A doutrina de
Agostinho sobre a fraqueza da vontade difere radicalmente das interpretações que a reduzem a uma obscuridade do conhecimento, como em
Tomás de Aquino, onde o pecado resulta de uma ignorância, ou em
Kant, onde a vontade é apenas “maldade” mas não “perversidade”, ou ainda em Davidson, onde a fraqueza é uma falta de razões suficientes.
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Para
Agostinho, o mal é querido como mal, em pleno conhecimento, e o ato de transgredir visa o próprio gozo da transgressão, amando o próprio defeito e a própria queda, de modo que a vontade má quer o nada e não tem uma causa eficiente, mas apenas uma causa deficiente.
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A vontade, para querer verdadeiramente, deve querer com veemência (vehementer velle), e esta veemência é o amor, de modo que a pessoa só quer verdadeiramente quando ama o que quer, e o amor é a única vontade verdadeiramente forte e eficaz.
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A ambivalência do amor é tal que ele pode tornar o bem ou o mal, dependendo do que ama, e a vontade má ainda presta homenagem ao amor, pois precisa amar para querer o mal, e o amor determina a pessoa mais originalmente do que a vontade.
29. A graça de querer
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A vontade só se realiza plenamente ao tornar-se amor, mas este amor não pode ser produzido por si mesmo, sendo antes um dom que precede a vontade, e o princípio “Dá o que mandas e manda o que queres” expressa o paradoxo de uma vontade que só pode querer o que lhe é dado amar.
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A graça não suprime a vontade, mas a transforma de má em boa, e a assiste para que ela possa agir eficazmente, e a liberdade não é uma condição para a graça, mas a graça é a condição para a liberdade, pois sem ela a vontade não pode querer verdadeiramente.
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Deus não nos dá apenas o poder para o que queremos, mas o próprio querer, ou seja, a capacidade de querer o que queremos querer, e a resolução que define o eu em mim pertence-me, mas não vem de mim, vindo de outro lugar.
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Torna-se possível, então, querer o que Deus quer, não porque se renuncia ao próprio querer, mas porque se começa a querer verdadeiramente, plenamente (ex toto), uma vez que se quer o que é dado a amar.