2 Intencionalidade

LUIJPEN, William. Phenomenology and Humanism. A primer in existential phenomenology. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1966

A Consciência como Intencionalidade

[Introdução: intencionalidade e Cogito cartesiano]

A intencionalidade é incompatível com o Cogito cartesiano, seja ele interpretado de modo realista ou idealista, pois ambas as leituras repousam sobre a cisão da realidade em res cogitans e res extensa.

Pré-história do Conceito de Intencionalidade

A intencionalidade, na acepção husserliana, implica a negação irrevogável tanto do idealismo quanto do realismo, o que não vale para suas formulações anteriores em Brentano e na escolástica.

A Concepção de Husserl

Para Husserl, a própria consciência é intencional: presença a uma realidade que ela mesma não é, sendo essa acessibilidade ao real não uma elaboração posterior de uma consciência previamente isolada, mas o próprio ser da consciência.

A fenomenologia também supera o realismo do mundo-em-si à espera de espelhamento por uma consciência passiva, ao conceber a consciência como já ativamente envolvida no mundo e como aquilo que deixa o mundo ser o que é.

A Objetividade do Mundo

A objetividade do mundo não admite interpretação objetivista, pois uma realidade considerada anterior ao pensamento e à consciência não pode sequer ser pensada, e um mundo sem consciência é um mundo sem sentido.

A objetividade tampouco admite interpretação subjetivista: ela é desocultamento (alétheia; Unverborgenheit) das coisas mesmas, arrancadas do ocultamento pelo deixar-ser (Seinlassen) próprio da consciência.

A concepção da consciência como encontro fundamenta a recusa fenomenológica da interpretação objetivista e absolutista da verdade, entendida como correspondência entre conhecimento e sentido de um mundo separado da consciência.

O chamado problema crítico, em sua forma tradicional, deixa de ser problema quando a intencionalidade é compreendida como ser-dirigido-ao-mundo, unidade de implicação mútua entre mundo e consciência (Kwant).

A tese heideggeriana de que, se nenhum ser-aí (Dasein) existe, não há mundo (wenn kein Dasein existiert, ist keine Welt da) constitui a conclusão rigorosa e última da intencionalidade, cuja recusa reconduz automaticamente ao cartesianismo.

Objeções

A objeção de que o próprio conhecimento revela o mundo como independente da consciência assenta num mal-entendido, pois essa independência não autoriza afirmar o mundo fora do âmbito da afirmação humana, único âmbito em que o verbo “ser” tem sentido.

O mesmo raciocínio implica que, sem o homem, não há Deus (para o homem), o que não constitui ateísmo: se há Deus, Ele é um Deus-para-mim (Jolivet).

A objeção de que a fenomenologia nada traz de novo deve ser plenamente admitida: não se trata de abrir portas já abertas, mas de apontá-las e convidar a atravessá-las (Rümke).

Sartre Não É Fenomenólogo, mas Pensador Cartesiano

As extensas descrições sartrianas do mundo-em-si (monde-en-soi) carecem de sentido, e sua origem revela-se na inversão das qualificações do em-si-para-ele (en-soi-pour-lui).

O absurdo que Sartre atribui ao em-si (A Náusea) não pertence ao em-si, mas à pretensão de falar dele; ao descrevê-lo, Sartre deixa de ser fenomenólogo.