JONAS, Hans. Entre le néant et l’éternité. Paris: Belin, 1996.
Homo Pictor e a Diferença do Homem
1. A antropologia filosófica pode determinar a diferença específica do homem no reino animal através de um experimento mental heurístico, onde exploradores em outro planeta buscam evidências da presença de “homens” entre as criaturas, sem depender de suportes morfológicos familiares, mas buscando um testemunho mínimo que seja conclusivo para uma analogia de essência.
2. A produção de imagens surge como uma pista particularmente reveladora, pois sua simplicidade fenomenológica oferece uma vantagem hermenêutica em relação à linguagem, e o conceito de “imagem” é menos controverso do que o de “palavra”, permitindo um acordo mais fácil sobre o que constitui uma imagem.
3. Um desenho rudimentar, mesmo o mais grosseiro, prova a superioridade de natureza de seu criador em relação ao animal, indicando que ele é um ser potencialmente falante, pensante, inventor, ou seja, um ser “simbólico”, e é por sua qualidade formal, e não por seu grau de perfeição, que a prova revela o que tem a revelar.
4. A produção de imagens é biologicamente inútil, pois não modifica o ambiente nem o estado do organismo, e uma criatura que produz imagens se dedica à fabricação de objetos inúteis, tendo fins não puramente biológicos, o que implica uma nova relação com o objeto, onde o interesse se fixa em seu *eidos*.
5. As propriedades que permitem a um objeto tornar-se imagem de outro são: a semelhança imediata e reconhecível; a intencionalidade, onde a semelhança é um artefato que perpetua a intenção do produtor; e a incompletude da semelhança, que deve ser perceptível para que a imagem não seja confundida com o objeto real.
6. A relação de imagem é unilateral: a coisa artificial é imagem da coisa natural, mas o inverso não é verdadeiro, e a incompletude da semelhança é essencial para que a imagem apareça como “simples semelhança” e não como uma simulação ou réplica.
7. A imagem não é apenas semelhante a algo, mas “quer” representar algo, e essa intencionalidade é reconhecível como tal, e a imagem pode ser estilizada ou simplificada, desde que a referência ao objeto permaneça, e há uma liberdade de escolha quanto ao grau de semelhança.
8. O objeto da representação é a forma visual, cuja identidade depende da relação entre suas partes, e a visão sugere a ideia de representação, pois a forma pode ser representada em diferentes tamanhos, cores e materiais, e a vista é o principal meio perceptivo da representação, sendo a pátria da abstração.
9. A imagem, embora inativa, pode representar movimento e ação, pois o que é representado está separado da relação causal com as coisas, transposto para uma existência não dinâmica, e a imagem é uma presença não causal, subtraída às contingências do evento real.
10. A estrutura da imagem é tripla: o substrato físico, a imagem ou semelhança como entidade ideal, e o objeto reproduzido, e essa dupla distinção permite que a imagem desfrute de uma presença não causal e que seja reproduzida como um duplicata da mesma imagem.
11. A diferença entre a imagem e o objeto reproduzido permite que uma imagem represente um número ilimitado de objetos, pois a representação, que passa pela forma, é essencialmente geral, simbolizando a generalidade suspensa entre a individualidade da coisa-imagem e das coisas-copiadas.
12. A percepção de algo como imagem e não apenas como objeto exige a capacidade de separar mentalmente a forma da matéria, e a semelhança deve ser compreendida como “pura semelhança”, uma dimensão conceitual na qual todos os graus de semelhança podem ser encontrados.
13. Na experiência da imagem, o objeto percebido diretamente é apreendido não em si mesmo, mas como representante de outro objeto, e o elo ideal, a semelhança ou o *eidos*, torna-se o verdadeiro objeto apreendido, um princípio que implica a separação mental da forma e da matéria.
14. A separação da forma e da matéria é a condição para a presença por procuração do que está fisicamente ausente e para o auto-apagamento do que está presente, e o conhecimento da imagem como imagem envolve a dupla distinção entre imagem e suporte físico, e entre imagem e objeto copiado.
15. O princípio da separação da forma e da matéria, que permite a representação externa, é um princípio de liberdade e de domínio, e a percepção visual já envolve um elemento de abstração, pois para ver o objeto é necessário fazer abstração da própria afecção sensorial.
16. A visão realiza um duplo feito de abstração: destacar o objeto autônomo de seu conteúdo afetivo de sensação e manter sua identidade através de uma série de transformações de sua aparência, e cada aspecto, ou ponto de vista, representa simbolicamente o objeto.
17. A faculdade de representar, ao traduzir um aspecto visual por uma semelhança material, atinge um novo nível de mediação, onde a presença do *eidos* não depende mais da presença da coisa, e a aparência, distinta da realidade, interpõe-se entre o eu e o real.
18. A liberdade de desfrutar da aparência se realiza primeiro na imaginação, que é uma experiência interior da representação, e a imagem externa é a libertação da memória, pois ela preserva o que foi visto sem depender do fluxo do eu, e a imagem tornada externa é uma memória exteriorizada.
19. A imagem externa pode ser compartilhada, é uma objetivação da percepção individual, e o processo de representar força a visão a distinguir e a relacionar o que era possuído conjuntamente, fazendo com que o artista veja mais coisas, e a *adaequatio imaginis ad rem* é a primeira forma de verdade teórica.
20. A liberdade que escolhe representar também pode escolher se separar da semelhança, e a primeira linha traçada intencionalmente abre uma dimensão de liberdade que transcende a realidade presente, oferecendo uma variação infinita como reino do possível.
21. A produção de imagens revela o poder do homem sobre seu corpo, o controle eidético da motricidade, onde a ação muscular é comandada por uma forma livremente escolhida, e o controle eidético da imaginação, com sua liberdade de esboço, completa o controle eidético da motricidade, tornando possível a liberdade humana.
22. O poder de dar nomes às coisas, como o ato de Adão, é análogo ao poder de fazer imagens, pois o nome genérico e a imagem genérica apreendem o *eidos* que transcende as coisas particulares, e a produção de uma imagem repete o ato criador que se esconde no nome.
23. A descoberta de uma representação pictórica, mesmo que primitiva, permite aos exploradores concluir que encontraram criaturas que desfrutam da liberdade corporal e psíquica que chamamos de humana, que dão nomes às coisas e possuem linguagem, e que a abstração manifesta nessa semelhança pode levar à geometria, ao conceito racional e à tecnologia.
24. A potencialidade indicada pela faculdade pictural é o nível de uma mediação não animal na relação com os objetos, e uma distância em relação à realidade mantida e superada por essa mediação, e a existência de imagens, mostrando que a forma é arrancada do fato, testemunha essa mediação e a evidência da liberdade humana.
25. O critério da tentativa de semelhança sensível, mesmo que falhada, é mais fundamental e completo do que a exigência de figuras geométricas, pois ele testemunha a liberdade dos produtores, transcendente em relação ao reino animal, e o abismo entre a relação do animal com o mundo e a tentativa mais fruste de representar é infinitamente mais profundo do que aquele entre esta e qualquer construção geométrica.