horizonte do ser e na onto-teo-logia é refutada, pois Dionísio subordina o ser ao bem, que transcende inclusive o não-ser, mostrando que o horizonte do ser é regional e não último.
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A tentativa de pensar “de outro modo que o ser” não pode ser realizada por meio de uma prédicação, e a impossibilidade de dizer o que é esse “outro modo” não é um fracasso, mas a própria atestação da transcendência, que exige uma pragmática da palavra, não uma ontologia.
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A terceira via, ao suspender a prédicação, não fracassa em seu propósito, mas o cumpre, abrindo para uma experiência que não é de conhecimento objetivo, mas de exposição a um não-objeto que educa e transforma mais do que informa.
V - O privilégio do desconhecimento
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A teologia cristã, desde os Pais da Igreja, sustenta que Deus é incompreensível e invisível, e que o verdadeiro conhecimento de Deus consiste em saber que não se pode conhecê-lo por conceitos, pois um Deus compreendido deixaria de ser Deus.
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A heresia ariana, ao contrário, tenta definir a essência divina por um nome próprio (inengendrado), caindo na metafísica da presença, enquanto a teologia ortodoxa defende a des-nominação e a incompreensibilidade como características essenciais de Deus.
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O “Nome” de Deus não é um nome próprio que revela uma essência, mas um nome que indica o inominável, e a teologia mística busca não encontrar um nome para Deus, mas receber o próprio nome a partir do Nome inefável, em uma pragmática teológica da ausência que se opõe à metafísica da presença.
VI - O fenômeno saturado por excelência
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A teologia mística pode ser compreendida fenomenologicamente como uma terceira via que corresponde a um fenômeno saturado, no qual a intuição excede a intenção, tornando a predicação e a compreensão conceitual impossíveis não por falta, mas por excesso de doação.
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O fenômeno de Deus, se considerado, se caracterizaria por um excesso de intuição que submerge qualquer conceito, e a incompreensibilidade não resulta de uma falta de dados, mas de uma saturação que ultrapassa toda capacidade de significação, manifestando-se na terra ou no fascínio.
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O “Nome” não deve ser dito, nem afirmado, nem negado, pois essas operações ainda pertencem à prédicação e à metafísica da presença; o Nome é um lugar para se habitar, um apelo que nos chama e nos nomeia, e a teologia, em vez de falar de Deus, fala a Deus, realizando-se como liturgia.