Coloca-se a questão do que aconteceria ao Deus do Possível se a terra fosse destruída, e três surmises poéticos são oferecidos:
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Como perduração eterna e fidelidade constante, Deus continuaria como promessa sem fim de amor e justiça, como um amante abandonado ou, na metáfora de Hildegarda de Bingen, como uma árvore privada de seu verdor (viriditas) – ainda adventurus, mas não mais futurus.
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Como memória eterna (passado), o posse divino preservaria todos os momentos escatológicos em que o divino se encarnou na carne do mundo cada vez que alguém deu um copo d'água a outro – momentos repetidos eternamente na lembrança divina, em consonância com Isaías 49:15 e o Salmo 105.
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Como eterno advento (futuro), mesmo privado de sua realização histórica, Deus conservaria a possibilidade de recomeçar, pois o posse é a possibilidade do início sem fim.
O caráter escatológico da memória bíblica (zakhor) – presente na fórmula eucarística “fazei isto em memória de mim” (eis ten emen anamneisin) – implica uma dupla repetição voltada simultaneamente para o passado e o futuro: “Continuai reunindo-vos em minha memória para que Deus me recorde, cumprindo a promessa de realizar a consumação do amor, da justiça e da alegria na parusia. Ajudai-me a ser Deus!”
Paulo glosa a fórmula eucarística em 1 Coríntios 11:23-25: “Toda vez que comerdes este pão e beberdes este cálice, proclamais a morte do Senhor até que ele venha” – o maranatha litúrgico (vem, Senhor!) celebra a morte de Cristo não como mero evento histórico, mas como advento escatológico, inauguração de uma Nova Aliança.
A íntima relação entre o pedido eucarístico de repetição e o ritual da Páscoa judaica sugere que, tanto no judaísmo quanto no cristianismo, o advento do Reino se concebe como uma recuperação para a frente do passado como futuro.
O Deus do posse bate à porta não duas, mas mil vezes – infinitamente, sem cessar – até que não haja porta fechada nem criatura, por menor que seja, deixada do lado de fora com frio, fome, sede, sem cuidado, sem amor ou sem redenção, e o convite ao Reino se cumpra: um copo d'água dado ao menor destes, pão e vinho partilhados com os famintos e desabrigados, “uma boa refeição e – é prometido – um tempo ótimo que dura até as primeiras horas da manhã. Uma manhã que nunca termina.”