A questão do suposto biologismo de
Nietzsche – abordada no terceiro curso, “A vontade de poder como conhecimento” (1939) – é respondida por Heidegger com a tese de que
Nietzsche não pensa o biológico biologicamente, mas metafisicamente: “
Nietzsche pensa o 'biológico', a essência do que é vivo, na direção do comandar e poetar, do perspectivístico e horizonal: na direção da liberdade”.
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O campo essencial em que a biologia se move não pode ser posto e fundamentado pela própria biologia, mas apenas pressuposto: toda ciência que não formula “proposições de campo” sobre seus próprios fundamentos e limites não pode “forjar história” – e o biologismo, como a Lebensphilosophie e a “metafísica da vida”, são rubricas que bloqueiam o acesso ao pensamento fundamental de
Nietzsche.
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“Quer se vote sim ou não ao 'biologismo' de
Nietzsche, fica-se sempre no primeiro plano de seu pensamento (…) devemos aprender a 'ler'.”
A “leitura do caos” conduz Heidegger ao tema do “corpo que se corporifica”, das leibende Leben: o corpo humano não pode ser contraposto ao propriamente biológico – “o corpo é permeação e passagem ao mesmo tempo (…) flutuando no fluxo de vida, além ou aquém de qualquer distinção entre atividade e passividade, o caos em espiral em círculos maiores de caos”.
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“Caos é o nome para a vida que se corporifica, a vida como corporificação em grande escala” – e o poetizar como perspectivismo comandante é a semiótica da vida como corporificação, inscrita no vasto palimpsesto do caos.
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Heidegger, porém, não persegue o problema até onde o pensamento de
Nietzsche o conduz: em nenhum momento desenvolve a questão da vida-morte como retorno eterno da vida da cinza e da cinza da vida.
O pensamento freudiano da morte imanente – influenciado por August Weismann e por Eugen Korschelt, colega de Heidegger em Marburg – converge paradoxalmente com a análise existencial-ontológica heideggeriana da morte, ainda que
Freud e Heidegger nunca se tenham lido e Heidegger jamais tenha ido ao encontro da psicanálise.
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Para
Freud em Para além do princípio do prazer (1920), a pulsão é “uma compulsão imanente ao organismo animado para restaurar um estado anterior” – e “se podemos tomar como experiência sem exceção que todo ser vivo morre por razões internas (…)”, a morte é imanente à vida; mas o próprio
Freud duvida dessa suposição, reduzindo-a a um costume sedimentado pelos poetas “para suportar o fardo da existência”.
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O conceito existencial pleno de morte em Heidegger articula cinco traços: a morte é a possibilidade mais própria, não relacional, certa e, como tal, indeterminada quanto ao seu “quando”, e intransponível – sendo a indeterminação o traço que desloca a propriedade da possibilidade mais própria e faz com que a iminência da morte torne problemática toda forma de imanência.
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Derrida, em “Spéculer – sur '
Freud'”, observa que
Freud e Heidegger, “segundo os critérios usuais, nunca se leram, muito menos se encontraram (…) e, no entanto, esses dois 'textos' estão preocupados um com o outro, passando todo o seu tempo a decifrar um ao outro, chegando a se assemelhar, como se acaba por se assemelhar ao que se exclui”.
A vida-morte daimônica – Ζωήθάνατος – designa a condição em que a morte é simultaneamente imanente (sempre já presente) e iminente (sempre apenas na iminência de advir), deslocando toda propriedade e toda certeza: “a iminência indeterminada, que é um nome para a transcendência finita, τò δαιμóνιον, assombra toda imanência” – e o pensamento que a aborda só pode ser exquisitamente paranoético, incapaz de colapsar numa monismo supino ou de sustentar um dualismo estável.