Problematização da noção de “si” (
soi) do fenômeno em Marion, conforme Shane Mackinlay.
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Uso frequente da noção de “si” do fenômeno para expressar auto-doar-se (Selbst-gebung, donation de soi) dos fenômenos.
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Ausência de discussão detalhada sobre essa noção na obra de Marion.
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Atribuição de um “si” aos fenômenos funciona como modo de excluir alegações sobre papel da subjetividade na fenomenalidade.
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Referências ao “si” do fenômeno servem para destacar a auto-doação (self-givenness) dos fenômenos.
Fenômeno saturado (
saturated phenomenon) exemplifica como fenômeno é dado sem condições e não limitado por autoridade além dele mesmo.
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Definido como excesso de intuição sobre intencionalidade, situação em que capacidades subjetivas não são capazes de constituir fenômenos como objetos.
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Modo excessivo de aparecer do fenômeno saturado contradiz condições subjetivas da experiência por não admitir constituição como objeto.
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Marion usa categorias kantianas para destacar caráter dado dos fenômenos saturados, cuja exposição implica reversão de cada categoria.
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Reviravolta do poder determinante das categorias kantianas descreve cada fenômeno saturado como contra-fenomenalidade à objectness.
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Condições de possibilidade da objectness vêm da ideia da subjetividade transcendental.
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Fenômenos saturados, por não serem objetos, traçam novo alcance de fenomenalidade com base na doação.
Evento como fenômeno saturado descrito como “fenômeno não-objetivo ou, mais exatamente, não objetificável”.
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Além de exemplo de fenômeno saturado, evento tem função paradigmática.
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Eventness é modo de fenomenalidade em geral que define “cada tipo de fenômeno saturado” e “o fenômeno como dado em geral”.
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Relação etimológica entre palavras alemãs “Begebenheit” (evento) e “Gegebenheit” (doação) sugere considerar se fenomenalidade do evento é paradigmática para fenomenologia da doação.
Prioridade do evento em relação a outros fenômenos saturados devido à sua perfeita concordância com o caráter dado do fenômeno descrito por Marion.
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Doação sobrepõe tanto o dado quanto o receptor no próprio evento.
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Não há a priori, nem mesmo a priori passivo, nem aquele do eu transcendental, nem do eu empírico.
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Fenômeno saturado mais original é o evento, que realiza destruição do a priori.
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Evento acontece como único a priori autoimpositivo, de modo que tudo mais acontece através dele.
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Acontecer é, por definição, acontecer a posteriori.
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Único a priori correto reside no a posteriori universal do evento.
Ênfase de Marion no evento em sua explicação do caráter dado dos fenômenos é crucial em dois aspectos.
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Caracterização do status do evento como “mais original” devido à sua realização paradigmática da doação.
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Modo como evento aparece também é modo de fenomenalidade em geral.
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Seu caráter a posteriori contrasta o modo da eventness com o outro modo de fenomenalidade, a objectness.
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Evento tem papel central na “subjetivação” (subjectivation) do sujeito para Marion.
Como evento acontece sem condições a priori, papel constituinte do sujeito em seu aparecer não está mais em questão.
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Aposterioridade significa que aquele que experiencia evento torna-se adonné porque adonné “recebe a si mesmo daquilo que recebe”.
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Passagem vai do evento para a subjetivação, não o inverso: ponto de partida para o adonné é o evento, não o sujeito.
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Tal compreensão do sujeito contradiz ideia da subjetividade do “eu transcendental” por não ser um lócus do aparecer dos fenômenos.
Noção de evento como fenômeno saturado mais importante e modo de fenomenalidade com papel vital na subjetivação do
adonné.
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Evento não permite que compreensão a priori do sujeito – eu transcendental – esteja envolvida em sua ocorrência.
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Por aparecer excessiva e imprevisivelmente, evento não pode ser governado por poderes subjetivos de síntese, constituição ou objetificação.
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Marion critica e desmonta compreensões fenomenológicas anteriores da subjetividade com sua concepção do adonné.
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Assim como sua análise da eventness implica crítica da objectness, sua análise do adonné implica crítica de seu oposto, subjetividade transcendental.
Toda análise da fenomenalidade requer sua própria configuração do sujeito; essa abordagem deriva da transformação heideggeriana do sujeito.
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Heidegger, com Dasein, facilita destruição do ego cartesiano e da subjetividade transcendental.
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Dasein visa ir além dos limites impostos pela noção de sujeito, pois cada ideia de sujeito implica compreensão ontológica de hypokeimenon (subjectum).
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Heidegger emprega noção de Dasein em vez de pensar ser humano como sujeito, por considerá-la livre de herança ontológica do ego cartesiano ou da subjetividade transcendental.
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Problema da noção de subjectum vem de sua origem na noção grega de hypokeimenon (subjacente), identificada desde início com conceito de substantia ou substância (ousia).
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Descartes permitiu que essa noção ontológica se aplicasse a uma existência particular, ao “ego” ou “eu” como “res cogitans”.
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Ego torna-se sujeito como ser substancial entre outros seres; privilégio do ego como coisa pensante (res cogitans) estabelece sua prioridade ontológica sobre outros seres, coisas extensas (res extensa).
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Descartes realiza reflexões fundamentais de suas Meditações aplicando ontologia medieval a esse ser (Seiende) que posiciona como fundamentum inconcussum (fundamento inabalável).
Definição e função egológica do sujeito servem para determinar concepção filosófica do ser humano de Descartes a
Husserl.
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Torna-se “fundamento ontológico” e serve como ponto de partida metodológico para Husserl.
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Heidegger introduz
Dasein como alternativa ao ego cartesiano e às formas que assume em
Kant e Husserl.
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Como novo ponto de partida para ontologia, Dasein possibilita questionar sentido do ser (Sein), negligenciado na história da filosofia.
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Em vez de ser sujeito e substância, Dasein à luz de sua análise existencial guiará investigação sobre sentido do ser que compõe sua ontologia fundamental.
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Análise existencial heideggeriana do Dasein pretende ser mais fundamental que compreensão do ser humano encontrada na antropologia, psicologia e biologia.
Definição do ser humano nessas disciplinas idêntica à definição de sujeito como substância, sem objetivo de alcançar compreensão ontológica desse ser.
Christian Sommer interpreta
adonné de Marion como resultado da “virada teológica” na fenomenologia francesa.
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Relaciona concepção de subjetividade de Marion, como herdeiro de Heidegger e Husserl, com “antropologia fenomenológica”, termo emprestado de Hans Blumenberg.
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Blumenberg buscou desenvolver essa noção em contraste com atitudes críticas de Husserl e Heidegger em relação à noção de antropologia.
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Adonné, como “sujeito sem subjetividade”, fornece nova analítica fenomenológica do sujeito – subjetividade “descentrada” – de modo similar à análise heideggeriana do Dasein, mas também envolve tentativa de superar Heidegger e Husserl.
Objetivo de Marion de superar metafísica e “aproximar-se precisamente de fenômenos de 'outro modo que ser'” abre figura pós-metafísica do sujeito, oposta tanto ao sujeito transcendental quanto ao
Dasein.
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Projeto de Marion visto como adequado à noção blumenberguiana de “antropologia fenomenológica” como retorno ao pensamento antropológico na fenomenologia através de “dupla releitura crítica de Husserl e Heidegger”.
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Adonné pode ser pensado em relação à ideia de antropologia fenomenológica de Blumenberg, mas objetivo aqui não é relacioná-los, mas abordar como Sommer vincula adonné ao projeto heideggeriano de reinterpretar o sujeito fenomenológico como sujeito pós-metafísico.
Dasein como destruição da subjetividade metafísica e análise de Marion do
adonné como sujeito descentrado são tematicamente similares.
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Como o Dasein de Heidegger, o adonné de Marion é uma análise pós-metafísica da subjetividade por não ser mais um hypokeimenon e não ter papel constitutivo ou função a priori.
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Crítica do sujeito metafísico moderno e reconfiguração pós-metafísica da subjetividade servirão para guiar compreensão da subjetivação do adonné por meio do evento.
Sequência da análise: primeiro engajar-se com análise de Marion das aporias do sujeito transcendental em Kant e Husserl; depois focar em sua compreensão da nova subjetividade do
adonné.