5 Temas

LUIJPEN, William. Phenomenology and Humanism. A primer in existential phenomenology. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1966

Temas da Fenomenologia Existencial

[Introdução: a fenomenologia como filosofia “completa”]

A fenomenologia deixou de ser mero método e tornou-se filosofia “completa”, o que explica que os fenomenólogos se ocupem dos mesmos grandes temas que fascinaram o pensamento humano ao longo dos séculos.

Uma Nova Atmosfera de Pensamento

A ideia de intentionalidade ou existência, tomada como fato primitivo do pensamento, é inteiramente nova na história da filosofia, e a abordagem fenomenológica dos velhos problemas ocorre numa esfera própria, que torna pouco pertinentes as comparações materiais com os resultados de outras filosofias.

Além de lançar nova luz sobre temas antigos, a fenomenologia possui temas próprios, dentre os quais se destaca, por sua importância central, a historicidade da existência humana.

A Existência como “Já” e como “Ainda-Não”: Projeto

Compreender o homem como subjetividade envolvida no mundo conduz ao problema da historicidade, pois a existência não é estática: o ser-no-mundo é simultaneamente ser-rumo-ao-mundo, e o ser-homem é um dinamismo denominado história.

A existência possui, contudo, um aspecto estático, o “já” da facticidade, particularidade e situação, mas toda facticidade encerra um poder-ser (Seinkönnen), e todo “já” abre para o “ainda-não”, formando uma unidade de oposição denominada projeto (Entwurf, Heidegger).

Tanto o ser fático quanto o poder-ser são modos de ser próprios do sujeito, irredutíveis aos das coisas, de modo que o projeto que o homem é constitui um projeto que se projeta a si mesmo.

O Sujeito como Afirmação e como “Nadificação”

Sartre descreve a intencionalidade como pura nadificação (néantisation), explicitando-a apenas em sua significação negativa e negligenciando seus aspectos positivos.

Ser sujeito é ser, ao mesmo tempo, afirmação e nadificação do mundo em que se está envolvido, e isso vale não só no plano cognitivo, mas também no afetivo, onde se exprimem o “sim” e o “não” co-originários.

A afirmação afetiva do mundo e de si unifica o sujeito e produz certa plenitude de ser, satisfação e felicidade, mas essa unidade jamais se completa, pois toda plenitude aparece acompanhada de um vazio co-originário.

A Existência como “Ter-de-Ser”

Entre sujeito e mundo subsiste uma distância afetiva insuperável, chamada “distância infinita”: a unidade entre ambos é inegável, mas igualmente evidente é a negatividade que a interpenetra, de modo que nenhum “sim” permanece isento de “não”.

O ser-homem é um ter-de-ser (Zu-sein, Heidegger; avoir à être, Sartre), pois o não-ser persegue constantemente o homem e penetra o coração do ser como o verme numa maçã sã (Sartre).

A Existência como Síntese de Presente, Passado e Futuro: História

O homem não é mera tarefa no mundo, mas co-originariamente execução dessa tarefa, e é justamente por não poder afirmar inteiramente nenhum sentido fático que ele avança continuamente rumo a uma das possibilidades encerradas em seu projeto.

O ter-de-ser caracteriza o homem como movimento de transcendência que ultrapassa continuamente a si mesmo, sem coincidir com nenhum sentido fático, e cuja existência é essencialmente inquietude.

A transcendência é síntese de presente, passado e futuro: a facticidade, o “já”, é o passado, que só é verdadeiramente passado em relação ao futuro, e o presente é a passagem do futuro ao passado.

O homem é sempre história humana, realização de seu ter-de-ser e, ao mesmo tempo, não-realização dele, porque o envolvimento do sujeito na realidade é essencialmente movimento negador.

O desejo natural que o homem essencialmente é não é anseio psicológico, passível de renúncia se não satisfeito, mas o próprio homem como anseio insatisfeito e impossível de satisfazer: “inquieto é nosso coração até…” (Agostinho).

A clareza obtida ao pensar o sujeito apenas como envolvimento no mundo é paga com a desvalorização do Transcendente e o desconhecimento da verdadeira natureza da existência, pois o Transcendente não é objeto mundano, e sua afirmação não é da mesma ordem que a do mundo.

História e Ética

Na existência opera um “ter-de”, um dever-ser, ao qual o homem não pode dizer “não” sem, nessa própria recusa, construir e realizar algo, ainda que de modo indigno.

O ser do homem é ser ético, um ter-de-ser-ligado-à-objetividade, e o sentido objetivo do outro-como-sujeito revela-se como apelo à existência própria, que se descobre como destino-para-o-outro, ter-de-ser-no-mundo-para-o-outro.

Uma Concepção Desastrosa

Para o marxismo, o homem está prestes a deixar sua pré-história e entrar num paraíso de fraternidade e paz, a ser alcançado pela justa organização dos meios de produção e pela evolução da história coletiva, de modo que só então o homem se tornará verdadeiramente homem.

Essa visão ingênua negligencia a diferença entre formas sociológicas e formas éticas de coexistência, embora seja verdade que existir é sempre coexistir e que a existência se caracteriza como “nós estamos em nosso mundo”, não como “eu estou em meu mundo”.

O “nós” do mundo da produção e do trabalho merece lugar de destaque, pois os meios de produção exercem forte coesão social e moldam as relações entre as pessoas.

Para Marx, o homem universal do futuro já se esboça, em forma negativa, no proletariado, privado de toda particularidade e identidade pela opressão capitalista e reduzido a pura massa de solidariedade.

O erro fatal de Marx consiste em crer que alguma forma sociológica de coexistência constituiria por si mesma (ipso facto) uma forma ética de coexistência, quando amor e ódio ocorrem em todas elas, inclusive numa comunidade mundial de trabalhadores.

“Mãos Sujas”

O valor de uma comunidade não se mede pela grandeza de sua constituição, pela eloquência de seus discursos cívicos ou pelas inscrições de seus monumentos, mas pelo valor das relações mútuas entre seus membros (Merleau-Ponty), que exigem o reconhecimento universal de todos os homens como homens.

O mundo atual suprime e destrói a subjetividade por meio da intolerância fanática, frequentemente disfarçada de religiosidade autêntica ou “zelo democrático”, da discriminação racial e da injustiça econômica.

Alguns resistem a esse homicídio encoberto pelo homicídio aberto e são punidos como assassinos, com “mãos sujas”, mas o restante da sociedade tampouco pode ter consciência limpa.

É Possível uma Solução?

É impossível retirar as mãos e refugiar-se na interioridade da consciência e na pureza das boas intenções, pois retirar as mãos para mantê-las limpas continua a sujá-las: não fazer nada é ainda fazer algo.

A culpa em questão não é pessoal, mas coletiva, sem absolvição sacramental, e só pode ser expiada por um esforço incessante de humanização do mundo, de torná-lo hospitaleiro para todos.

A força capaz de impelir a tarefa de humanizar o mundo é o amor, desde que compreendido em sua natureza autêntica: amor verdadeiro é o que transforma as estruturas objetivas do mundo de modo que já não possam suprimir a subjetividade humana.