A memória, na sua aporia, impõe à mente que ela se ultrapasse a si mesma na busca do seu próprio recuo, e a única via para a ipseidade seria a mente reencontrar o imemorial por um pensamento que se transcende, o que parece uma contradição, a menos que o imemorial não seja um objetivo, um objeto ou um ente, mas algo sem objeto e utópico.
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Se o imemorial escapa a todo o pensamento intencional, o pensamento pode ainda pensar-se a partir do que não pode compreender, mas que o compreende, e para isso seria necessário substituir o pensamento intencional por um “grande pensamento” que se deixa vir a si e pesar sobre si, como o desejo.
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O desejo, ao contrário da intencionalidade, não é algo que se possa visar ou atingir por decisão própria, mas é algo que se impõe de si mesmo, por sua iniciativa, e que individualiza a pessoa, pois o desejo identifica-a de modo mais imediato do que o pensamento intencional de objetos.
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O desejo de beatitude, que é universal e inquestionável, não é acrescentado ao desejo de viver, mas a ligação entre o querer-viver e o desejo de beatitude é analítica a priori, e esta certeza do desejo pela beatitude não é precedida ou sustentada por nenhuma teoria certa sobre o que deseja, o que constitui o coração do argumento.
14. A vita beata como princípio
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A beatitude, ou a universalidade incondicionada do seu desejo, assume o estatuto de primeiro princípio, na medida em que é desejo, não conhecimento ou posse, e este princípio é tão certo que precede a dúvida cartesiana e se formula na impossibilidade de alguém querer viver sem desejar a vida feliz.
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O princípio do desejo de beatitude é uma certeza que conduz a um conhecimento “certíssimo”, que substitui o “inconcussum” cartesiano, e, para o desejo, o cogito, sum é substituído pela impossibilidade de querer viver uma vida infeliz, e a mesma razão torna-se prática e encontra o seu princípio apenas ao preço de desejar.
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O paradoxo deste princípio é que ele é absolutamente certo, mas nunca se pode confirmar, pois todos amam a beatitude sem a conhecer, e este conhecimento por desejo, que não é intencional nem representativo, é atribuído à memória, a uma memória do que nunca foi presente, do imemorial.
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A memória, como instância do imemorial, estabelece-se como o lugar próprio da vita beata, desejada sem ser conhecida, e o facto de a desejar incondicionalmente obriga a inferir que ela é conhecida de um modo excepcional, um conhecimento sem conceito ou representação, mas desejante.
15. O doado, mais do que o ego
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O desejo incondicionado por uma vita beata desconhecida ancora-se na verdade, mas numa verdade que se dá a conhecer para ser habitada e amada, e a alegria e o gozo tornam-se o índice sensível desta verdade, que não é apenas para ser contemplada, mas para ser fruída como um território onde se entra e se vive.
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Uma vez que Deus é um com a verdade, mas uma verdade convertível com a caridade e a eternidade, a vida feliz só pode residir na verdade divina, no Deus verdadeiro, e a vida, e a fortiori a vida feliz, não é possuída, mas recebida de Deus, que é a sua fonte.
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O ego é, portanto, reconhecido como aquele que deseja originalmente, e, mais originalmente do que como cogitans, ele é posto em jogo como amans, amante, e a questão que se coloca não é se se ama ou não, mas o que se ama, pois amar decide tudo sobre o ser.
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A distância do amante ao que ama é mais íntima do que qualquer igualdade do eu consigo mesmo, e quem percorre esta distância conhece-se a si mesmo porque conhece o outro eu que mais se assemelha a si do que ele próprio, e a caridade é o que há de mais interior, abrindo a distância dentro de si mesmo.
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Deus ocupa o lugar da vita beata, o lugar do desejo, e revela o lugar final e originário, de modo que a pessoa se encontra onde ama, e Deus aparece como o lugar do eu que se quer e se tem de tornar, sendo mais interior ao que há de mais íntimo e mais elevado do que o que há de mais alto.
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Ao percorrer a distância entre o eu e o lugar do eu, a pessoa depara-se consigo mesma e é recordada a si mesma, e este acontecer dá-se na medida em que se avança na distância, onde o eu se recebe ao mesmo tempo que o que recebe, como o doado, que recebe não só o dom recebido, mas também o eu que o recebe.
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A criação do ego é pensada na figura do doado, pois a pessoa nada tem e nada é que não tenha recebido primeiro, começando pelo próprio eu que recebe, e o ego vem do eu dado, e não o eu da autoconsciência do ego, numa separação radical entre o ego e o que lhe dá o eu.
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A distância entre o ego e o lugar do eu pode ser entendida como um hiato espacial em que se permanece fora do próprio centro, ou como um hiato temporal em que se está sempre atrasado em relação ao que dá o eu, de modo que o outro, que é Deus, nomeia o eu pela primeira vez, na medida em que o conhece e dispensa mais do que ele próprio jamais poderia.