GREISCH, Jean. L’arbre de vie et l’arbre du savoir: le chemin phénoménologique de l’herméneutique heideggérienne, 1919-1923. Paris: Editions du Cerf, 2000.
DA ANALÍTICA DA FINITUDE À HERMENÊUTICA
A HERMENÊUTICA DA VIDA FÁTICA (MARTIN HEIDEGGER)
1. O misto de fascínio e reticência que liga Foucault ao Heidegger de Ser e Tempo torna instrutiva a comparação de suas concepções de finitude; o pensamento heideggeriano oferece um segundo grande paradigma de analítica da finitude, mas com dimensão hermenêutica explícita e declarada.
2. Heidegger é um pensador da finitude tanto em sua analítica da existência, que desemboca no projeto de uma ontologia fundamental em Ser e Tempo, quanto em sua ontologia pós-metafísica do Ereignis, elaborada a partir da virada de 1936-1938.
3. A questão que retém atenção é a da feição explicitamente hermenêutica da analítica heideggeriana da finitude, que repousa também sobre uma apropriação precisa do pensamento kantiano.
4. A partir do momento em que a analítica da finitude se confunde com a analítica dos modos de ser do Dasein, a conexão estreita com a positividade do saber, sublinhada por Foucault, cede lugar a outras preocupações que explicam por que essa analítica se abre a uma hermenêutica cujo estatuto deve ser definido.
5. A interpretação existenciária do fenômeno do ser-para-a-morte é, em Ser e Tempo, o lugar hermenêutico por excelência onde o conceito de finitude atinge plena densidade fenomenológica e ontológica.
6. A finitude só é pensável e existencialmente compreensível como ser-para-o-fim (Sein zum Ende), isto é, à luz da cura (Sorge); precisamente porque o conceito existenciário de fim contém mais que o conceito epistemológico de limite, a compreensão da finitude não pode ser tirada diretamente dos saberes positivos que ela apenas repetiria.
7. A compreensão da finitude precede toda biologia e ontologia da vida; existência, facticidade e decadência caracterizam o ser-para-o-fim e são constitutivas do conceito existenciário de morte, e o morrer se funda, quanto a sua possibilidade ontológica, na cura (Sorge), declaração que marca o limiar a partir do qual se desdobra a hermenêutica da finitude em Ser e Tempo, culminando na tese da finitude originária da própria temporalidade.
8. Na declaração citada figuram os dois termos-chave de facticidade e existência; antes mesmo de ser uma hermenêutica da finitude, a fenomenologia heideggeriana começou por se definir como hermenêutica da vida fática.
9. Por razões genealógicas e sistemáticas, deve-se hoje repatriar a analítica do Dasein na hermenêutica da facticidade, de que ela é proveniente.
10. Pergunta-se o que significa facticidade, por que esse termo reclama uma hermenêutica e como definir sua feição; a resposta completa exige análise detalhada do conjunto dos primeiros cursos de Friburgo, que será objeto dos capítulos seguintes.
11. Por ora, faz-se um primeiro enquadramento do perfil dessa hermenêutica, remetendo a algumas fórmulas programáticas do Relatório Natorp, redigido em 1922, que contém in nuce o esboço de um programa de pesquisas fenomenológicas do qual Ser e Tempo será a expressão mais madura.
12. Pergunta-se o que há na ideia de facticidade que não esteja já contido nas noções de contingência e finitude; o problema para Heidegger era reabilitar contra o logisticismo um conceito de facticidade que não se reduzisse a um misticismo opaco e cego.
13. A facticidade recobre em parte as noções de contingência e finitude, mas o ponto de partida não é exatamente o mesmo; na ótica fenomenológica, o traço distintivo da vida fática é a experiência de uma certa pesantez.
14. Oneri mihi factus sum, diz Santo Agostinho no livro X das Confissões; na interpretação fenomenológica e hermenêutica desse passo, o Dasein se auto-experimenta como pesantez.
15. O que no registro da Befindlichkeit (afecção) se manifesta como pesantez apresenta-se no registro da compreensão como dificuldade; a vida fática é fundamentalmente problemática, impregnada de questões que constituem sua interrogatividade (Fraglichkeitscharakter) específica.
16. Sua principal característica é uma mobilidade ou mouvance (Bewegtheit) sui generis, sendo todo o problema encontrar as categorias interpretativas que permitam compreender esse arrebatamento da vida.
17. O que comanda esse arrebatamento é a cura (Sorge); por isso Heidegger pode declarar que o sentido fundamental da mobilidade fática da vida é a cura (curare).
18. Por trás do substantivo Sorge (cura), a hermenêutica da vida fática deve discernir o movimento ou os movimentos do Sorgen, chamado inicialmente Bekümmerung, traduzível por solicitude; os movimentos fundamentais da vida só podem ser compreendidos fenomenológica e hermeneuticamente no horizonte da mobilidade fundamental da cura (Sorgensbewegtheit).
19. Esses movimentos, por serem obra da cura, apresentam a feição geral da inclinação da vida fática à decadência (Verfallensgeneigtheit des faktischen Lebens), mostrando que a ideia de facticidade contém mais que a simples ideia de finitude e limitação.
20. Uma descrição fenomenológica mais precisa deve analisar a multiplicidade de estruturas de sentido implicadas na decadência: o que se apresenta primeiro como propensão da cura (Hang) explicita-se como destacamento de si mesmo (Abfallen), como declive que se abandona ao mundo (Verfallen) e como ruína de si mesmo (Zerfallen).
21. A complexidade desse léxico atesta a riqueza das estruturas de sentido que a noção abstrata de contingência mascara.
22. O fato de Heidegger falar de explicitações (Auslegung) imanentes à própria vida mostra que a ideia de facticidade é de ponta a ponta hermenêutica não por razões acidentais, mas intrínsecas; a hermenêutica não se enxerta de fora sobre a facticidade, mas surge da própria vida fática.
23. Dá-se um passo suplementar na explicitação hermenêutica da facticidade introduzindo o motivo da tentação, sem que seja preciso esperar a consciência religiosa, e em particular a consciência religiosa cristã, para interpretar a inclinação à decadência em termos de prova e tentação.
24. A releitura heideggeriana da análise agostiniana das três formas fundamentais de tentação no livro X das Confissões desempenhou papel decisivo na descoberta da significação existenciária desse fenômeno, mas desde o início seu comentário busca anexar a interpretação agostiniana em proveito exclusivo da ideia de facticidade.
25. O nono capítulo será consagrado à análise detalhada da originalidade, mas também das ambiguidades, dessa estratégia de apropriação do pensamento agostiniano.
26. O que caracteriza em seguida a vida fática é uma certa ocultação constitutiva: desde o início a vida se subtrai a si mesma, afastando-se continuamente de si (Sich-selbst-aus-dem-Weg-gehen).
27. Em termos mais positivos, essa esquiva corresponde ao fenômeno da mediocridade (Durchschnittlichkeit), em que o sujeito sucumbe ao discurso público do On; essa esquiva, cujo eco se encontra no § 27 de Ser e Tempo, exige também um trabalho de interpretação.
28. Só então Heidegger introduz na descrição da vida fática o traço específico da mortalidade, isto é, a maneira particular como o vivente se cura da morte, ainda que sob o modo da total despreocupação.
29. O fato de ter diante de si a iminência da morte, seja na forma da cura que procura fugir, seja na da solicitude que a enfrenta, é elemento constitutivo do caráter ontológico da facticidade.
30. Trata-se de um elemento constitutivo, mas não o único: a ideia de facticidade é demasiado rica para ser reduzida à dimensão da mortalidade; se esse aspecto reveste importância particular, é porque a morte, guardada em sua iminência, é ao mesmo tempo o fenômeno a partir do qual a temporalidade específica do ser-aí humano deve ser explicitada e trazida à luz.
31. Nesse sentido preciso, a morte revela a particularidade fundamental da vida fática, a saber, que ela é um ente para o qual, em sua maneira de se desdobrar temporalmente, vai seu próprio ser.
32. Ao término dessa primeira abordagem do conceito de facticidade, destacam-se três traços que decidem sua feição hermenêutica.
33. O primeiro é a não transparência (Diesigkeit): a vida fática nunca é totalmente transparente a si mesma e não se submete à pureza cristalina exigida pelo primeiro Wittgenstein das significações lógicas, mas tampouco é redutível a uma torpor bruto e cego, caótico e inarticulado (Dösnis).
34. O justo meio entre a impossível transparência total de si a si e a opacidade igualmente total da noite do irracional é designado por expressão tomada aos meteorologistas: a vida fática é brumosa (diesig); essa brumosidade (Diesigkeit) ou translucidez de um tipo muito particular requer um trabalho de interpretação específico, consistente em desprender as categorias hermenêuticas ou interpretativas de que a própria vida é portadora.
35. O segundo traço é o desvio (Umwegigkeit): a vida fática nunca se desenrola conforme um plano preconcebido; mesmo sendo autossuficiente (selbstgenügsam), só por desvios seu próprio ser lhe torna-se acessível.
36. Precisamente porque se cura de sua própria existência, ela é desviada (umwegig); esse desvio é hermeneuticamente produtivo, pois só assim a vida fática pode ser compreendida como existência.
37. O terceiro traço, o mais original e também o mais desconcertante da hermenêutica heideggeriana da vida fática, é que ela implica necessariamente a tarefa da destruição (ou desconstrução /Abbau/) fenomenológica.
38. Desde seu jorro inicial, a vida fática já procura afastar-se de si mesma; assim, toda significatividade vivida, no plano do mundo ambiente, do mundo comum ou do mundo próprio, mas sobretudo neste último, implica a possibilidade de seu próprio esmaecimento (Verblassen).
39. Seria errado interpretar essa possibilidade por analogia com um objeto de visão que se torna confuso à medida que o observador se afasta; o que Heidegger chama esmaecimento corresponde a fenômenos existenciais como o tédio, o sentimento de vazio, de futilidade, de inquietude, de nojo, de decadência, etc.
40. São justamente esses fenômenos de desfocagem existencial, que um filme recente de Woody Allen ilustra a seu modo, que requerem uma interpretação.
41. Essa interpretação será necessariamente uma des-truição, isto é, o esboço de um contramovimento que compensa o afastamento da origem por um novo retorno à origem: a possibilidade da existência é sempre a da facticidade concreta enquanto modalidade de seu desdobramento temporal em sua temporalidade.
42. O que a existência mostra não pode absolutamente ser interrogado diretamente e de maneira geral; ela só se torna evidente a si mesma na colocação em questão efetiva da facticidade, na destruição a cada vez concreta da facticidade, quanto aos motivos da mobilidade, suas orientações e o que ela tem à disposição voluntária.
43. Desenvolveu-se hoje toda uma corrente filosófica sob a bandeira da ideia de destruição ou desconstrução; por isso parece mais urgente que nunca refletir sobre o estatuto específico que a destruição heideggeriana reveste no quadro de sua hermenêutica da facticidade, muito antes que a necessidade de uma desconstrução da metafísica da presença se lhe impusesse.
44. Entendida em sentido fenomenológico e hermenêutico, a destruição não pode ser um programa, uma consigna metodológica ou o slogan de uma escola de pensamento; como a própria hermenêutica, ela só existe in actu exercito.
45. Longe de reconduzir a uma autenticidade ainda não atingida por um movimento de afastamento (ou, para dizê-lo com Derrida, de diferenciação), a ideia heideggeriana de desconstrução pressupõe a mobilidade fundamental da facticidade, da qual não pode nos livrar de uma vez por todas instalando-nos numa autenticidade absoluta.
46. Por essa razão também a ideia de facticidade é muito mais rica que a simples ideia de finitude; os vínculos entre fenomenologia, hermenêutica e desconstrução que se entreveem serão analisados em detalhe no quarto capítulo.