MARION, Jean-Luc. De surcroît: études sur les phénomènes saturés. Paris: PUF, 2010.
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A filosofia precisa reivindicar algum tipo de primazia para não desaparecer como tal, pois as ciências contemporâneas não buscam mais nela seus princípios ou fundamentos, e a própria ideia de “filosofia primeira” tornou-se vital para que a filosofia mantenha sua identidade diante da autonomia conquistada pelas ciências.
I - Da primazia em filosofia
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A justificativa aristotélica para a “filosofia primeira”, baseada no estudo da ousia imóvel e separada, revela-se frágil para o pensamento moderno porque as noções de substância e essência, que a sustentam, foram sucessivamente criticadas, tornando incognoscível a própria instância que deveria garantir a primazia.
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A tentativa de
Tomás de Aquino de reformular a “filosofia primeira” como a ciência das causas das coisas também não oferece uma base sólida, uma vez que o conceito de causa perdeu sua validade transcendental e não pode mais assegurar qualquer primazia para a filosofia.
II - As duas primeiras filosofias primeiras
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A substituição da primazia ôntica e aitiologica pela primazia noética, operada por
Descartes e
Kant, funda-se na anterioridade do conhecimento, mas o “Eu” transcendental que a sustenta não pode fundamentar-se a si mesmo e permanece desconhecido em sua individuação, o que torna essa primazia igualmente problemática.
III - A terceira filosofia primeira
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A fenomenologia, ao reivindicar o título de “filosofia primeira”, propõe uma nova figura de primazia que se distingue das três acepções metafísicas anteriores (ousia, causa e noética) e que precisa ser clarificada em seus próprios termos.
IV - A fenomenologia como possibilidade de uma outra filosofia primeira
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As três formulações clássicas do princípio da fenomenologia são insuficientes, pois ou repetem pressupostos metafísicos, ou são imprecisas, ou não mencionam a operação fundamental da redução, o que exige a busca de um princípio mais adequado.
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O princípio “Quanto mais redução, mais doação” estabelece que a redução fenomenológica, ao eliminar as transcendências, torna a doação absoluta e indubitável, e essa articulação íntima entre redução e doação define o princípio propriamente fenomenológico.
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A doação, garantida pela redução, confere certeza incondicional ao fenômeno, porque o que se dá está além de qualquer dúvida, e essa certeza se universaliza, abrangendo não apenas o ego, mas todos os vividos e objetos intencionais que se dão conforme a redução.
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A universalidade da doação é confirmada pela constatação de que nada do que aparece escapa à doação, pois o próprio aparecer já é um modo de se dar, e mesmo o nada, a morte ou a ausência se manifestam como fenômenos dados de alguma maneira.
V - A doação, último princípio
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A objeção de que a doação reintroduziria um conceito teológico de causa é refutada, pois a doação fenomenológica é imanente e depende da redução que suspende a transcendência, e o termo “doação” designa o estatuto fenomenológico do dado como algo que advém e se impõe, sem remeter a uma origem externa.
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A fenomenologia, ao contrário das filosofias primeiras metafísicas, não funda o fenômeno em um princípio a priori, mas faz da doação um “último princípio” que devolve ao fenômeno sua prioridade, invertendo a própria ideia de “filosofia primeira” para uma “filosofia última”.
VI - De um uso da doação em teologia
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No que tange ao uso da doação em teologia, a fenomenologia mantém uma relação crítica com a teologia metafísica, mas pode legitimamente se interessar pela teologia revelada, pois esta se manifesta através de fenômenos que colocam questões sobre a especificidade da fenomenalidade da revelação.
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A teologia revelada poderia se beneficiar de uma leitura fenomenológica de seus eventos, ao passo que a fenomenologia é desafiada a aprofundar a compreensão do próprio ato de se dar, que permanece enigmático apesar de sua centralidade.