O terceiro termo da questão do ser não acrescenta senão o próprio Dasein, que, ao contrário do objeto husserliano confinado à imanência, transcende a si mesmo e assim ao ente rumo ao ser, transcendens por excelência
-
O Dasein não apenas exerce a diferença ontológica por autotranscendência, mas é ele próprio essa diferença, sendo o único ente para quem o ser tem sentido, existindo como transição perpétua do ôntico ao ontológico
Em 1927, contudo, Heidegger identifica o Dasein não à diferença ontológica, mas à própria questão do ser, pois o terceiro termo introduzido não é o sentido do ser em geral, mas o próprio Dasein, que oferece o único elo possível entre o ente e o ser em questão
O desconhecimento da diferença ontológica pela “diferença ontológica”
-
Conclui-se paradoxalmente que Ser e Tempo conhece uma diferença ontológica, mas não pensa ainda a diferença ontológica propriamente dita, porque esta obedece à construção ternária da questão do ser, que impede o acesso à dimensão estritamente dual da diferença futura
-
As duas últimas páginas publicadas, o §
83, colocam explicitamente essa questão ao reconhecer que a analítica do Dasein permanece preparatória e que resta saber se a ontologia se funda ontologicamente ou necessita de um fundamento ôntico
-
Notas manuscritas do próprio Heidegger em seu exemplar pessoal criticam retrospectivamente a construção inicial: o sentido do ser não pode se ler diretamente sobre um ente, e o Dasein não possui primazia intrínseca, mas apenas exemplaridade pelo jogo do ser nele ressoado
-
A tripla primazia do Dasein — ôntica, ontológica e ôntico-ontológica — fundamenta a primazia da própria questão do ser, de modo que questionar o Dasein equivale a questionar a legitimidade de reduzir a diferença ontológica à “diferença ontológica” ôntica
-
Conclui-se que Ser e Tempo deve seu inacabamento à dissimulação da diferença ontológica pela “diferença ontológica” mediada pelo Dasein, que assim acrescenta, nele mesmo, enigma sobre enigma