A resposta à primeira questão exige examinar a autointerpretação de Husserl sobre a ruptura, que reside na exigência de um “hábito anti-natural da reflexão”.
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A fonte das dificuldades da análise fenomenológica pura está na orientação anti-natural do pensamento e da intuição que ela exige.
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Este hábito exige não considerar os objetos como efetivos, mas os atos que os sustentam, reconduzindo as concepções à intuição que lhes corresponde.
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O “retorno às coisas mesmas” (auf die “Sachen selbst” zurückgehen) se realiza precisamente por meio de intuições completamente desenvolvidas (vollentfalteten Anschauungen), que tornam evidente o dado na abstração atual.
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A verificação dos enunciados exige sua repetição a partir da intuição efetivamente performada, a partir dos atos, em uma remontagem intuitiva às necessidades essenciais.
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A regra do retorno à intuição se aplica universalmente, pois todo pensamento coerente pode se tornar intuitivo.
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A autointerpretação tardia de Husserl, no ensaio de Prefácio de 1913, explicita a ruptura como sendo estritamente “intuitiva” (intuitiv) em um sentido radical e ampliado, o que constituiria a diferença profunda de seu racionalismo.
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Já em 1901, Husserl via a pedra angular (Grund- und Eckstein) da fenomenologia em um “alargamento fundamental” (fundamentale Erweiterung) dos conceitos de percepção e intuição.
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Conclui-se, portanto, que a ruptura consiste na elevação da intuição, como operadora da evidência, ao posto de justificação fenomenológica adequada e determinante (massgebend) para todos os enunciados.