Segundo Rorty, a hermenêutica oferece uma resposta dupla às questões sobre o futuro da filosofia, negando a epistemologia e afirmando a educação ou a autoformação (
Bildung), sendo que a epistemologia, para ele, constitui em sentido amplo uma espécie de fundacionismo, visto que postula a necessidade de fornecer uma base epistemológica última para a filosofia, e em sentido estrito representa a ciência normal, tal como Thomas Kuhn a concebera, ou seja, um complexo de métodos e conteúdos que se desenvolvem dentro de paradigmas dominantes. Contra tal fundacionismo, a hermenêutica oferece uma alternativa clara, encontrando Rorty confirmação nisso na crítica que Gadamer lançou contra o conceito de fundamentação última de Edmund
Husserl, ao mesmo tempo em que a hermenêutica está inteiramente preparada para dialogar com a epistemologia enquanto discurso normal, demonstrando assim sua capacidade não apenas de permitir a interação de vários discursos normais, mas também de se abrir para discursos anormais, isto é, para discursos articulados em paradigmas alternativos e incomensuráveis com o paradigma dominante. Como o discurso normal supostamente necessita do anormal, este último é sempre reativo ou parasitário, o que parece gerar mais de uma dificuldade tanto para a hermenêutica quanto para a filosofia em geral, pois ou a hermenêutica se identifica com o discurso anormal, abrindo espaço para uma filosofia sistemática envolvida com o discurso normal, ou admitiria, de modo igualmente perigoso, a articulação de um discurso normal que poderia, contudo, ser elevado a um discurso fundacional.