O primeiro movimento da verdade consiste em remeter a pessoa a um julgamento sobre si mesma, tornando-se uma provação, e a não-verdade não consiste na falsidade ou no erro, mas na fuga a essa provação, no mentir, que não nega a verdade, mas a falsifica, pretendendo possuí-la sem recebê-la.
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A mentira não inverte a verdade nem a obscurece, mas perverte seu modo de manifestação, substituindo um pronome possessivo por outro, e a diferença reside no “como” do olhar hermenêutico, que vê a beleza como um dom a ser recebido ou como um bem a ser apropriado.
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A contradição do desejo, ao querer se apropriar da beleza, leva à perda do bem, que se evapora ao ser possuído, e a alma, ao se apegar a um bem menor, confunde-se e concreta-se com ele, tornando-se menos do que si mesma.
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O mentiroso não repudia a verdade, mas quer mantê-la intacta e compatível consigo mesmo, e o ódio à verdade ainda testemunha, de modo radical, um amor invertido pela verdade, pois o mentiroso quer transformar o que ama em verdade aparente para opor verdade à verdade.
21. A verdade de terceira ordem
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A substituição do desejo de conhecimento pelo desejo de beatitude assume todo o seu alcance, e a verdade torna-se desejável e desejada porque o gozo nela constitui a beatitude, e o amor à verdade é a condição de possibilidade para conhecer a verdade, que se manifesta como beleza e como aquilo que se ama.
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A verdade como correção de uma asserção, na qual o intelecto julga e constitui a verdade, não exige amor, pois a pessoa permanece o juiz final da verdade e não é diretamente afetada por ela.
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A verdade como desencobrimento, na qual a coisa se fenomenaliza por si mesma, depende do Dasein como condição de possibilidade, e a pessoa ainda não precisa amar ou odiar a verdade, mas apenas realizá-la ou não.
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A verdade de terceira ordem, na qual a verdade se manifesta apenas na medida em que é amada, e o ódio basta para encobrir essa manifestação, é uma verdade erótica, onde o amor dá a resistência necessária para receber o golpe da verdade em seu choque inevitável.
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Pascal,
Nietzsche,
Wittgenstein e
Levinas, cada um a seu modo, retomam a doutrina agostiniana de que o amor é condição epistemológica para o conhecimento da verdade, opondo à verdade não o erro ou a falsidade, mas a mentira, e compreendendo a verdade como veracidade ou sinceridade, como o próprio ato de dizer.
22. A verdade amada: pulchritudo
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Se a verdade deve ser amada para ser conhecida, então ela deve aparecer como amável, e
Agostinho pensa a verdade na medida em que é amável com o nome de beleza, de modo que a sabedoria dos filósofos, mesmo quando verdadeira, deve ceder à verdade bela, que é amável ou odiável.
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O amor à verdade, compreendido a partir da questão do amor e não mais do horizonte do Ser, não serve para a definição da filosofia, mas para a sua transgressão, e o amor não é apenas uma preparação provisória para a posse da verdade, mas o operador último e talvez único da abertura à verdade.
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O atraso em amar a beleza resulta da relutância e do recuo diante do excesso de luz imposto pela verdade, e para compensar esse atraso, é necessário retornar da ausência à presença e expor-se a suportar a evidência da verdade, o que só pode ocorrer vendo-a como beleza e, finalmente, amando-a.
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A beleza, no entanto, toma o passo que a pessoa não pode dar em sua direção, atraindo-a com uma sedução suficientemente forte para fazê-la confessar seus pecados, e a beleza, que é “tam antiqua et tam nova”, nunca deixou de fazê-lo, chamando a pessoa e despertando seus sentidos para a verdade.
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A doutrina do amor à beleza, uma filocalia radical, é apresentada por
Agostinho como um corretivo essencial para a filosofia, e a beleza não se limita a um domínio particular da experiência, mas assegura para o mundo em sua totalidade o modo de sua redução erótica, na qual a verdade pode ser conhecida na medida em que é amada.
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A beleza abre e torna-se ela mesma um caminho que atravessa toda a criatura, propondo-a a ser vista como seu Criador a vê, e ao mesmo tempo, transgredindo-a em direção à beleza absoluta do verdadeiro, de modo que as coisas aparecem belas apenas na beleza absoluta, assim como se mostram verdadeiras apenas na verdade absoluta.
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O último passo é que a própria pessoa se torne bela através da própria beleza, pois para conhecer a verdade na medida em que é amável, é necessário que a pessoa se una a ela e se torne o que ela dá a ver, e a questão da verdade torna-se a questão da vontade de amar a verdade.