6 Teologia

LUIJPEN, William. Phenomenology and Humanism. A primer in existential phenomenology. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1966

Fenomenologia e Teologia

[Introdução: fenomenologia existencial, questão de Deus e teologia]

Certas formas de pensamento fenomenológico-existencial não comportam questões genuínas sobre Deus, em razão de um a priori dogmático, enquanto outras atribuem máxima importância à dimensão religiosa da existência e buscam repensar os problemas religiosos a partir do ponto de vista fenomenológico-existencial.

O crente precisa ultrapassar as meditações filosóficas sobre homem e Deus à luz do movimento transcendente rumo a Deus, pois é o compromisso de fé que abre novos modos de pensar Deus e o homem à luz da palavra que Deus diz de Si e do homem, e esse falar humano guiado pelo falar divino chama-se teologia.

A teologia pressupõe também um “movimento” de Deus rumo à subjetividade, no qual é concedido ao homem o consentimento, o “sim” a Deus, em que o desejo que ele é se torna real e efetivo.

Filosofia e Teologia

A tarefa do filósofo e a do teólogo são paralelas: ambos buscam trazer a vida ao âmbito do pensamento, distanciando-se da imediaticidade do irrefletido (irréfléchi) para assumir diante dela uma atitude crítica, metódica e reflexiva.

A teologia jamais conclui sua tarefa enquanto compreendida como fala falante (parole parlante), pois as palavras teológicas só têm sentido como palavras ditas por sujeitos, expressões da experiência que o sujeito tem de sua realidade.

Por dar expressão à fé, a teologia necessita da filosofia, que lhe fornece conceitos disponíveis e adequados, os quais só gradualmente adquirem sentido propriamente teológico.

O êxito ou fracasso de uma filosofia depende menos do que ela diz do que daquilo que deixa de dizer, e a melhor filosofia para o teólogo é a que alcança uma conceitualização integrada e harmoniosa, fiel a tudo o que se “sabe” implicitamente na experiência vivida.

Uma filosofia que aborda o sujeito humano com conceitos e categorias originalmente referidos a coisas prejudica a teologia, pois uma linguagem incapaz de exprimir a experiência do outro não pode exprimir a relação entre homem e Deus.

O filósofo, enraizado num passado que é ao mesmo tempo inspiração e opressão, só constrói sistemas melhores aceitando e recusando a herança filosófica, atravessando-a para libertar-se dela.

Teologia e Atualidade

As palavras do teólogo dirigem-se a contemporâneos com problemas, limites e anseios de salvação próprios de seu tempo, o que exige conhecer os homens desse tempo e, portanto, a filosofia em que o homem contemporâneo se revela conceitualmente.

Por manter contato estreito com as esperanças e angústias de seu tempo, o teólogo moderno precisa conhecer a fundo a fenomenologia existencial, mesmo que viesse a julgá-la inadequada depois de purificada e corrigida, na medida em que ela exprime a atualidade do homem contemporâneo.

A teologia deve manter contato também com o futuro, cuja visão mais segura nasce do contato mais intenso com o presente, e os grandes filósofos, que veem o que outros ainda não veem, representam um aspecto da humanidade futura.

Expectativas

O valor específico de uma fenomenologia purificada e corrigida para a teologia só pode ser avaliado mediante estudo intensivo, mas as grandes esperanças dos teólogos apoiam-se na intuição de que ela restitui à filosofia a plena apreciação do lado pessoal e humano do ser do homem.

Meditação Fenomenológico-Teológica

A crítica sartriana da religião não pode ser ignorada pelos teólogos, pois seu conceito de Deus corresponde à representação de muitos cristãos, e Sartre percebe corretamente que Deus como “artesão superior” ou primeiro motor imóvel contradiz o homem como sujeito, liberdade contingente e ser historicizante.

As categorias causais derivadas da observação de objetos e dos manuais de física são inadequadas para exprimir a influência de Deus sobre o homem-sujeito, e a única categoria capaz de afetar entes de modo que deles resulte liberdade é o amor, tal como estudado na fenomenologia da intersubjetividade.

O homem criado pelo amor divino é “desejo natural de ver a Deus”, anseio impotente para realizar efetivamente seu ser e iniciar a relação intersubjetiva com Deus, e essa impotência constitui a pecaminosidade original do homem decaído, superada apenas no movimento agraciado rumo a Deus, em Cristo.

O sujeito agraciado, sendo Cogito e Volo, alcança no “sim” cognitivo e afetivo uma profundidade inacessível ao sujeito não agraciado, o que funda as virtudes teologais.

A vida sobrenatural é diálogo de pessoas, comunhão intersubjetiva e intimidade progressivamente aprofundada, mas Deus permanece distante, pois seu amor intensifica sempre mais o anseio do homem por Ele.