O filósofo, ao dar nome ao divino, fixa-o em conceitos como primeiro motor, causa sui, ou ser infinitamente perfeito, mas a questão não é se o conceito se pode chamar Deus, e sim se esse conceito coincide com o próprio Deus, e as provas da existência de Deus, em
Tomás de Aquino, por exemplo, acrescentam um “quer-dizer” que estabelece uma equivalência entre o termo último da demonstração e Deus, mas esse “todos” que reconhece a equivalência não funda o discurso, e a equivalência permanece infundada e arbitrária.
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A metafísica, em sua constituição onto-teológica, pensa o ser a partir do ente, privilegiando o ente em seu ser, e o ente supremo, como causa sui, funda os demais entes, mas também é fundado por eles, num jogo de fundação mútua que define a onto-teologia, e o “Deus” da metafísica, como causa sui, é uma figura que serve ao fundamento, mas não é pensado por si mesmo, e permanece um ídolo conceitual que se ordena à onto-teologia.
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O “Deus” da onto-teologia, produto e para a onto-teologia, é um ídolo que não remete ao invisível, mas sim a uma função de fundamento, e a morte desse “Deus”, longe de encerrar a questão do divino, abre a possibilidade de um outro caminho, aquele que se mantém aberto para o Wesen divino, e que exige um silêncio que só é possível se se acessa o lugar onde a palavra discursiva não é mais apropriada.
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Esse silêncio, que Heidegger elabora em referência a São Paulo, aponta para uma “loucura” que é a sabedoria do mundo, e para a possibilidade de uma teologia cristã que tome a sério que a filosofia é loucura, e que, portanto, o “Deus” da onto-teologia é um ídolo, e que o sério de Deus só pode começar a aparecer se for fora da onto-teologia que se pretende avançar, assumindo a “loucura” da cruz.
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A questão que se coloca é se o ídolo onto-teológico, triunfante ou arruinada, fecha todo acesso ao ícone de Deus como “ícone do Deus invisível”, e para responder a essa questão é necessário percorrer a onto-teologia ao longo de seus limites, de suas marchas, que a defendem e a cernem, para, a partir daí, se expor ao que já não lhe pertence, e entrar no sério da loucura que visa o ícone e recusa o ídolo.
3. Discurso aos atenienses
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O discurso de Paulo no Areópago (Atos, XVII) mostra que a relação com Deus escapa à conceitualização que compreende as idolias, e que o “Deus desconhecido” não pode ser pensado por conceitos, mas nos compreende, pois é nele que vivemos, nos movemos e existimos, e essa incompreensibilidade é o que nos convoca a ver a própria invisibilidade de Deus.
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As idolias, ao mediatizar nosso conceito de “Deus”, são superadas quando nós mesmos somos convocados a mediatizar a relação das idolias com Deus, e o deus do debate se desloca: diante de Deus sem rosto, não o olhamos mais em uma face idolátrica, mas Ele primeiro nos olha e nos guarda sob seu olhar invisível.
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A ressurreição, mencionada por Paulo, é a confirmação da incompreensibilidade de Deus, que não pode ser encerrada em um conceito, e a loucura da cruz, a que Paulo se refere na Primeira Epístola aos Coríntios, é o critério para distinguir o “Deus” da onto-teologia do Deus da revelação.
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O itinerário que se anuncia é o de percorrer as marchas da onto-teologia, a partir de
Nietzsche,
Hölderlin e Dionísio, para, a partir daí, vislumbrar a distância que separa o ídolo do ícone, e a possibilidade de um discurso de louvor que não recai na idolatria conceitual.